A investigação envolvendo o Instituto Conhecer Brasil (ICB), ONG ligada à empresária Karina Ferreira da Gama, sócia da produtora responsável pelo filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, apura suspeitas de fraude, desvio de recursos públicos e irregularidades na execução de um contrato milionário firmado com a Prefeitura de São Paulo para a instalação de pontos de wi-fi gratuito na cidade.
A entidade foi alvo de uma operação da Polícia Civil nesta segunda-feira (1º/6), que cumpriu mandados de busca e apreensão em endereços ligados à ONG, à empresária e à Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia.
Durante a ação, foram recolhidos computadores, celulares, documentos e notas fiscais que devem auxiliar no andamento das investigações.
O foco do inquérito é um contrato firmado entre o ICB e a Prefeitura de São Paulo para a implantação de 5 mil pontos de internet gratuita em comunidades da capital, com valor inicial de R$ 108 milhões por ano. Segundo a Polícia Civil, após sucessivos aditivos, o montante passou para R$ 157,1 milhões.
Uma gravação de áudio, divulgada em 13 de maio pelo The Intercept Brasil, revela a estreita relação entre Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master. O site revelou um pedido de apoio financeiro de Flávio Bolsonaro para o filme.
O que está sendo investigado
De acordo com os investigadores, a ONG não teria cumprido integralmente as metas previstas no contrato. Embora a instalação dos 5 mil pontos estivesse programada para ser concluída em junho de 2025, cerca de 3.200 pontos foram efetivamente implantados, levando à assinatura de aditivos que prorrogaram os prazos de execução.
Outro ponto apurado é a existência de uma suposta diferença entre os valores pagos e os serviços efetivamente prestados. A investigação aponta que a administração municipal teria realizado repasses superiores ao volume de serviços executados, o que pode ter gerado pagamentos sem a correspondente entrega prevista em contrato.
A Polícia Civil também analisa uma suposta disparidade nos custos cobrados pela ONG. Segundo o inquérito, enquanto a empresa municipal de tecnologia Prodam realizava serviços semelhantes por valores significativamente menores, o contrato firmado com o ICB previa custos mais elevados por ponto de internet instalado.
Suspeitas de movimentação financeira
Os investigadores apuram ainda a existência de uma possível rede de subcontratações realizadas pela ONG. Segundo a polícia, parte dos recursos recebidos teria sido repassada a empresas parceiras, o que motivou a análise detalhada da movimentação financeira da entidade.
Entre as hipóteses investigadas está a ocorrência de confusão patrimonial entre empresas ligadas à mesma proprietária, além da possibilidade de utilização de recursos públicos em atividades não relacionadas ao contrato de wi-fi. A polícia busca esclarecer se houve desvio de finalidade na aplicação dos valores recebidos pela ONG.
Notas fiscais e prestação de contas
Outro eixo da investigação envolve a prestação de contas apresentada pelo instituto à Prefeitura. Relatórios técnicos apontaram a utilização de notas fiscais canceladas, documentos considerados irregulares e até notas emitidas pela própria entidade para si mesma.
Um parecer da Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia identificou inconsistências na documentação apresentada pela ONG e apontou a necessidade de devolução de valores. Posteriormente, segundo a Prefeitura, os recursos questionados foram restituídos e a prestação de contas acabou sendo aprovada com ressalvas.
Além da Polícia Civil, o caso também é acompanhado pelo Ministério Público de São Paulo, que investiga possíveis irregularidades tanto na contratação da entidade quanto na execução financeira da parceria.
Relação com o filme do Bolsonaro
A investigação ganhou repercussão porque a empresária Karina Ferreira da Gama é proprietária do Instituto Conhecer Brasil e também sócia da produtora responsável pelo filme Dark Horse, que retrata a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro.
A obra do americano Cyrus Nowrastech está prevista para ser lançada em 2026 e seu elenco é formado pelo astro de “A Paixão de Cristo”, Marcus Ornellas, Eddie Finlay, entre outros.
Embora a polícia tenha citado a possibilidade de recursos terem sido utilizados em atividades ligadas à produção audiovisual, não há conclusão oficial sobre essa hipótese. O objetivo da investigação é justamente verificar se houve ou não desvio de recursos públicos para finalidades diferentes das previstas no contrato.
A empresária nega irregularidades e afirma que os problemas identificados nas prestações de contas estão sendo corrigidos. Já a Prefeitura de São Paulo sustenta que o contrato seguiu os trâmites legais, que o programa continua em funcionamento e que está colaborando com as autoridades.




