Quando as portas de um novo país se fecham para estrangeiras, a educação pode transformar a realidade – mesmo atrás das grades.
Professor de português-inglês pela Universidade de São Paulo, Anderson Borges Costa também é escritor e roteirista teatral. Durante a 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, Anderson falou com a Gazeta de S. Paulo sobre uma das obras que estava promovendo no evento: o livro “Professoras”, inspirado em uma vivência pessoal.
Borges foi professor por quase dois anos no complexo de estrangeiras na Penitenciária Feminina da Capital, no Carandiru, local marcado pelo massacre ocorrido em 1992 na ala masculina do presídio, no Pavilhão 9, primeiro desativado, depois demolido.

Inspirado na experiência do autor como professor voluntário de Português para mulheres estrangeiras encarceradas, o romance de ficção acompanha progressivamente a vida no interior do sistema prisional ao longo de seis capítulos, em uma narrativa que busca construir uma experiência de confinamento. Como explica o professor, portão após portão cruzado.
Entrar no presídio é um processo marcante. Você entra […] e passa pelo primeiro portão. E aquele portão se fecha… Ele bate, faz um barulho que assusta e aí você fala: ‘Opa, estou a um portão da liberdade’. […] Quando eu passei pelo quarto portão, eu já não ouvia mais barulho da rua. Eu falei: ‘O som da liberdade já não existe mais, porque está muito longe’.
Anderson conta como chegou ao presídio, por meio de um concurso, para chegar às aulas de português. Diz que chegou perdido, sem saber por onde procurar informações, ou mesmo a entrada, sendo bruscamente abordado por policiais e carcereiros.
Após a entrada, ressalta como foi o impacto do primeiro encontro com as encarceradas, em uma turma de 20 mulheres, que vinham de diferentes lugares do mundo:
“E eu cheguei e falei para elas assim: ‘Se eu falar em português, vocês me entendem? Levanta a mão quem me entende’. Aí uma mãozinha muito tímida se levantou. […] E eu falei: ‘Em inglês, se eu falar em inglês, vocês me entendem?’ Aí 19 das 20 mãos levantaram. Havia presas ali […] da Hungria, África do Sul, Etiópia, Namíbia, França, Holanda…”
‘Sala de aula de sonhos’
O principal choque ao entrar na sala de aula, diz Anderson, foi o respeito que elas entregaram no primeiro momento. Vindo de outras experiências, ressalta que, ao se deparar com tamanho silêncio, estranhou e também se surpreendeu a partir dali:
Eu entrei com aquele silêncio que a gente não vê — eu sou professor também, eu não vejo em sala de aula um silêncio que eu sempre ouvi ali. E eu falei: ‘Nossa, isso aqui é uma sala de aula de sonhos de todos os professores, silêncio militar’
Anderson reflete sobre a necessidade do conhecimento da língua matriz do país em que se vive. A partir da dúvida, trouxe percebeu a necessidade diária daquelas mulheres a partir do ponto de vista da comunicação.
Elas estão aprendendo a dizer: ‘Eu estou com dor de cabeça’, estão aprendendo a dizer: ‘Eu estou menstruada’, ‘Estou com dor de dente, o que eu faço?’. E aquilo é fundamental no presídio. ‘Essa comida está estragada’, ‘fui maltratada por uma outra presa’.
Aulas libertadoras
O professor conta que, em seu primeiro dia, pediu para conhecer onde ficavam as celas das prisioneiras e que, ali, pôde ver o sentimento de solidão que carregavam. Anderson lembra a sensação de liberdade que as aulas traziam para as encarceradas, que viviam uma realidade limitada e tinham o momento como um intervalo entre o mundo real e a penitenciária.
O horário da tranca é 17:30. A minha aula era às 18h. Então elas eram destrancadas para ir para minha aula. […] Era um momento de alguma liberdade para elas, que iam fazer a aula, e um momento em que elas podiam aprender, se comunicar no idioma delas com alguém que entendia.
Ao fim, o professor ressalta um momento que o emocionou e que trouxe para a obra. Anderson apelidou a ala estrangeira de “as esquecidas das esquecidas”, referindo-se às visitas recebidas pelas conviventes, que eram mínimas.
Num domingo de manhã aqui no Carandiru, a fila [de visitas para mulheres] é bem curta. […] Aí você pensa o seguinte: uma presa da África do Sul, que morava numa favela da África do Sul, qual a chance dessa presa receber uma visita? Alguém sairia de uma favela da África do Sul para vir ver essa presa no Carandiru? […] Eu trabalhei com o que eu chamo de ‘as esquecidas das esquecidas’ na sociedade.
Assim, “Professoras” é uma obra de ficção realista, repleta de lições sociológicas, filosóficas e históricas, em que Anderson nos conduz desde os países de origem das encarceradas até o interior da Penitenciária Feminina da Capital, no Carandiru, para encontrarmos personagens precisosas, potentes e únicas.
