‘Telas substituíram experiências’: especialistas analisam crise da Estrela e nova infância

Pedido de recuperação da Estrela reflete como smartphones derrubam vendas e mudaram a rotina infantil

Medida leva em conta os riscos do ambiente digital

Profissionais alertam para prejuízos do uso excessivo de telas na infância e adolescência / Freepik

A fabricante de brinquedos Estrela entrou com um pedido de recuperação judicial devido às dívidas. Para a marca, a crise e a queda de receitas da empresa estão relacionadas à mudança de hábitos dos consumidores.

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O pedido, protocolado na semana passada, busca renegociar dívidas e evitar a falência, em um cenário de queda nas vendas de brinquedos tradicionais.

No documento, a Estrela alega que o crescimento das opções digitais de entretenimento para crianças, como jogos de videogame e redes sociais, diminuiu o alcance dos seus produtos. Visão reforçada por especialistas.

“Smartphones, tablets, plataformas de streaming e jogos digitais passaram a disputar, e, em muitos contextos, substituir parcialmente, experiências fundamentais ao amadurecimento”, diz a neuropsicóloga Jeruza Bezerra do Vale à Gazeta.

De acordo com a profissional, o avanço da tecnologia transformou profundamente a infância contemporânea, com as telas ocupando cada vez mais o espaço central da rotina infantil.

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Jeruza ainda diz que esse fenômeno “tem gerado impactos não apenas no comportamento das crianças, mas também no mercado de consumo infantil, levantando discussões sobre mudanças nos hábitos das novas gerações”. 

Crise na Estrela e mudança no comportamento infantil

Para Jeruza Bezerra, o aumento no número de crianças em ambientes digitais pode impactar de forma significativa a formação das futuras gerações, ainda mais quando a exposição acontece de forma precoce e sem controle dos pais e responsáveis.

“A infância e a adolescência são períodos críticos para o desenvolvimento de habilidades fundamentais como linguagem, atenção, autocontrole, memória, competências sociais, construção da identidade e regulação emocional”, explica a profissional.

Para a  neuropsicóloga, quando “a tela ocupa o espaço da brincadeira livre, da interação familiar, da atividade física, do sono e das experiências presenciais, observamos impactos que vão além da aprendizagem e alcançam também a saúde mental”.

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A profissional também disse que a exposição exagerada às telas compromete funções executivas, como atenção e linguagem, além de elevar níveis de irritabilidade e ansiedade. O uso constante também pode dificultar a atenção em tarefas menos estimulantes.

Quanto aos adolescentes, Jeruza pontuou que o uso excessivo, principalmente no período noturno, cria maior risco de ansiedade, sintomas depressivos, sofrimento emocional, piora na autoestima e alterações no sono.

“Isso ocorre porque ambientes digitais podem intensificar a comparação social, hiperconectividade, busca constante por validação externa, privação de sono e redução de experiências protetivas, como convivência presencial, atividade física, brincar independente e interações familiares de qualidade, envolvendo o brincar compartilhado”, finaliza Jeruza Bezerra.

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Brinquedos seriam uma alternativa para diminuir o tempo de tela?

Embora o alcance dos brinquedos não seja mais como nas últimas gerações, a interação social e afetiva e a preservação de brincadeiras tradicionais podem conter parte dos efeitos causados pelo meio digital.

Para a pedagoga Ruth Nassiff, que também conta com especialização em psicopedagogia, os brinquedos são “uma alternativa para a diminuição do uso das telas digitais para as crianças, pois entretém e promove o encontro entre pais e filhos”.

Ainda de acordo com Ruth, jogos de tabuleiro e com cartas podem atrair a curiosidade do público infantil. Ela explica que este tipo de produto tem impacto positivo para a construção das funções cognitivas, como atenção, memória e linguagem.

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A pedagoga defende que os benefícios de jogos e atividades do tipo podem “estar relacionados à aprendizagem escolar, estratégias de raciocínio e lógica, diminuição da ansiedade e do estresse, ao desenvolvimento de habilidades sociais e emocionais, além de estimular o trabalho em equipe”.

A partir de qual idade um menor pode entrar em contato com telas?

Segundo o psicólogo Jonathan Haidt, autor do livro “Geração Ansiosa“, o uso do celular deveria ser apresentado aos jovens a partir dos 16 anos de idade.

“Há relação com o desenvolvimento do cérebro, da moral e dos conteúdos próprios para a idade. Até esta idade, os sujeitos devem ser motivados para que esse cérebro possa receber conteúdos e experiências voltados aos campos do conhecimento e da natureza para o aprimoramento das atividades e competências”, afirma Ruth Nassiff.

A profissional ainda explica que a atenção utilizada ao jogar e consumir conteúdo das telas não é a mesma, já que a prática é diferente do manejo desenvolvido em escolas.

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“O sistema de rolagem das telas não ajuda a sustentar a atenção, o que prejudica o aprender. Isso tem um impacto na consolidação dos conteúdos pela memória, o que impacta na aquisição e manutenção do conhecimento”.

A Organização Mundial da Saúde e a Academia Americana de Pediatria orientam evitar exposição recreativa antes dos 2 anos de idade.

“Entre 2 e 5 anos, o uso deve ser bastante limitado, idealmente com conteúdos de qualidade, supervisão ativa e tempo controlado, em torno de até uma hora por dia”, pontuam as organizações.