A ideia de que a felicidade cai na meia-idade e volta a subir na velhice não se sustenta mais, segundo um novo estudo internacional.
Uma pesquisa publicada na revista científica PLOS ONE, com dados de mais de 1 milhão de pessoas em 44 países, concluiu que a chamada “curva da felicidade em U” praticamente desapareceu, e deu lugar a um cenário mais preocupante: o sofrimento psicológico agora é maior entre os jovens.
Durante décadas, a psicologia e a economia sustentaram que o ponto mais baixo da satisfação com a vida ocorria entre os 40 e 50 anos, período associado à famosa crise da meia-idade.
Os novos dados, porém, indicam uma mudança estrutural no padrão de bem-estar ao longo da vida.
Fim da crise dos 50, início da crise dos 25
A análise mostra que o antigo “vale” da felicidade deixou de existir.
Em seu lugar, os níveis mais baixos de bem-estar passaram a se concentrar nas faixas etárias mais jovens, especialmente entre pessoas com menos de 30 anos.
Nos Estados Unidos, por exemplo, a proporção de jovens com menos de 25 anos que relataram períodos prolongados de sofrimento psicológico quase triplicou entre 1993 e 2023, superando índices historicamente associados à meia-idade.
Mulheres jovens concentram os piores indicadores
O estudo também revela uma forte disparidade de gênero.
No Reino Unido, dados coletados entre 2009 e 2023 mostram que o percentual de mulheres jovens com quadros graves de sofrimento mental cresceu de forma expressiva.
Os pesquisadores destacam que os números não se referem a tristeza pontual, mas a indicadores clínicos ligados à ansiedade e à depressão, o que reforça a tese de que a chamada “crise do quarto de vida” substituiu a crise da meia-idade.
Pandemia acelerou, mas não criou o problema
Embora a pandemia de Covid-19 tenha agravado o cenário, os dados indicam que a deterioração da saúde mental dos jovens já estava em curso antes de 2020.
A crise sanitária funcionou como um acelerador de tendências já existentes.
Entre os principais fatores apontados estão a precarização do trabalho, a instabilidade econômica, a dificuldade de acesso à moradia e a frustração diante de expectativas tradicionais da vida adulta, como emprego estável e independência financeira.
Tecnologia, solidão e vínculos frágeis
O estudo também relaciona o aumento do sofrimento ao impacto da tecnologia na vida social. Apesar de hiperconectada, a geração mais jovem enfrenta altos níveis de isolamento.
Na Espanha, pesquisas indicam que a maioria dos jovens já se sentiu sozinha, independentemente da presença nas redes sociais.
Mudanças frequentes de cidade, instabilidade profissional e dificuldade de criar laços duradouros contribuem para a fragilidade das redes de apoio emocional.
Um novo desafio global
Os pesquisadores alertam que a mudança no perfil da infelicidade representa um desafio crescente para os sistemas de saúde pública.
Em alguns países, o fenômeno coincide com o aumento de casos graves de sofrimento mental e até de suicídio entre jovens.
A conclusão é clara: o mundo passa por uma mudança profunda na forma como diferentes gerações experimentam a felicidade, exigindo novas respostas sociais, econômicas e de saúde mental.
