Itália vive uma invasão repentina de poodles: os chamados ‘barboncinos’ viraram febre e registros da raça cresceram 240% no país

Popular nas cidades e nas redes sociais, o pequeno cão cacheado também acende um alerta para compras por impulso e criação irregular

Filhote e exemplar adulto mostram diferentes fases do desenvolvimento do barboncino (Foto: Reprodução/Wikimedia Commons)

Eles aparecem dentro de bolsas, ocupam mesas externas de cafés e caminham pelas calçadas com o pelo cuidadosamente aparado. Nas cidades italianas, os barboncinos deixaram de ser apenas cães de companhia populares para se transformar em um fenômeno praticamente nacional.

Continua após a publicidade

A percepção de que a Itália está cheia desses pequenos cães cacheados encontra respaldo nos números. As inscrições anuais de barbones no livro genealógico do país saltaram de 2.453, em 2016, para 8.349, em 2025.

O crescimento chegou a aproximadamente 240% em nove anos. Em outras palavras, o volume mais que triplicou, enquanto outras raças tradicionais perderam espaço nas preferências das famílias italianas.

Crescimento ganhou velocidade

A curva começou a subir antes da pandemia, mas acelerou a partir de 2020. Naquele ano, foram registrados 4.953 cães da raça. Em 2021, o número avançou para 6.322 e continuou crescendo até atingir o maior patamar da série em 2025.

Continua após a publicidade

Somente entre 2024 e 2025, as inscrições passaram de 7.521 para 8.349, aumento de 11%. Os dados aparecem no levantamento dos últimos dez anos mantido pelo Ente Nazionale della Cinofilia Italiana, o ENCI.

O próprio órgão ressalta que os totais podem sofrer pequenas alterações devido à conclusão de processos ainda em análise. Além disso, os números incluem apenas animais inscritos no livro genealógico. Portanto, não representam todos os poodles que vivem na Itália, especialmente aqueles sem pedigree.

Fulvos dominam registros

Por trás da explosão existe outra mudança. Os exemplares de pelagem fulva, categoria que abrange tonalidades avermelhadas e semelhantes ao damasco, passaram de 793 registros em 2016 para 5.737 em 2025.

Continua após a publicidade

Essa cor respondeu por quase 69% das inscrições mais recentes. É justamente o barboncino pequeno, fulvo e tosado com aparência arredondada que ganhou espaço nas redes sociais e passou a ser associado à imagem de um cão de pelúcia.

A combinação ajuda a explicar a procura. A raça reúne porte reduzido, diferentes tamanhos, facilidade de treinamento e forte ligação com os tutores. O pelo encaracolado também solta menos fios pelo ambiente, embora isso não signifique que o animal dispense cuidados ou seja totalmente incapaz de provocar alergias.

Toy não é teacup

Embora “barboncino” seja o nome popular usado na Itália, a denominação oficial da raça é barbone. O padrão reconhece quatro tamanhos: grande, médio, anão e toy.

Continua após a publicidade

Segundo o regulamento de confirmação de tamanho do ENCI, o toy mede normalmente entre 24 e 28 centímetros. Expressões comerciais como “micro”, “mini toy” e “teacup” não correspondem a tamanhos oficialmente reconhecidos.

A preferência pelos exemplares menores está ligada à vida urbana. Eles ocupam pouco espaço e podem acompanhar os tutores em diferentes atividades. Ainda assim, precisam de passeios, estímulos mentais, socialização e companhia. O tamanho reduzido não transforma o cão em um objeto decorativo.

Moda exige cuidado

O crescimento da procura também alimenta anúncios enganosos e criações voltadas apenas ao lucro. Quanto mais desejada se torna uma raça, maior é o risco de reprodução sem controle sanitário, venda precoce dos filhotes e uso de termos inexistentes para justificar preços mais altos.

Continua após a publicidade

Antes da compra, o interessado deve conferir a procedência, conhecer o local onde os cães vivem e verificar a documentação dos pais e do filhote. A escolha baseada apenas na cor, no tamanho ou na aparência das fotografias pode esconder problemas de saúde e comportamento.

Os números mostram que os barboncinos realmente se multiplicaram na Itália. A febre, porém, traz uma responsabilidade proporcional: atrás do corte arredondado e da aparência de brinquedo existe um animal ativo, inteligente e dependente de cuidados por muitos anos.