Um sinal eletrônico rompe o silêncio e interrompe os passos. Debaixo da areia ou da terra pode haver uma moeda antiga, uma joia, um fragmento histórico ou apenas um pedaço de metal esquecido. Para quem pratica detectorismo, no entanto, cada aviso do aparelho renova a expectativa de encontrar algo capaz de contar uma nova história.
Conhecidos como detectoristas, esses caçadores de objetos enterrados percorrem praias, campos e áreas históricas com detectores de metais. Pedro Luiz Conti Mariozi, de 62 anos, conhece bem a sensação provocada por cada descoberta. Morador de Itapeva, ele pratica detectorismo há pelo menos duas décadas e encontrou na história da Revolução Constitucionalista de 1932 o ponto de partida para a atividade.
Uma busca iniciada pela história
O interesse pelo conflito levou Pedro às antigas trincheiras paulistas de Guapiara. Ele precisava de um equipamento que o ajudasse a localizar vestígios nos locais de combate e, por isso, comprou seu primeiro detector de metais.
A partir dali, a pesquisa histórica ganhou uma dimensão prática. Com o aparelho, Pedro encontrou diferentes fragmentos relacionados à revolução. Para ele, descobrir objetos enterrados há mais de 100 anos representa um dos momentos mais emocionantes do detectorismo.
Nem toda descoberta, porém, corresponde à primeira impressão. Durante uma busca na praia, Pedro encontrou uma pequena coruja dourada e imaginou que o objeto pudesse ser de ouro. A análise desfez a expectativa, mas não diminuiu o valor afetivo do achado. Até hoje, ele mantém a peça sobre um armário.
O episódio resume parte do fascínio pela atividade. O detectorista nunca sabe exatamente o que aparecerá depois de cavar o ponto indicado pelo equipamento. O sonho de encontrar um tesouro perdido permanece, mas a diversão, o contato com a história e a própria busca sustentam o interesse.
Longas caminhadas sem hora para terminar
A rotina exige disposição. Primeiro, o praticante escolhe o local e percorre o terreno enquanto movimenta o detector próximo ao solo. Quando o aparelho identifica um metal, começa a escavação para localizar e reconhecer o material.
Não existe um tempo determinado para cada saída. Conforme ganham experiência, os detectoristas passam períodos cada vez maiores em campo. Pedro avalia que o acesso ao hobby cresceu no Brasil depois da chegada de fabricantes de detectores de metais ao país, o que facilitou a compra dos equipamentos.
O aumento no número de praticantes também fortaleceu grupos dedicados à atividade. O Detect Camp SP receberá participantes de Santa Catarina, Paraná, Rio de Janeiro e de diferentes cidades paulistas. Segundo o organizador, alguns viajaram mais de 15 horas para acompanhar o encontro.
Paixão compartilhada pela família
A comerciante Susana Hens, de 47 anos, percorreu aproximadamente 500 quilômetros desde Barra Velha, em Santa Catarina, até Buri. Detectorista há 22 anos, ela compartilha a atividade com a família na equipe Os Piratas do Detectorismo.
O interesse surgiu ainda na infância, quando Susana ouvia histórias sobre tesouros perdidos e potes cheios de moedas. Mais tarde, conheceu Manoel, um detectorista que havia construído o próprio equipamento e percorria praias em busca de objetos.
A primeira descoberta de Susana não envolveu uma moeda rara ou uma joia. O detector localizou uma chave de carro enterrada na areia, perto de uma área usada para piqueniques. Depois da busca, ela encontrou o proprietário e devolveu o objeto.
Desde então, surgiram moedas antigas, joias e brinquedos colecionáveis. Ainda assim, Susana afirma que a expectativa permanece intacta.
“Eu amo a emoção da expectativa do item que pode aparecer em cada ‘bip’ do detector”, contou.
Achados que também limpam a natureza
Além de procurar objetos perdidos, Susana recolhe materiais que representam riscos ou poluem o ambiente. O detector encontra latas, embalagens, pregos e pedaços de ferro escondidos na areia ou no solo.
Os resíduos seguem para locais adequados. A família também separa os lacres das latinhas e os entrega a instituições que os utilizam em campanhas de arrecadação destinadas à aquisição de cadeiras de rodas.
Dessa forma, o detectorismo combina curiosidade, exercício físico e cuidado ambiental. Entre uma descoberta valiosa e outra sem qualquer valor comercial, a atividade preserva o elemento que mantém os praticantes em movimento: a possibilidade de o próximo sinal revelar uma história esquecida.






