O magistrado que examinou o conflito entre a plataforma de viagens Booking e parte de seus empregados concluiu que a empresa pode exigir presença física em pelo menos 40% do tempo de trabalho, rejeitando a tese de que a semana inteira em casa seria um direito consolidado.
A sentença, proferida na Holanda, acolheu o argumento de que o convívio entre colegas alimenta a cultura corporativa e a colaboração espontânea que o remoto puro dilui.
O caso não trata de um benefício pontual nem de um acordo individual isolado: trata da fronteira entre a flexibilidade conquistada na pandemia e o poder de direção do empregador quando a organização do trabalho volta a ser disputada no chão da empresa e na sala do tribunal.
A Booking, conhecida no Brasil pelo site e pelo aplicativo de reservas de hotéis e acomodações, manteve a linha de que o escritório continua sendo espaço de formação de vínculos, de alinhamento rápido e de transmissão informal de práticas que não cabem só em reuniões virtuais.
Do outro lado, trabalhadores e representações que defendiam o home office integral sustentavam que a produtividade já havia sido demonstrada à distância e que impor deslocamentos regulares romperia arranjos familiares, de moradia e de custo de vida construídos nos últimos anos.
O tribunal, ao dar razão à companhia no ponto central da presença mínima, deslocou o eixo do debate: a questão deixou de ser apenas se o trabalho rende em casa e passou a ser se a cultura organizacional pode ser exigida como parte da própria prestação de serviço.
O que a decisão fixou sobre a jornada fora de casa
Na prática, o percentual de 40% significa que a empresa pode estruturar a semana de modo que o empregado compareça ao escritório em fração relevante do tempo, sem precisar provar, a cada dia, um prejuízo concreto da ausência.
A lógica acolhida pelo juiz é a de que o contato presencial entre pares não é um luxo de convivência, mas um instrumento de coesão, de aprendizado lateral e de pertencimento que a organização tem interesse legítimo em preservar. Isso não equivale a decretar o fim do remoto: o modelo que sobra é o híbrido com piso de presença, e não a volta automática aos cinco dias sob o mesmo teto.
Ainda assim, a mensagem jurídica é clara para quem negociava a permanência total em casa como se fosse cláusula pétrea do contrato. O processo ganhou relevo porque a Booking opera em escala global e porque o setor de tecnologia e de plataformas digitais foi um dos que mais normalizou o trabalho distribuído.
Quando uma empresa desse porte obtém respaldo judicial para frear a semana inteira remoto, o precedente simbólico ultrapassa as partes e alimenta conversas em comitês de gente, em sindicatos e em departamentos jurídicos de outras companhias.
A reportagem do jornal holandês AD registrou o cerne do raciocínio: o juiz considerou lógico interromper a ideia de uma semana de trabalho completa em casa quando a empregadora demonstra preocupação com a cultura de trabalho sustentada pelo encontro entre colegas.
Por que o contato entre colegas virou peça central do processo
A cultura corporativa, nesse enquadramento, não aparece como cartaz de valores na recepção nem como discurso de convenção anual. Aparece como o conjunto de hábitos, de correções de rumo em corredores, de mentoria informal e de leitura de clima que só se completa quando as pessoas compartilham o mesmo ambiente com alguma regularidade.
Gestores que defenderam a volta parcial ao escritório costumam descrever a perda de “densidade” nas equipes 100% remotas: decisões demoram mais a circular, novatos demoram mais a absorver o jeito de trabalhar e conflitos pequenos crescem porque faltam sinais não verbais. O tribunal holandês, ao validar a exigência de 40%, deu peso institucional a essa narrativa empresarial.
Quem defende o remoto integral responde que cultura também se constrói com rituais digitais bem desenhados, com documentação clara, com horários de sobreposição entre fusos e com liderança treinado para coordenar à distância. Aponta ainda que o escritório pode ser excludente para quem cuida de filhos, para quem tem deficiência, para quem mora longe ou para quem encontrou no home office um ganho real de saúde mental.
