As filas avançavam pelo corredor enquanto leitoras aguardavam autógrafos, abraços afetuosos de suas autoras favoritas e, é claro, os brindes oferecidos no estande da Unicorn Books. Em meio ao movimento contínuo da Bienal Internacional do Livro de São Paulo, o espaço elegante, marcado por tons de roxo e por um cenário preparado para fotos, tornou-se ponto de encontro de um público formado, em grande parte, longe das livrarias tradicionais.
As escritoras que estavam do outro lado do balcão começaram publicando e-books por conta própria, principalmente na Amazon. Antes de segurarem edições impressas de seus romances, elas escreveram, revisaram e divulgaram os títulos nas redes sociais, onde construíram uma relação direta e sólida com as leitoras.
Na Bienal de 2026, realizada no Distrito Anhembi, essa trajetória ganhou uma dimensão concreta. Livros precisaram ser repostos, sessões de autógrafos formaram filas e autoras que desenvolveram suas carreiras no ambiente digital encontraram pessoalmente quem acompanhava suas histórias havia anos.
Da tela ao papel
Natural de Salvador, Ticiana Leão chegou à sua quinta Bienal com três livros publicados em parceria com a Unicorn Books. Durante o evento em São Paulo, um dos títulos esgotou, enquanto os outros dois precisaram ser repostos para atender à procura.
A trajetória da escritora começou no ambiente digital. Assim como outras autoras de romances nacionais, ela encontrou na Amazon uma maneira acessível de publicar seus textos, apresentar personagens ao público e acompanhar diretamente a reação das leitoras.
O contato com a Unicorn ocorreu durante sua primeira participação na Bienal do Rio. A aproximação começou por intermédio de Bel Mello, autora e uma das melhores amigas de Ticiana, que já integrava o catálogo da editora e acreditava que o trabalho da baiana combinava com o perfil da casa.
A indicação abriu caminho para uma longa conversa com Rodrigo Castanheira, CEO da Unicorn Books, quando a editora ainda dava seus primeiros passos. Ticiana apresentou a história que planejava lançar e ouviu dele a orientação de publicá-la inicialmente na Amazon. Assim, a equipe poderia acompanhar tanto o desempenho da obra quanto o desenvolvimento de sua carreira.
Depois que o e-book chegou à plataforma, Ticiana retomou o contato com a editora. A conversa avançou para uma parceria que já levou três títulos ao papel: A Tempestade Perfeita, Depois da Tempestade e Eu, o Noivo e o Meu Melhor Amigo. A autora, que conheceu a Unicorn graças à indicação de Bel Mello, já se prepara para ampliar essa trajetória com um quarto lançamento.
Personagens ganham forma
Para Ticiana, a edição física representa mais do que uma nova forma de comercializar a obra. O livro impresso torna visível uma história que, durante meses, existiu apenas na imaginação da autora e na tela do computador.
“É mais do que lançar um livro. É como se tudo o que viveu na sua cabeça e só existiu entre você e as paredes do seu quarto ou do escritório viesse à tona. De repente, todas as pessoas vão conhecer personagens que viveram apenas no seu cérebro”, contou à Gazeta.
O formato físico também aproxima a escritora de um público acostumado a acompanhá-la pela internet. Na Bienal, as leitoras puderam comprar os livros, receber dedicatórias e conhecer pessoalmente quem estava por trás das histórias.
“As leitoras abraçam as autoras nacionais com muito carinho, amor e dedicação. Tem sido muito especial viver isso”, afirmou Ticiana.
A recepção mostra como escritoras independentes transformaram audiências digitais em comunidades capazes de acompanhar lançamentos, formar filas e esgotar exemplares.
Livros esgotados
Juliana Dantas também percebeu a força desse público nos primeiros dias do evento. Autora de Todo Ódio Entre Nós e Todos os Segredos Entre Nós, ela esgotou os exemplares disponíveis em aproximadamente uma hora e precisou aguardar a chegada de uma nova carga.
“Eu fiquei dois dias sem exemplares porque acabaram. Em uma hora, esgotei os livros. Estava aguardando a distribuidora trazer mais”, relatou.
A escritora publica de maneira independente há dez anos e participa de bienais desde 2018, com passagens pelas edições realizadas em São Paulo e no Rio de Janeiro. Mesmo acostumada ao contato com grandes públicos, encontrou em 2026 um movimento superior ao que esperava.
O resultado acompanha a expansão de um segmento que cresceu inicialmente nas plataformas digitais. Parte desses romances aparece entre os e-books mais vendidos da Amazon, impulsionada por leitoras que compartilham recomendações e acompanham as novidades pelas redes sociais.
“A maioria de nós são autoras independentes que publicam e vivem da escrita, algo muito raro no Brasil”, destacou Juliana.
Mulheres movem o mercado
O protagonismo feminino não se limita à autoria. Ao redor das obras, formou-se uma cadeia profissional composta por revisoras, diagramadoras, capistas, assessoras e produtoras de conteúdo. As mulheres também representam a maior parcela do público que lê, comenta, recomenda e compra esses romances.
Algumas escritoras publicam três, quatro ou até cinco e-books por ano. Além de escrever, elas acompanham todas as etapas do lançamento, contratam profissionais, escolhem capas e cuidam da divulgação.
Para Juliana, as histórias oferecem às leitoras uma pausa em rotinas marcadas pelo trabalho, pelos estudos e pelos cuidados com a família.
“Nossas histórias de amor são como contos de fadas para mulheres adultas. Elas encontram nos livros um momento de lazer, fantasia e sonho”, explicou.
Editora atende demanda
A Unicorn Books atua justamente na passagem desses romances do digital para o impresso. A editora trabalha com autoras que desenvolveram suas carreiras na Amazon e desejam oferecer versões físicas às comunidades formadas na internet.
Esse modelo mantém os e-books disponíveis, mas acrescenta projeto gráfico, impressão e distribuição. Os exemplares são vendidos no site da editora e levados a eventos literários, onde as escritoras participam de sessões de autógrafos.
A entrada na casa editorial pode ocorrer de diferentes maneiras. Há autoras procuradas depois que seus livros alcançam bons resultados na Amazon. Outras apresentam os próprios projetos ou chegam por indicação das leitoras, que pedem versões impressas das histórias.
Na Bienal do Livro de São Paulo, realizada entre 4 e 13 de setembro, a editora reuniu escritoras em diferentes momentos profissionais. Enquanto algumas já vendem milhares de exemplares, outras ainda constroem suas primeiras comunidades de leitores.
A própria Bienal também abriu espaço para novos contatos. Autoras iniciantes circularam pelo evento distribuindo marcadores, apresentando seus trabalhos e conversando com editoras interessadas em acompanhar novos nomes.
Entre as filas e as pilhas de livros que diminuíam ao longo do dia, a presença da Unicorn mostrou como a força das autoras independentes conquistou espaço no mercado sem abandonar as plataformas onde essas escritoras começaram. O caminho iniciado individualmente diante do computador encontrou, nos corredores da Bienal, condições para ganhar forma, público e continuidade.




















