Escrever à mão ainda importa? Entenda os benefícios da prática para crianças e adultos

Além de contribuir para a alfabetização e o desenvolvimento motor das crianças, escrita manual pode favorecer aprendizagem, memória e processamento de informações também na vida adulta

Foto: Canva/ PeopleImages de Getty Images

Antes de escrever o próprio nome em letra cursiva, Leonardo, aluno do 1º ano do Ensino Fundamental, treinou movimentos no ar, na areia e em atividades de alinhavo. Aprender a escrever envolve mais do que memorizar letras, exige coordenação motora, atenção e tempo para dominar o traçado.

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Em uma infância cada vez mais conectada, atividades como desenhar, pintar, recortar e escrever à mão precisam seguir tendo espaço no desenvolvimento infantil. Os benefícios dessa prática, inclusive, ultrapassam a infância: pesquisas indicam que a escrita manual pode estar relacionada a processos de aprendizagem e memória em adultos, mostrando que o papel e o lápis não precisam desaparecer da rotina conforme a tecnologia avança.

Crianças estão cada vez mais online

Segundo a TIC Kids Online Brasil 2025, 28% dos usuários de internet de nove a 17 anos tiveram o primeiro contato com a rede até os seis anos. Em 2016, eram 10%. Atualmente, 92% dessa faixa etária utiliza a internet.

No Colégio Marista Glória, em São Paulo, o trabalho com a escrita começa no 1º ano com a letra bastão e avança gradualmente para a cursiva. Segundo Daiane Bueno, professora do 1º ano, a letra bastão facilita o reconhecimento das letras e a relação entre sons e grafias. Já a cursiva é introduzida quando a criança avançou na escrita alfabética e está preparada para um novo desafio.

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“Mais do que simplesmente aprender um novo traçado, buscamos que a criança compreenda que existem diferentes formas de representar as letras e que a escrita cursiva é mais uma possibilidade de expressão”, explica. A escrita manual também mobiliza coordenação motora fina, atenção, memória, percepção visual e organização do pensamento. Para Daiane, o exercício está relacionado não apenas ao movimento das mãos, mas à própria construção da linguagem.

“Escrever exige que a criança organize suas ideias e faça escolhas. A escrita manual não é apenas uma atividade motora; está diretamente relacionada à construção da linguagem e do pensamento”, afirma.

Frustração no processo é parte fundamental do desenvolvimento

Na prática, a preparação para a letra cursiva começa antes do caderno, com atividades como massinha, desenho, recorte, traçados na areia e movimentos de pinça. Essas tarefas ajudam a desenvolver habilidades motoras necessárias para controlar o lápis e reproduzir os diferentes movimentos das letras.

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Na casa de Leonardo, o processo foi acompanhado pela mãe, Janaína Esteves Freitas. No início da alfabetização, ela conta que o filho se frustrava quando não conseguia escrever como imaginava. “No início, o Leo se frustrava bastante e muitas vezes queria a palavra pronta para apenas copiar. Hoje, já consegue identificar onde errou e fazer a própria correção. Ver essa autonomia se desenvolvendo é muito gratificante”, relata.

Quando a cursiva entrou na rotina escolar, a família passou a explorar os movimentos de forma lúdica. “Fomos trabalhando no ar, na areia e com alinhavos, até chegar ao papel. É um processo gradual, que precisa respeitar o tempo da criança”, afirma Janaína.

Hoje, ele já tenta escrever em cursiva o próprio nome e dos pais, além de ler sozinho os enunciados das tarefas e formular suas respostas.

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O benefício de escrever à mão não termina na infância

A relação entre escrita manual e aprendizagem também é observada em adultos. Um estudo publicado na revista Psychological Science, que comparou diferentes formas de aprendizagem em adultos, identificou que a prática de escrever à mão favoreceu uma aprendizagem mais rápida e uma maior generalização para tarefas que não haviam sido treinadas, em comparação com práticas sem componente motor.

Escrever envolve simultaneamente movimentos das mãos, percepção visual e processos cognitivos. Estudos com adultos encontraram diferenças na atividade cerebral durante tarefas realizadas à mão e por digitação, indicando que a escrita manual envolve uma rede mais ampla de processos sensório-motores e cognitivos.

Escrever uma anotação à mão faz mais do que simplesmente registrar uma informação. Ao precisar formar cada letra, organizar o espaço e decidir o que será colocado no papel, a pessoa participa ativamente do processo de registro. Além disso, os movimentos envolvidos na escrita podem favorecer a memorização de novas informações em comparação com a digitação.

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Isso não significa que o computador ou o celular sejam prejudiciais ou que escrever à mão seja sempre superior. A tecnologia oferece velocidade, praticidade e acessibilidade, enquanto diferentes situações podem exigir ferramentas diferentes. O ponto é manter a escrita manual como mais uma possibilidade de aprendizagem e processamento de informações.

Para adultos, isso pode aparecer em situações simples do cotidiano, como fazer anotações durante uma aula ou reunião, escrever uma lista de tarefas, registrar ideias, estudar ou resumir informações importantes em um caderno.

Telas e papel podem conviver

O tema também se insere em um cenário de desafios persistentes na alfabetização. Em 2025, o Brasil registrou pela primeira vez taxa de analfabetismo inferior a 5% na série histórica da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua). Ainda assim, 8,4 milhões de brasileiros com 15 anos ou mais não sabiam ler e escrever, segundo o IBGE.

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Para Daiane, o contato frequente com dispositivos digitais pode reduzir oportunidades de atividades que exigem movimentos precisos das mãos. Por isso, a proposta não é opor papel e tecnologia, mas combinar recursos digitais com livros, jogos, arte, recorte, colagem e escrita.

Na família de Leonardo, o uso de telas ocorre às sextas-feiras e nos finais de semana, por cerca de meia hora e com acompanhamento dos pais. A rotina também inclui livros, jogos de tabuleiro e brincadeiras ao ar livre.

Janaína percebe que o interesse do filho pela leitura aumentou. “Ele tem procurado com mais frequência os gibis e livros que ficam em seu quarto. São pequenos avanços que mostram como a leitura e a escrita estão se tornando mais naturais em sua rotina.”

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Em uma geração que aprende cada vez mais cedo a deslizar os dedos sobre uma tela, controlar o lápis, formar palavras e registrar as próprias ideias continua sendo parte importante da construção da autonomia na alfabetização. Para os adultos, recuperar eventualmente o hábito de escrever à mão também pode ser uma forma de manter ativa uma atividade que envolve coordenação motora, atenção e diferentes processos cognitivos.