O embate, portanto, não é só de preferência individual: é de modelo de empresa, de custo de imóveis corporativos, de retenção de talentos e de definição do que conta como colaboração legítima. A sentença da Booking não encerra essa disputa filosófica; apenas fixa, naquele litígio, que a empregadora pode impor um piso de presença em nome da cultura de trabalho.
O obstáculo do home office total e a virada do híbrido obrigatório
Durante a fase mais aguda da pandemia, muitas companhias trataram o trabalho em casa como solução sanitária e, depois, como vantagem competitiva na guerra por profissionais. O obstáculo surgiu quando a emergência sanitária recuou e a direção quis recuperar controle sobre agendas, sobre inovação presencial e sobre a ocupação de torres de escritório caras.
A virada, no caso holandês, veio do Judiciário: ao recusar a semana inteira em casa como regra oponível à Booking, o juiz recolocou a presença física dentro do leque de decisões legítimas da empresa, desde que justificada pela promoção do contato entre colegas e pela cultura organizacional.
Para o empregado que havia reorganizado a vida em torno do zero deslocamento, a mudança de 0% para 40% no escritório não é detalhe de escala; é redefinição de rotina, de transporte e de fronteira entre vida pessoal e profissional.
Efeitos do presencial mínimo sobre colaboração, carreira e poder
Analistas de gestão e líderes de área repetem que quem aparece mais no escritório tende a ser visto com mais frequência em conversas de corredor que antecedem promoções, projetos visíveis e realocações internas.
Mesmo quando a política oficial fala em meritocracia híbrida, o viés de proximidade continua operando: a pessoa ao lado na mesa participa do brainstorm que não foi agendado e do esclarecimento rápido que evita um e-mail de três parágrafos. Exigir 40% de presença é, sob esse prisma, uma forma de reequilibrar quem tem acesso a essas interações e de reduzir a distância entre equipes “de casa” e equipes “de sede”.
A contrapartida é o risco de punir quem mantém alta entrega à distância e de transformar o crachá na porta em termômetro informal de comprometimento. Há também o efeito sobre a hierarquia. No remoto puro, reuniões tendem a ser mais ritualizadas e o poder se manifesta por agenda, por documento e por canal oficial.
No presencial intercalado, o poder volta a circular em almoços, em cafés e em encontros após o expediente formal, espaços em que nem todos se sentem à vontade ou têm disponibilidade. A cultura corporativa que a Booking invocou no tribunal é exatamente esse tecido de relações que a empresa quer reativar.
Críticos alertam que reativar o tecido pode reativar também dinâmicas de exclusão, de presentismo e de avaliação subjetiva disfarçada de “fit cultural”. O percentual de 40% funciona, assim, como compromisso jurídico e como experimento social dentro da firma: o bastante para forçar encontros regulares, sem restaurar integralmente a semana de cinco dias no mesmo prédio.
O que a regra de 40% muda na negociação coletiva e no contrato
Quando o Judiciário endossa a faculdade da empresa de fixar um piso de escritório, sindicato e advogados trabalhistas passam a negociar não só se haverá remoto, mas qual fração, com que aviso prévio, com que exceções médicas ou familiares e com que suporte de custo de transporte.
O contrato individual, que em muitos países absorveu cláusulas genéricas de “trabalho flexível” na pandemia, volta a ser lido com lupa: flexibilidade deixou de significar automaticamente escolha unilateral do empregado sobre o local.
Na Holanda, o desfecho da Booking ilustra que o local de trabalho permanece, em grande medida, sob a esfera de organização do empregador, desde que a medida se articule a finalidades reconhecidas como a cultura de equipe e a cooperação. Isso não impede acordos mais generosos; impede, porém, tratar o home office total como direito adquirido universal à revelia da política interna.
O debate global entre produtividade medida e cultura vivida
Fora do processo holandês, o mesmo dilema se repete em bancos, em consultorias, em big techs e em indústrias de serviço que experimentaram o remoto em massa. De um lado, métricas de entrega, de tickets fechados e de projetos concluídos alimentam a tese de que o lugar importa menos que o resultado.
