Clima abafado na República e brisa fresca em Pinheiros: como é possível dois bairros na mesma cidade terem climas diferentes?

Neste mês tivemos o “Dia da Árvore”, mas diferença de arborização e vegetação entre os bairros segue afetando temperatura, qualidade do ar e gerando risco de alagamentos

Fotografia de câmara de monitorização de tráfego numa autoestrada com fluxo intenso de veículos a passar sob um viaduto de betão. Em destaque, veem-se camiões, carrinhas e automóveis em circulação ao crepúsculo, com uma viatura de emergência estacionada na berma à esquerda

Capital tem árvores mal distribuídas/Foto: Divulgação/Artesp

No mês passado, mais especificamente 21 de setembro, tivemos o Dia da Árvore no Brasil, que foi oficializada pelo Decreto nº 55.795, de 24 de fevereiro de 1965, para coincidir com o início da primavera no Hemisfério Sul e ser associado à preservação de grandes florestas. 

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Porém, na maior metrópole da América Latina, a arborização urbana é um direito distribuído de forma desigual. O acesso à sombra e ao ar puro em São Paulo varia drasticamente dependendo de onde você está. 

É possível atravessar alguns quilômetros na capital e perceber uma mudança significativa no conforto térmico. A forma como cada região é ocupada interfere na temperatura, na circulação do ar, na umidade, na drenagem da água da chuva e na qualidade ambiental.

Você pode sentir o clima diferente dentro da mesma cidade

A diferença na quantidade de árvores cria microclimas urbanos muito distintos. Quem caminha pelo distrito da República, no centro da cidade, e depois vai para Pinheiros, na Zona Oeste, percebe a mudança no próprio corpo.

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Mesmo que o termômetro oficial indique a mesma temperatura para as duas regiões, a experiência de quem está na rua pode ser diferente.

Isso acontece porque a temperatura registrada pelo ar não é o único fator responsável pela sensação de calor. A quantidade de sombra, a umidade, o vento, os materiais que compõem a cidade e a própria radiação recebida pelo corpo também interferem no conforto térmico.

Enquanto na República o cenário é dominado por asfalto, calçadas de concreto e prédios altos que retêm o calor, em Pinheiros as ruas contam com corredores de árvores maduras que barram a luz solar direta e umidificam o ambiente.

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Pesquisas do Laboratório de Climatologia da Universidade de São Paulo (USP) mostram que a falta de vegetação gera as chamadas ilhas de calor. Por causa delas, bairros menos arborizados registram temperaturas de 5°C a 10°C acima de regiões vizinhas bem arborizadas na mesma hora do dia. 

Como as ilhas de calor se formam?

O asfalto e o concreto absorvem grande quantidade da radiação solar durante o dia e depois devolvem parte dessa energia em forma de calor.

Em uma área com pouca vegetação, há menos sombra e menos evapotranspiração, processo pelo qual as plantas liberam água para a atmosfera e contribuem para o resfriamento do ambiente.

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É aí que aparece um dos principais fenômenos associados ao calor nas cidades: a ilha de calor urbana. A expressão não significa que exista literalmente uma “ilha” quente dentro da cidade. Ela é uma forma de descrever regiões urbanizadas que apresentam temperaturas mais elevadas do que áreas próximas com maior presença de vegetação ou menor ocupação.

O resultado é um ambiente que aquece mais durante o dia e pode continuar liberando calor depois que o Sol se põe.

Como funciona em São Paulo?

Estudos realizados em São Paulo identificam justamente essa relação entre ocupação urbana, vegetação e diferenças de temperatura. Pesquisas com imagens de satélite também encontram áreas de “ilhas de calor” e, em contraste, regiões de “ilhas de frescor”, associadas a parques e áreas de Mata Atlântica.

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Comparar bairros como República e Pinheiros não significa dizer que eles possuem “climas” completamente diferentes, o ponto é que as características urbanas de cada região ajudam a produzir microclimas diferentes dentro da mesma cidade.

Um exemplo citado em estudo sobre a capital é o entorno do Parque do Carmo, na Zona Leste. Apesar de estar próximo de áreas com temperaturas de superfície superiores a 34°C, o parque apresentou, no levantamento analisado, temperaturas de superfície entre 23°C e 30°C.

A árvore não é apenas decoração

Quando uma árvore faz sombra sobre uma calçada, ela está funcionando como uma espécie de infraestrutura urbana. A primeira contribuição é bastante intuitiva: a copa bloqueia parte da radiação solar que atingiria diretamente o corpo das pessoas, os veículos e o pavimento.

