Ser produtivo deixou de ser apenas uma exigência do ambiente profissional. Você provavelmente já se deparou com as tendências de “maxxing” rolando feed nas redes sociais ou dicas indiretas de como tornar seus passatempos mais “produtivos”.
E em uma rotina marcada por metas, métricas e comparação constante, a lógica da alta performance já ultrapassa o trabalho e chega a diferentes áreas da vida, da prática de exercícios físicos à leitura, dos hobbies ao descanso.
A questão, segundo Lucas Freire, psicólogo do trabalho, professor, palestrante e autor do livro Exaustos, publicado pela Buzz Editora, não está em buscar bons resultados ou crescimento profissional, mas no momento em que o desempenho passa a ser usado como uma medida do próprio valor.
“A performance, que deveria ser uma ferramenta que usamos em determinados contextos, começou a se transformar em uma espécie de medida do valor humano. O problema não é querer fazer um trabalho excelente, crescer profissionalmente ou alcançar resultados, mas sim quando deixamos de dizer ‘eu tive uma boa performance’ e passamos, silenciosamente, a acreditar: ‘eu sou a minha performance’”, explica.
Quando produzir passa a definir quem somos?
A transformação, segundo o autor, não aconteceu de uma hora para outra. Ela seria resultado de uma mudança cultural gradual, intensificada pelo avanço da tecnologia e pela presença cada vez maior de métricas no cotidiano.
Se antes indicadores de produtividade estavam mais associados ao trabalho, hoje é possível medir praticamente tudo: quantidade de passos dados, horas de sono, frequência cardíaca durante o exercício, livros lidos no ano e até o tempo dedicado a determinadas atividades.
“Descansar começa a produzir culpa. Não entregar alguma coisa ameaça a autoestima. Um dia ‘improdutivo’ deixa de ser apenas um dia improdutivo e passa a ser interpretado quase como um fracasso pessoal”, afirma Freire.
Para ele, essa lógica representa uma transformação do “fazer” em identidade. Nas redes sociais, o processo ainda ganha outra camada, além de realizar, existe a pressão para demonstrar que se está realizando bem.
“Hoje não performamos apenas profissionalmente. Performamos o corpo, a alimentação, a parentalidade, o casamento, as férias e até a felicidade”, diz.
Até os hobbies entram na lógica da produtividade
A alta performance também pode aparecer em atividades que, originalmente, não têm relação com trabalho.
Uma corrida pode deixar de ser simplesmente uma atividade prazerosa e passar a envolver metas de pace, distância, calorias e frequência cardíaca. A leitura pode ser transformada em uma competição pessoal para atingir determinado número de livros por ano. Um hobby pode rapidamente ganhar metas, resultados e até a perspectiva de monetização.
Para Freire, isso acontece porque a sociedade teria desaprendido a considerar o prazer uma justificativa suficiente para fazer alguma coisa.
“Transformamos hobbies em projetos de melhoria pessoal. E, quando toda atividade precisa gerar um resultado, saúde, dinheiro, status, seguidores, networking ou desenvolvimento, perdemos uma dimensão fundamental da experiência humana: fazer alguma coisa porque fazer aquilo, por si só, já vale a pena”, afirma.
No livro, o autor aborda o conceito de Play, associado à motivação intrínseca, à curiosidade, à exploração e à liberdade em relação ao resultado, em palavras simples: o fazer apenas por fazer, sem objetivos ocultos por trás. A ideia é recuperar atividades que possam existir sem necessariamente produzir algum benefício mensurável.
“Você não precisa ser um excelente desenhista para desenhar. Não precisa virar atleta para correr. Não precisa monetizar a fotografia porque descobriu que fotografa bem”, exemplifica.
A tecnologia economizou tempo, mas criou novas demandas
A relação com a tecnologia também ajuda a explicar o fenômeno. Ferramentas digitais tornaram diversas tarefas mais rápidas, mas isso não necessariamente resultou em mais tempo livre.