De outro, pesquisas internas de clima, taxas de atrito entre áreas e relatos de isolamento de recém-contratados alimentam a tese de que o resultado de curto prazo esconde erosão de longo prazo no capital social da empresa. A Booking escolheu explicitamente o segundo diagnóstico ao ir ao tribunal defender os 40%.
O juiz, ao concordar nesse aspecto, reforçou a ideia de que cultura de trabalho é interesse empresarial legítimo e não apenas preferência estética de gestores nostálgicos do open space. A tensão se agrava porque o escritório moderno já não é só mesa fixa: é combinação de estações hot desk, de salas de foco, de estúdios de vídeo e de zonas de convivência pensadas para atrair gente que poderia continuar em casa.
Exigir presença sem oferecer ambiente que justifique o deslocamento gera cinismo e burla, com funcionários que “batem ponto” e passam o dia em calls com o fone de ouvido. Exigir presença com propósito claro de mentoria, de decisões difíceis e de integração de times costuma encontrar menos resistência.
O caso holandês não detalha o desenho interior dos andares da Booking, mas amarra a obrigação de comparecimento à finalidade cultural, o que pressiona a própria empresa a demonstrar, na prática, que os dias no escritório não são teatro de assiduidade.
Como a disputa entre remoto e presencial chega às rotinas no Brasil
No Brasil, a conversa sobre voltar ao escritório, manter o híbrido ou preservar o home office amplo atravessa bancos em São Paulo, centrais de tecnologia em cidades do Interior e do litoral, indústrias com sede administrativa e o próprio serviço público em regimes de teletrabalho.
Empresas que reduziram pé direito de lajes corporativas na pandemia hoje recalculam se renovam contratos de locação ou se apostam em escritórios menores com rodízio obrigatório. Profissionais que se mudaram para o litoral ou para cidades com custo de vida menor reagem com apreensão a qualquer piso percentual de presença, porque o deslocamento semanal pode tornar inviável o arranjo residencial.
Ao mesmo tempo, lideranças locais repetem o mesmo raciocínio ouvido na Holanda: sem encontro regular, a cultura se fragmenta e a inovação informal murcha. A legislação trabalhista brasileira admite o teletrabalho com previsão contratual e com regras próprias sobre infraestrutura e despesas, mas não transforma o remoto em regra geral oponível a qualquer política interna de comparecimento.
Na prática, o poder diretivo do empregador sobre o local da prestação, quando exercido de forma não discriminatória e alinhada ao contrato e a acordos coletivos, continua sendo a referência.
Por isso decisões estrangeiras como a da Booking são lidas aqui menos como precedente vinculante e mais como sinal de tendência: grandes empregadores voltam a testar nos tribunais e nas mesas de negociação o quanto podem frear o home office total em nome da cultura e da colaboração.
Departamentos de gente no Brasil já usam linguagem parecida, falando em “dias de convivência”, em “rituais de time” e em “presença com propósito”, espelhando o vocabulário que sustenta o piso de 40% no exterior. Há especificidades nacionais que pesam mais do que na Holanda.
O tempo de deslocamento em regiões metropolitanas brasileiras, o custo relativo de transporte e a desigualdade de espaço adequado em casa alteram o cálculo de quem ganha e quem perde com a volta parcial. Mulheres que acumulam cuidado familiar, profissionais mais jovens em moradias compartilhadas e equipes espalhadas por vários estados vivem o híbrido de modos distintos.
Uma regra única de 40% copiada sem adaptação pode acertar a coesão de um time paulistano e, ao mesmo tempo, penalizar um especialista que atende o mesmo empregador a partir de outra região com infraestrutura digital estável.
O debate maduro no Brasil, portanto, não copia o percentual holandês como fetiche: pergunta quais encontros presenciais são insubstituíveis, com que frequência mínima a cultura se sustenta e quais exceções evitam que a política vire filtro social disfarçado.
