Depois de 40 anos de serviços, vagões do metrô de Nova York foram lançados ao mar e ganharam uma nova função no fundo do Atlântico

Entre 2001 e 2010, a cidade afundou 2.580 carros de diferentes gerações; alguns deles continuam no fundo do Atlântico. 

Um carro R32 é movimentado por uma escavadeira durante a construção de um recife artificial na Carolina do Sul, em 2008. (Foto: Reprodução/Wikimedia Commons)

Durante décadas, eles transportaram milhões de passageiros pelas movimentadas linhas do metrô de Nova York, nos Estados Unidos. Quando chegou a hora da aposentadoria, milhares desses vagões tiveram um destino pouco convencional: foram lançados no oceano Atlântico para se transformar em recifes artificiais e servir de abrigo para animais marinhos.

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A operação foi organizada pela Metropolitan Transportation Authority (MTA), responsável pelo transporte metropolitano de Nova York. Entre agosto de 2001 e abril de 2010, 2.580 carros de metrô foram destinados ao fundo do mar, em áreas previamente selecionadas ao longo da costa leste dos Estados Unidos.

A iniciativa reaproveitou duas gerações de composições que fizeram parte da história da cidade. Algumas circularam por mais de quatro décadas antes de serem substituídas por modelos modernos.

Os famosos trens vermelhos

A primeira geração enviada ao oceano ficou conhecida como Redbirds, apelido dos vagões que receberam uma pintura vermelho-escura durante a década de 1980.

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Entre os modelos estavam os R26, R28, R29, R33 e R36, fabricados principalmente entre 1959 e 1964. Eles circularam em linhas numeradas do sistema nova-iorquino, incluindo trajetos como o da linha 7, que conecta Manhattan ao Queens.

As primeiras unidades R26 começaram a operar em 1959. Já os R33 e R36, associados também à Feira Mundial de Nova York de 1964, permaneceram em serviço até 2003.

Na prática, alguns desses vagões transportaram passageiros durante aproximadamente 40 a 44 anos, atravessando transformações na cidade e sucessivas modernizações do transporte.

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A aposentadoria dos Redbirds ocorreu gradualmente entre 2001 e 2003, com a chegada de novos trens. Muitos acabaram preservados em museus ou destinados a serviços auxiliares, mas 1.269 carros dessa geração foram reaproveitados no programa de recifes artificiais.

Quais modelos foram afundados?

Depois dos Redbirds, a MTA passou a utilizar vagões maiores, conhecidos como Brightliners, construídos principalmente em aço inoxidável.

Entre os modelos enviados ao mar estavam os R32, R38, R40 e R42, que circularam nas linhas identificadas por letras.

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Os R32 entraram em operação em 1964 e ficaram conhecidos pela carroceria metálica prateada. Parte da frota foi retirada de circulação no fim dos anos 2000, mas os últimos exemplares continuaram operando até 9 de janeiro de 2022, completando quase 58 anos de serviço.

Os R38, introduzidos em 1966, foram totalmente aposentados em março de 2009, após cerca de 43 anos. Já os R40, que começaram a circular em 1968, foram retirados do serviço regular ao longo de 2009, depois de aproximadamente 41 anos nos trilhos.

Outro modelo importante foi o R42, que estreou em 1969. A maior parte das unidades foi aposentada entre 2006 e 2009, embora os últimos carros tenham circulado até fevereiro de 2020, encerrando 51 anos de história.

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Ao todo, 1.311 carros de aço inoxidável foram destinados ao projeto entre 2008 e 2010. Isso não significa que todos os exemplares desses modelos tenham sido afundados: algumas unidades permaneceram em operação por mais tempo ou foram preservadas.

Como ocorreu o afundamento?

Antes de seguir para o oceano, os carros passavam por um processo de desmontagem. Os funcionários retiravam bancos, plásticos, componentes mecânicos, graxas e outros materiais que poderiam contaminar o ambiente marinho.

O objetivo era preservar principalmente a estrutura metálica dos vagões, deixando espaços pelos quais a água e os animais pudessem circular.

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As carcaças eram encaminhadas para áreas portuárias e carregadas em grandes barcaças, responsáveis pelo transporte até os locais autorizados para a criação dos recifes.

No destino, operadores utilizavam guindastes e equipamentos pesados para movimentar os vagões e lançá-los ao mar. Cada carro de aço inoxidável pesava aproximadamente 18 toneladas e media cerca de 18 metros de comprimento.

As operações ocorreram em áreas submarinas de estados como Nova Jersey, Delaware, Maryland, Virgínia, Carolina do Sul e Geórgia. Em abril de 2008, por exemplo, 44 carros foram depositados no recife artificial de Atlantic City, em Nova Jersey, distribuídos por três pontos definidos para a operação.

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A transformação no oceano

Após o afundamento, os vagões passaram a oferecer superfícies rígidas e espaços de proteção em regiões do fundo do mar formadas principalmente por areia.

Peixes, moluscos, crustáceos e outros organismos começaram a utilizar as estruturas como abrigo e área de alimentação. Com o passar do tempo, parte das superfícies metálicas foi ocupada por organismos marinhos.

Um dos locais mais conhecidos é o Redbird Reef, localizado no litoral de Delaware. O recife recebeu centenas de vagões aposentados e se tornou uma área utilizada por pescadores e mergulhadores.

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O reaproveitamento de estruturas artificiais para criar habitats também aparece em outros projetos. Até mesmo bases de parques eólicos instalados no mar podem favorecer a fixação de organismos aquáticos.

Segundo autoridades de Delaware, o Redbird Reef continua sendo uma das principais áreas de recifes artificiais do estado. Em 2024, o governo informou que o local abrigava mais de 700 antigos carros de metrô, além de embarcações e veículos militares aposentados.

Nem tudo saiu como previsto

Embora tenha criado novos habitats submarinos, o projeto também enfrentou dificuldades.

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Em Nova Jersey, uma inspeção realizada após o afundamento de 48 vagões de aço inoxidável, em abril de 2008, revelou que 46 deles haviam se desfeito parcialmente em poucos meses.

O episódio demonstrou que a construção de recifes artificiais exige avaliações rigorosas sobre os materiais utilizados, a resistência das estruturas e os possíveis impactos ambientais.

Mesmo com essas limitações, o projeto da MTA permaneceu como um dos exemplos mais conhecidos de reaproveitamento de veículos ferroviários no ambiente marinho.

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A operação terminou em abril de 2010. Desde então, as carcaças depositadas no Atlântico permaneceram expostas às correntes marítimas, à corrosão e à colonização por diferentes organismos.