Um e-mail, por exemplo, tornou a comunicação mais ágil, mas também aumentou a quantidade de mensagens que uma pessoa pode receber. O smartphone permite trabalhar de praticamente qualquer lugar e, consequentemente, faz com que qualquer lugar possa se transformar em ambiente de trabalho.
O mesmo pode acontecer com ferramentas de inteligência artificial. Ao reduzir o tempo necessário para determinadas tarefas, elas podem liberar espaço na agenda, mas também criar a expectativa de que mais atividades sejam realizadas no mesmo período.
“Nós aumentamos a quantidade de coisas que esperamos realizar dentro do mesmo tempo”, resume Freire. Para o autor, a questão não é apenas quanto tempo uma tecnologia economiza, mas o que fazemos com esse tempo. Se quatro horas são poupadas em uma tarefa, por exemplo, elas podem ser utilizadas para descanso e vida pessoal ou simplesmente preenchidas com novas demandas.
“Se eu levava oito horas para produzir algo e uma tecnologia permite que eu faça em quatro, existem duas possibilidades: posso recuperar quatro horas para minha vida ou posso simplesmente dobrar a produção. Nossa cultura quase sempre escolhe a segunda”, afirma.
“Fisiculturismo corporativo” te obriga a parecer sempre ocupado
Em alguns ambientes profissionais, agendas lotadas, longas jornadas e disponibilidade permanente podem ser interpretadas como sinais de comprometimento, importância ou sucesso.
Freire compara o fenômeno ao “fisiculturismo corporativo”: em vez de exibir músculos, as pessoas passam a exibir agendas cheias.
“Confundimos intensidade com impacto. Uma pessoa pode trabalhar quatorze horas e produzir pouco valor; outra pode trabalhar de forma concentrada durante muito menos tempo e gerar um impacto enorme”, afirma.
O problema, segundo ele, não é reconhecer que determinadas fases da vida podem exigir mais esforço. A questão está em transformar uma situação excepcional em um estilo de vida permanente.
“Uma cultura saudável de trabalho deveria perguntar menos ‘quantas horas você aguentou?’ e mais ‘que impacto você produziu e qual foi o custo humano desse resultado?’”, questiona.
Quando até o descanso precisa dar resultado
Se a produtividade invade o lazer, o descanso não fica necessariamente de fora. Aplicativos, relógios inteligentes e métodos de recuperação podem ajudar a acompanhar o sono e outros indicadores de saúde, mas também podem transformar o próprio ato de descansar em uma tarefa a ser cumprida.
É nesse contexto que Freire cita o chamado stresslaxing, expressão usada para descrever situações em que a pessoa se sente estressada justamente quando tenta relaxar. Fisicamente está parada, mas mentalmente presa à sensação de que deveria estar fazendo alguma coisa, ela passa a experimentar culpa durante o tempo livre.
“Nós desaprendemos a ficar sem finalidade”, afirma. Para o autor, existe uma diferença entre criar condições para descansar e transformar o descanso em mais um projeto de alta performance. O primeiro pode ajudar na recuperação; o segundo mantém a mesma lógica de cobrança, apenas com uma atividade diferente.
Por isso, a discussão sobre alta performance não precisa necessariamente terminar com a recomendação de “descansar mais”. A reflexão envolve também recuperar espaços em que não exista a obrigação de produzir, melhorar ou alcançar algum resultado.
“Uma vida humana não pode ser organizada apenas entre dois modos: produzir e recuperar-se para voltar a produzir”, diz Freire. A pergunta, nesse sentido, deixa de ser apenas quanto uma pessoa consegue produzir e passa a envolver o espaço que existe na rotina para aquilo que não precisa gerar resultado algum.
“Descansar não deveria servir somente para que amanhã você trabalhe melhor. Às vezes você descansa porque existe uma vida fora do trabalho”, conclui.






