Histórias de crime sempre despertaram curiosidade: Bienal do Livro traz Ulisses Campbell e Chico Felitti para falar de true crime

Ulisses Campbell e Chico Felitti falam sobre true crime, investigação e ética durante a Bienal do Livro de São Paulo 2026

Registro de conversa entre os autores e mediador sobre jornalismo luterário, carreira e limites da ética (Foto: Jean Lindemute/Gazeta de São Paulo)

Registro de conversa entre os autores e mediador sobre jornalismo luterário, carreira e limites da ética (Foto: Jean Lindemute/Gazeta de São Paulo)

A Bienal do Livro de São Paulo 2026 traz por entre seus corredores vastos de leitores conteúdo para todos os gostos, e para os amantes dos thrillers criminais não seria diferente. 

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Em mesa-redonda do Skeelo Talks, na última segunda (7/9), os jornalistas e escritores Ullisses Campbell e Chico Felitti participaram de um bate-papo mediado pelo influenciador Rodrigo de Lorenzi. Campbell é conhecido por assinar o livro “Tremembé: O Presídio dos Famosos” e, posteriormente, por roteirizar a série homônima. 

Felitti, por sua vez, é autor de obras como “Ricardo & Vânia” e ganhou projeção também pelos podcasts investigativos, entre eles “A Mulher da Casa Abandonada”. 

Ambos concederam entrevista à Gazeta de São Paulo para compartilhar um pouco de seus processos criativos, momentos de descompressão e carreira.

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Durante a conversa no stand B30, da Skeelo, tópicos como o processo investigativo de cada um se amarraram às discussões sobre ética no jornalismo literário e o fascínio popular pelo bizarro. Felitti argumentou que a curiosidade quanto à histórias de crime sempre existiu e foi difundida seja através de programas da televisão ou rádio, e não é exclusividade da nova geração.

Campbell complementou, adicionando que parte essencial do trabalho do jornalista investigativo é filtrar e cortar o excesso de barbárie do produto final de sua obra, dosando o que é necessário chegar ao público para entendimento pleno da narrativa literária.

Ademais, uma ferramenta de trabalho sua é a descrença. Disse, em tom de conselho, que sempre se deve desconfiar daquilo que está sendo escutado e somente concluir como verídico o que passar por sério rigor de análise documental e precisa.

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Ullisses Campbell e a humanização

O trabalho de Ullisses Campbell vai muito além de descrever os pormenores de crimes famosos. O jornalista costuma adentrar vivências inteiras e o extra-criminal, aquilo que acontece ao redor do crime e compõe os aspectos humanos dos transgressores, suas relações intra e interpessoais.

“Meu trabalho não romantiza essas pessoas, eu acho que ele humaniza e dentro desse da humanização vem a romantização, porque querendo ou não, as pessoas que são presas dentro de uma penitenciária estão vivendo a vida”, disse em entrevista.

Continuou: “Elas estão namorando, elas estão trabalhando, elas estão se relacionando com os familiares. Então eu acho isso é da natureza humana. O meu trabalho só mostra essa realidade.”

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Isso não significa que o trabalho do escritor endosse a criminalidade ou defenda o indefensável, pelo contrário, ele apenas explora outros aspectos humanos e psicológicos dos criminosos.

“Essas pessoas cometem crimes que são, em alguns casos, abomináveis, mas o crime não os torna animais, eles continuam sendo humanos.”

Para Ullisses, trabalhar com essas pessoas e temáticas significa também “criar uma casca” para si mesmo e blindar sua vida fora do trabalho.

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“Eu acho que eu já criei uma casca. Eu não me envolvo muito com os casos que eu tô pesquisando, que eu tô escrevendo. E quando eu não estou trabalhando, eu vivo uma vida normal. Então, eu pratico esporte, eu tento não me envolver porque o meu trabalho só é crime e tragédia”, relatou durante entrevista.

Ossos do ofício investigativo para Chico Felitti

Seja na produção de um livro sobre uma figura emblemática do dia a dia marginalizado paulistano ou percorrendo o Brasil através das histórias reais das figuras cativantes da internet, Chico Felitti acaba se colocando em risco.

Quando perguntado sobre como lidar com essa questão, ele respondeu, bem humorado, que acredita que aspectos como esse fazem parte da profissão.

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“Eu acho que como um médico pode se espetar com uma agulha, pode acontecer alguma coisa com alguém que entra em alguns lugares ou vai procurar certos tipos de pessoa.”

Acrescentou, então, que isso não significa não tomar os devidos cuidados: “É claro que tem ferramentas para você diminuir esse risco. Nunca vá sozinho, as pessoas precisam saber onde você tá, meu advogado sabe onde eu estou, quando eu vou fazer alguma coisa muito perigosa”.

Chico também comentou sobre o boom do true crime e o que ele julga ser necessário para uma boa apuração e produção de material do gênero.

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“Eu acho que você tem que contar uma história da maneira mais profunda possível, assim, e quando essa história tiver realmente bem contada e bem embasada, ela vai ser completa.” Para ele, se empenhar com afinco em seu trabalho de investigação é primordial para um bom resultado.

O escritor demonstra em suas obras grande sensibilidade e senso aguçado de encontrar histórias interessantes e relevantes; segundo Chico, essa habilidade o acompanha desde a infância. Descrevendo a si mesmo como curioso desde sempre, relatou olhar para lugares que a maioria das pessoas deixa passar batido.