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Mas existe outro mecanismo importante: a evapotranspiração. A árvore retira água do solo e libera parte dela para a atmosfera por meio das folhas. Esse processo consome energia e contribui para o resfriamento do ambiente.

Além disso, a vegetação pode ajudar a reduzir a exposição a poluentes e partículas, oferecer abrigo para a fauna e melhorar a qualidade dos espaços públicos. E há ainda uma função que costuma aparecer apenas quando chove.

Mais árvores também significam menos água correndo pelo asfalto

Durante uma chuva forte, a água precisa de algum lugar para ser absorvida. Em uma área com solo exposto e vegetação, parte da água consegue infiltrar no terreno. Em uma região coberta por concreto e asfalto, uma parcela muito maior escoa pela superfície até chegar às galerias e aos bueiros.

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As árvores não impedem enchentes sozinhas, mas fazem parte de uma estrutura maior de infraestrutura verde, formada também por jardins, canteiros, parques, áreas permeáveis e jardins de chuva.

Quanto mais a cidade consegue absorver e desacelerar a água antes que ela chegue ao sistema de drenagem, menor tende a ser a pressão sobre essa estrutura durante as chuvas.

Por que São Paulo pode parecer verde e, ainda assim, ter ruas sem árvores?

A Prefeitura informa que São Paulo possui mais de metade de seu território com cobertura vegetal. Em atualização divulgada pelo município, o índice passou de 48,18% para 54,13%.

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O número, porém, não significa que 54% das ruas tenham árvores. Grande parte dessa cobertura está associada a áreas extensas de vegetação, parques, unidades de conservação e regiões periféricas com grandes fragmentos de Mata Atlântica.

Uma cidade pode ter uma enorme quantidade de vegetação concentrada em determinadas áreas e, ao mesmo tempo, possuir bairros densamente construídos com poucas árvores nas calçadas.

Os próprios dados municipais de cobertura vegetal mostram diferenças expressivas entre distritos. Em levantamento da Prefeitura, por exemplo, Pinheiros apresentava uma cobertura vegetal por habitante muito superior à registrada em outras áreas da cidade. Por isso, olhar apenas para o percentual total de área verde da cidade pode esconder a desigualdade na distribuição desse verde.

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Quem tem acesso à sombra?

A arborização também pode ser analisada como uma questão de justiça ambiental. Uma pesquisa da USP/ESALQ investigou justamente a distribuição socioeconômica da floresta urbana de São Paulo. O trabalho parte de uma constatação importante: os benefícios proporcionados pelas árvores não estão distribuídos de maneira uniforme pela cidade.

Outro estudo recente comparou o Jardim Paulista, na Subprefeitura de Pinheiros, com a Vila Jacuí, na Zona Leste, e encontrou diferenças relacionadas à forma de ocupação urbana, arborização, renda e condições de conforto térmico. No Jardim Paulista, foram observadas ruas mais arborizadas, lotes maiores e maior presença de jardins e quintais. Na Vila Jacuí, predominavam maior densidade, lotes menores e ruas menos arborizadas.

Por que simplesmente plantar árvores não resolve?

A arborização urbana exige planejamento. Uma árvore precisa de espaço para suas raízes e para o crescimento da copa. Também é necessário considerar a largura da calçada, a circulação de pedestres, a presença de redes elétricas, tubulações e outras estruturas subterrâneas.

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A própria Prefeitura estabelece, por exemplo, que o plantio em calçadas deve respeitar uma largura mínima de 1,20 metro para garantir a circulação de pedestres e que a escolha da espécie deve levar em conta o tipo de rede elétrica existente.

Isso significa que combater as ilhas de calor não depende apenas de colocar uma muda no chão, é necessário escolher espécies adequadas, garantir espaço para que elas cresçam, cuidar das árvores depois do plantio e combinar arborização com outras soluções, como áreas permeáveis, parques, jardins de chuva e qualificação das calçadas.

O desafio de fazer o verde chegar à rua

São Paulo já possui um Plano Municipal de Arborização Urbana, instrumento criado para orientar o planejamento e a gestão das árvores na cidade e aumentar a resiliência urbana diante das mudanças climáticas.

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O desafio, entretanto, é transformar planejamento em presença cotidiana, porque para quem está esperando o ônibus em uma calçada sem sombra, caminhando por uma avenida de concreto ou tentando atravessar uma região quente durante uma onda de calor, uma árvore em um parque distante não produz o mesmo benefício que uma copa sobre a calçada.