Protestos de famílias de crianças autistas e pessoas neurodivergentes em São Paulo, nesta segunda-feira (22/6), colocaram a Hapvida no centro de uma disputa sobre o atendimento a pacientes com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Os manifestantes relatam dificuldades após descredenciamentos de clínicas, mas a empresa nega prejuízos aos tratamentos.
O ato aconteceu em frente à sede da Hapvida, na avenida Paulista, em São Paulo.
Segundo os manifestantes da ação organizada pelo Movimento ABA RESISTE, a retirada simultânea de diversos prestadores da rede credenciada deixou centenas de famílias sem acesso regular a terapias consideradas fundamentais para o desenvolvimento das crianças.
Entre as principais reclamações estão interrupções no atendimento, aumento das filas de espera e falta de alternativas na rede disponível.
O grupo também afirma que muitos beneficiários não foram comunicados previamente sobre os descredenciamentos, o que teria agravado ainda mais a situação.
Mãe relata interrupção de tratamento e medo de retrocesso
Entre os participantes estava Danielle Casado, mãe de Davi, de 11 anos, diagnosticado com autismo nível 3 de suporte. Segundo ela, a interrupção das terapias comprometeu avanços no tratamento do filho, que possui uma condição conhecida como “elopement”, caracterizada pela tendência de fugir repentinamente de ambientes.
“O impacto está sendo gigantesco. Eu voltei a ter medo, tenho saído menos com ele e não posso voltar ao trabalho enquanto estivermos nessa situação”, afirmou.
Danielle também diz que não foi avisada sobre o descredenciamento da clínica onde o filho era atendido e relata dificuldades para encontrar novas opções. “Todas as clínicas indicadas já não atendiam mais pela Hapvida”, disse.
Segundo a mãe, trocar de plano de saúde também não é uma solução viável para muitas famílias devido aos altos custos e aos períodos de carência para terapias especializadas.
“As famílias estão esgotadas física e emocionalmente. Esse tempo que estamos perdendo sem terapia é precioso demais”, completou.
Movimento cita ação judicial e cobra soluções da operadora
De acordo com o ABA RESISTE, a situação levou ao ajuizamento de uma Ação Civil Pública Coletiva pelo advogado Marcos Carvalho, em nome do Instituto Resiliência Azul. O movimento afirma que a Justiça concedeu uma liminar favorável aos pacientes, mas relata que ainda existem casos de suposto descumprimento das determinações judiciais.
Os organizadores também defendem uma investigação mais ampla sobre o setor de planos de saúde. Em parceria com a Associação Nenhum Direito a Menos, foi protocolado um Mandado de Segurança no Supremo Tribunal Federal (STF) para solicitar a apreciação dos requerimentos que pedem a instalação da CPI dos Planos de Saúde na Câmara dos Deputados.
O ato contou com o acompanhamento do gabinete da deputada estadual Andrea Werner, além da presença de representantes do Gabinete da Inclusão e da advogada Vanessa Ziotti.
Após a manifestação, representantes do movimento e do gabinete parlamentar foram recebidos pelo vice-presidente de Relações Institucionais da Hapvida, Gustavo Ribeiro. Durante a reunião, ficou acertado o envio de um relatório reunindo as principais reclamações das famílias e da rede de atendimento.
Segundo o movimento, a operadora se comprometeu a analisar o documento e discutir possíveis medidas para solucionar os problemas relatados.
Posicionamento da Hapvida
Em nota, a Hapvida afirmou que mantém o compromisso com um atendimento “humanizado, seguro e de qualidade” às pessoas com TEA e que os ajustes na rede seguiram os protocolos da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS).
A operadora negou interrupções nos tratamentos e informou que todos os beneficiários continuam sendo acompanhados por equipes multidisciplinares, incluindo serviços de psicologia, fonoaudiologia, terapia ocupacional, fisioterapia e nutrição.
A empresa acrescentou que a transição entre clínicas vem sendo acompanhada para garantir a continuidade do atendimento, destacou que possui seis clínicas de referência em Mogi das Cruzes e afirmou que não há consenso científico de que mudanças de profissionais provoquem prejuízos comportamentais aos pacientes.
Por fim, a Hapvida informou que segue em contato com os responsáveis pelos pacientes para prestar suporte durante o processo e garantir a continuidade dos tratamentos.
