“Quem tem fome, tem pressa.” A frase curta e categórica marcou o tom com que o sociólogo e ativista dos direitos humanos Herbert de Souza, o Betinho (1935–1997), convocou o país a olhar para uma tragédia histórica: a miséria extrema. Na década de 1990, Betinho conseguiu o que parecia impossível — engajar cidadãos, empresários, artistas e o poder público em uma verdadeira cruzada nacional que transformou o combate à fome em prioridade ética e política no Brasil.
Nascido em Bocaiúva (MG), Betinho carregou desafios de saúde desde o berço devido à hemofilia — condição também compartilhada por seus irmãos, o cartunista Henfil e o músico Chico Mário. Apesar das limitações físicas, tornou-se uma das vozes mais ativas da intelectualidade e do ativismo brasileiro.
Do exílio ao hino da Anistia
Com a instauração da ditadura militar em 1964, a militância de Betinho em defesa das reformas de base e da democracia o forçou ao exílio. Ele viveu no Chile, no Canadá e no México.
Foi durante esse período de distanciamento forçado do país que sua figura se imortalizou na cultura popular brasileira. Em 1979, João Bosco e Aldir Blanc compuseram “O Bêbado e a Equilibrista”, eternizada na voz de Elis Regina. A estrofe que celebra o retorno dos exilados faz referência direta ao sociólogo:
“Meu Brasil! / Que sonha com a volta do irmão do Henfil / Com tanta gente que partiu / Num rabo de foguete…”
Com a Lei da Anistia no mesmo ano, o “irmão do Henfil” finalmente regressou à sua terra natal, trazendo consigo a determinação de reconstruir a cidadania no país.
Ação da Cidadania e o Natal Sem Fome
Na década de 1990, incomodado com os índices alarmantes da pobreza extrema, Betinho fundou em 1993 a Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida. A iniciativa descentralizou a doação de alimentos, organizando comitês locais por todo o território nacional.
Dessa mobilização nasceu a campanha Natal Sem Fome, que se consolidou como a maior rede de solidariedade da América Latina. O movimento arrecadou milhares de toneladas de alimentos e provou que a sociedade civil organizada tinha força suficiente para intervir nas grandes mazelas sociais.
Reconhecimento cultural e enfrentamento da Aids
A visibilidade de Betinho transcendeu o ambiente acadêmico e político. Em 1996, sua trajetória e luta foram homenageadas na Marquês de Sapucaí como enredo da escola de samba Império Serrano, sob o título “EAB – Império Serrano, um Rio de Mar a Mar: Do Vale do Ribeiro ao Canto do Sabiá”, destacando seu papel como patrono da solidariedade.
Hemofílico, Betinho contraiu o vírus do HIV durante uma transfusão de sangue, assim como seus dois irmãos. Diagnosticado como soropositivo em uma época de imenso estigma social em torno da Aids, ele não se intimidou: transformou o diagnóstico em mais uma frente de batalha, defendendo publicamente o direito ao tratamento digno e a regulamentação rígida dos bancos de sangue no Brasil.
Betinho faleceu em 9 de agosto de 1997, aos 61 anos, deixando um legado permanente de que a solidariedade é um dever de cidadania e que a luta contra a desigualdade não admite adiamentos.






