O fósforo está entre os nutrientes essenciais para manter pastagens e lavouras produtivas, mas existe um ponto em que aquilo que ajuda as plantas a crescer deixa o campo e se transforma em um problema ambiental.
Quando a quantidade aplicada supera o que plantas e solo conseguem aproveitar, parte desse fósforo pode ser carregada para rios, lagos e outros cursos d’água. O resultado pode ser enriquecimento excessivo de nutrientes, proliferação de algas, redução do oxigênio disponível e prejuízos aos peixes e à qualidade da água.
Esse dilema voltou ao centro das atenções na Nova Zelândia justamente quando o país retomou uma atividade que não realizava de forma relevante havia quase 80 anos: a extração de rocha fosfática.
As primeiras cargas de uma jazida localizada em Clarendon, na região de Otago, começaram a deixar a área com destino às fazendas. Sob a colina, segundo a equipe responsável pelo projeto, existem milhões de toneladas do mineral.
A retomada pode reduzir parte da dependência de fosfato vindo do exterior. Mas um especialista em água doce da Universidade de Otago chama atenção para outra etapa da história: o que acontece depois que esse fósforo chega ao campo.
O problema começa quando sobra fósforo no sistema
O fósforo tem função importante na agricultura. Sem quantidades adequadas do nutriente, o crescimento das forrageiras e a eficiência da alimentação dos rebanhos podem ser prejudicados.
O desafio ambiental não está simplesmente em utilizar fósforo, mas em equilibrar a quantidade que entra no sistema com aquilo que efetivamente é aproveitado pelas plantas.
Segundo o especialista citado no caso neozelandês, enquanto as entradas e saídas permanecerem equilibradas e o fósforo não escapar para rios próximos, o problema pode permanecer controlado.
A situação muda quando há excedente.
O fósforo que não fica retido no sistema produtivo pode alcançar a água por escoamento. E um nutriente importante para as plantas em terra firme pode produzir consequências indesejadas quando aparece em excesso no ambiente aquático.
Mais nutrientes na água podem significar mais algas e menos oxigênio
Quando grandes quantidades de nutrientes chegam a rios e outros ambientes aquáticos, podem favorecer o crescimento excessivo de algas.
A consequência não termina na mudança da aparência da água.
O enriquecimento excessivo de nutrientes pode contribuir para perda de oxigênio e afetar peixes, além de comprometer outros usos daquele recurso hídrico.
É por isso que a discussão sobre fósforo não termina na mina ou no preço do fertilizante. Ela continua dentro da propriedade rural.
Quantidade aplicada, momento da aplicação, características do solo, chuva, relevo e mecanismos de contenção ajudam a determinar se o nutriente permanece disponível para a produção ou encontra caminho para os cursos d’água.
A retomada da mineração na Nova Zelândia torna essa contradição especialmente visível: aumentar a disponibilidade doméstica de um mineral essencial não elimina a necessidade de controlar o que acontece com ele depois da aplicação.
Uma jazida de 25 milhões de anos volta a ser explorada
A história que reacendeu essa discussão começou em Clarendon, no sul da Nova Zelândia.
Depósitos de fosfato são relativamente raros no país, e a região havia sido um dos pontos relevantes de extração até os anos 1940.
Agora, quase oito décadas depois, a mineração está sendo retomada.
A camada de rocha fosfática teria se formado em um antigo ambiente marinho há aproximadamente 25 milhões de anos e permaneceu preservada sob a colina.
Com novos investimentos e mapeamento geológico, o depósito voltou a ser considerado economicamente acessível próximo à superfície.
O material retirado é fragmentado e passa por duas etapas de britagem antes de seguir para utilização agrícola.
Segundo os responsáveis pelo projeto, existem milhões de toneladas de rocha fosfática sob a região.
Por que voltar a extrair fosfato depois de quase 80 anos?
A resposta também passa pela dependência externa.
Somente em julho, segundo dados oficiais citados no material sobre o projeto, a Nova Zelândia importou o equivalente a cerca de R$ 135 milhões em fosfato.
Parte do produto utilizado internacionalmente vem de regiões como Marrocos e Saara Ocidental, onde a cadeia de mineração é acompanhada por denúncias relacionadas a direitos humanos e poluição.
Existe ainda a distância.
Transportar o mineral por milhares de quilômetros até a Oceania acrescenta frete e emissões associadas ao transporte marítimo, além de deixar o abastecimento sujeito a oscilações internacionais.
Retomar uma fonte doméstica, portanto, pode encurtar parte desse caminho e diminuir a exposição a fornecedores distantes.
Mas produzir perto não significa automaticamente resolver o impacto ambiental do fertilizante.
Tirar o fosfato de perto não resolve o que acontece depois
Esse é um dos principais pontos levantados pelo especialista da Universidade de Otago.
A origem do mineral e seu uso no campo são problemas relacionados, mas diferentes.
Uma jazida doméstica pode reduzir distâncias de transporte e dependência de importações. Ainda assim, se houver aplicação de fósforo acima da capacidade de aproveitamento das plantas e do solo, o excedente continuará podendo chegar aos cursos d’água.
Por isso, dose e momento de aplicação são fundamentais.
Também entram nessa equação as condições do terreno, as chuvas e as barreiras capazes de reduzir o transporte do nutriente para rios e lagos.
A mineração resolve a questão de onde conseguir o fósforo. O manejo agrícola determina quanto dele permanece cumprindo sua função na produção e quanto pode terminar no ambiente aquático.
O problema também interessa ao Brasil
O alerta está longe de ser exclusivo da Nova Zelândia.
No Brasil, pastagens, lavouras de grãos e sistemas agrícolas intensivos também dependem do fósforo para manter produtividade.
E o mesmo mecanismo ambiental descrito no caso neozelandês pode ocorrer em regiões agrícolas brasileiras: quando a quantidade aplicada ultrapassa aquilo que plantas e solo conseguem reter, o excedente pode ser transportado pela água.
Bacias hidrográficas que atravessam regiões de agricultura e pecuária intensivas precisam lidar com esse risco.
Se o fósforo chega aos ambientes aquáticos em excesso, pode favorecer florações de algas e contribuir para a deterioração da qualidade da água.
É por isso que análise de solo, calibração da quantidade aplicada, respeito às áreas de proteção e acompanhamento do escoamento são peças importantes do manejo.
O caso da Nova Zelândia ajuda a mostrar que a discussão ambiental sobre fertilizantes não precisa ser resumida a usar ou deixar de usar determinado mineral.
A questão é quanto entra, quanto a produção consegue aproveitar e para onde vai aquilo que sobra.
O mesmo elemento pode ser recurso no campo e problema na água
A retomada da mineração em Clarendon coloca lado a lado duas necessidades difíceis de separar.
De um lado está a agricultura, que precisa de fósforo para manter sua produtividade e alimentar os animais.
Do outro estão rios e outros ambientes aquáticos, que podem sofrer quando o mesmo nutriente aparece onde não deveria e em quantidade excessiva.
A Nova Zelândia voltou a retirar do próprio solo uma rocha que não explorava de forma relevante havia quase 80 anos. Sob a colina existem milhões de toneladas de um recurso formado há cerca de 25 milhões de anos.
Mas encontrar mais fósforo não encerra a discussão.
Depois que os caminhões deixam a mina e o fertilizante chega à propriedade, começa outra etapa: fazer com que o nutriente termine nas plantas — e não nos rios.
É justamente aí que um recurso essencial para produzir alimentos pode deixar de ser aliado da agricultura e se transformar em problema para a água.