Cultura corporativa na prática das empresas brasileiras
Consultorias de clima e áreas de RH descrevem ciclos parecidos: depois de picos de adesão ao remoto, sobem os pedidos de líderes por mais cara a cara, sobem também as reclamações de quem sente perda de autonomia, e a política final costuma cair num meio-termo de dois ou três dias na sede. O número exato varia por setor. Onde o trabalho é intensamente colaborativo e confidencial, a pressão por presença cresce. Onde a entrega é individual e mensurável por sistema, a resistência ao escritório obrigatório também cresce.
O eco da sentença da Booking no noticiário internacional serve, nesse tabuleiro, como munição retórica para diretores que já queriam endurecer o híbrido e como alerta para empregados que tratavam o home office total como estágio permanente da carreira. Outro fio que se cruza com a cultura é a formação de novas gerações de profissionais.
Estagiários e recém-formados relatam dificuldade de aprender o ofício só por videochamada, porque o conhecimento tácito circula no olhar sobre a tela do colega mais velho e na correção imediata antes do erro chegar ao cliente. Empresas brasileiras que reabriram programas de estágio com dias obrigatórios no escritório justificam a medida exatamente com esse aprendizado situado.
O paralelo com o argumento acolhido na Holanda é evidente: o contato entre colegas não é só socialização; é canal de transmissão de competência. Ao mesmo tempo, insistir em presença sem plano de mentoria transforma o argumento cultural em desculpa vazia e gera rotatividade entre quem mede a empresa pela coerência entre discurso e rotina.
O que permanece em aberto depois do piso de presença
A decisão que autoriza a Booking a exigir 40% do tempo no escritório resolve o litígio naquele ponto e, ao mesmo tempo, deixa perguntas práticas em suspenso para qualquer organização que siga o mesmo caminho. Como se conta o percentual em semanas atípicas, em viagens a trabalho e em licenças? Quem arbitra o conflito entre a regra geral e a necessidade médica documentada?
De que modo se avalia se a cultura de fato melhorou depois da volta parcial, além do sentimento de gestores já convertidos ao presencial? Sem indicadores honestos, o risco é celebrar a ocupação das mesas como vitória cultural enquanto engajamento e retenção caminham em outra direção.
O tribunal holandês não substitui a gestão cotidiana; apenas confirma que a empresa pode tentar o caminho da presença mínima obrigatória. Para o trabalhador, a consequência imediata é a reabertura da negociação sobre onde a vida profissional acontece. Para a empresa, a consequência é o ônus de provar, na prática, que os dias de escritório geram o encontro entre colegas que foi invocado em juízo.
Para o mercado, o sinal é de que o pêndulo do home office integral encontrou resistência jurídica em um país europeu com forte tradição de diálogo social, e que a cultura corporativa voltou ao centro do vocabulário legal e gerencial.
No Brasil, onde o híbrido já é realidade em fatias amplas do setor de serviços e da tecnologia, o episódio da Booking funciona menos como receita pronta e mais como espelho: mostra que a disputa entre autonomia do empregado e coesão da organização continua aberta, e que percentuais de presença serão, daqui em diante, objeto de política interna, de acordo coletivo e, quando a conversa emperrar, de nova ida aos tribunais. O fechamento possível, neste momento, não é a vitória definitiva de um modelo sobre o outro.
É o reconhecimento de que trabalho remoto e trabalho presencial carregam trade-offs distintos sobre custo, sobre saúde, sobre carreira e sobre o modo como uma empresa cultiva pertencimento. Ao validar os 40% com base no contato entre colegas, a Justiça holandesa escolheu explicitamente proteger a dimensão coletiva da cultura de trabalho diante da reivindicação de uma semana inteira em casa.
As organizações que observam o caso a partir do Brasil terão de traduzir esse princípio para realidades de trânsito, de infraestrutura e de desigualdade doméstica muito diferentes, sem perder de vista o ponto que o processo tornou inescapável: cultura corporativa deixou de ser slogan e voltou a ser argumento com peso na hora de decidir onde se trabalha.






