Como será envelhecer sem ficar sozinho: idosos criam grupo de apoio para cuidar uns dos outros

Rede criada por aposentados aposta em apoio mútuo, novas amizades e companhia para enfrentar perdas e limitações da velhice

A construção de vínculos ao longo da velhice pode garantir companhia e ajuda em momentos de maior necessidade (Foto: Pexels)

A construção de vínculos ao longo da velhice pode garantir companhia e ajuda em momentos de maior necessidade (Foto: Pexels)

A aposentadoria pode trazer tempo livre, mas também levanta uma pergunta que nem sempre tem resposta simples: como viver os próximos anos sem perder vínculos, autonomia e companhia? Em um bairro de Barcelona, um grupo de idosos decidiu enfrentar essa fase de maneira coletiva.

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Moradores de Poble Nou criaram uma rede de apoio mútuo baseada em um compromisso direto: conforme surgirem doenças, limitações ou momentos difíceis, os integrantes deverão ajudar uns aos outros. A ideia é evitar que alguém precise atravessar sozinho situações como a perda de amigos e familiares ou a redução da mobilidade.

A iniciativa ganha relevância diante do envelhecimento da população espanhola. Projeções do Instituto Nacional de Estatística da Espanha indicam que pessoas com mais de 65 anos poderão representar 30,9% da população do país em 2076.

Comunidade contra solidão

Entre as integrantes está Anna Freixas, professora universitária aposentada que chegou aos 80 anos defendendo que envelhecer em grupo torna essa etapa mais fácil. Depois de quatro décadas vivendo em Córdoba, ela se estabeleceu em Barcelona e passou a fazer parte da iniciativa.

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Com o passar dos anos, Freixas percebeu principalmente uma mudança no tipo de perda que passou a enfrentar. Casamentos, comuns entre amigos décadas atrás, deram lugar aos funerais e às despedidas.

Para ela, a convivência ajuda a deslocar a atenção dos próprios problemas e cria uma responsabilidade em relação às pessoas ao redor. A construção dessa rede, porém, exige esforço permanente e não acontece automaticamente.

Como surgiu o grupo

A iniciativa foi impulsionada por Mari Pla, de 73 anos. Após se aposentar, a antiga enfermeira comunitária começou a questionar como preencher essa nova etapa da vida.

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Antes do grupo atual, ela chegou a participar de uma tentativa de criar um projeto de moradia compartilhada entre pessoas que pretendiam envelhecer juntas. A experiência não avançou, mas acabou contribuindo para outra ideia.

Pla passou então a organizar uma oficina sobre envelhecimento ativo em uma associação de moradores. Foi desse encontro que nasceu a atual rede de apoio de Poble Nou.

O objetivo não se limita a organizar atividades de lazer. Os participantes querem construir novas amizades dentro do próprio bairro e garantir presença nos momentos em que algum integrante precisar de ajuda.

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A possibilidade de perda da capacidade cognitiva está entre os receios mencionados por Pla. A morte, segundo ela, não provoca o mesmo medo. A maior preocupação está relacionada às incertezas que podem acompanhar o envelhecimento.

Aprender em vez de apenas ocupar o tempo

Continuar adquirindo conhecimento também se tornou uma prioridade para os integrantes. Pla rejeita a ideia de preencher os dias somente com entretenimento e procura atividades capazes de ensinar algo novo.

Pintura em aquarela e novas receitas estão entre as experiências que passaram a fazer parte de sua rotina. Para ela, o tempo disponível é justamente um dos maiores patrimônios dessa etapa da vida e precisa ser administrado de forma que não pareça desperdiçado.

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Outros membros compartilham uma preocupação semelhante. Merche Delgado, de 66 anos, defende a manutenção das relações comunitárias e valoriza atividades capazes de aproximar diferentes gerações.

Já Josep María Gordillo, professor aposentado de 73 anos, chama atenção para os estereótipos associados à velhice. Na avaliação dele, pessoas mais velhas não formam um grupo homogêneo, já que apresentam condições físicas, interesses e experiências diferentes.

Um pacto para o futuro

Lourdes Casanovas, de 74 anos, resume a proposta como um compromisso de longo prazo. Conforme os integrantes perderem parte da autonomia, a expectativa é que a ajuda passe a circular entre eles.

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Hoje, algumas limitações já fazem parte da rotina. Viajar com a mesma frequência ou manter a mobilidade de outros períodos da vida se tornou mais difícil para alguns participantes.

Também existe espaço para falar de temas desconfortáveis, como demência, dor e morte. Em vez de afastar essas questões, o grupo transformou a conversa sobre o fim da vida em parte da preparação para os próximos anos.

No centro da iniciativa está uma ideia simples: construir agora os vínculos que poderão fazer diferença quando pedir ajuda deixar de ser uma escolha e passar a ser uma necessidade.