Poucos animais parecem tão estranhos quanto o rato-toupeira-pelado (Heterocephalus glaber). Com o corpo enrugado, praticamente sem pelos e grandes dentes incisivos, o roedor já foi comparado a um “cachorro-quente com dentes”.
Porém, por trás da aparência curiosa, existe uma das espécies mais estudadas pela ciência. Encontrado em regiões do Chifre da África, o animal consegue viver em condições que seriam extremamente difíceis para outros mamíferos.
Mais do que isso, sua biologia desafia algumas características comuns do envelhecimento. O rato-toupeira-pelado pode viver por mais de 30 anos, algo excepcional para um roedor de tamanho semelhante ao de um camundongo.
Uma sociedade que parece de insetos
A vida do rato-toupeira-pelado também foge do padrão dos mamíferos.
Os animais vivem em colônias que podem chegar a cerca de 300 indivíduos, conectados por uma extensa rede de túneis subterrâneos. Nesse ambiente, existe uma divisão de funções que lembra sociedades de formigas, abelhas e cupins.
No centro da organização está uma única fêmea reprodutora, conhecida como rainha. Os demais integrantes desempenham diferentes tarefas, como escavar túneis, procurar alimento, cuidar dos filhotes e proteger a colônia.
Essa organização recebe o nome de eusocialidade, um sistema extremamente raro entre mamíferos.
O roedor que quase não envelhece
É justamente sua longevidade que transformou a espécie em um importante modelo para pesquisas sobre envelhecimento.
Enquanto camundongos vivem poucos anos, o rato-toupeira-pelado pode chegar a mais de 37 anos. Estudos também apontam que o animal apresenta um envelhecimento muito mais lento do que o esperado para seu tamanho e não sofre o mesmo aumento de mortalidade associado à idade observado em muitos mamíferos.
Por isso, pesquisadores estudam seus mecanismos celulares em busca de pistas sobre como preservar tecidos e funções do organismo durante o envelhecimento.
Uma defesa natural contra o câncer
Outro fenômeno chama a atenção: o rato-toupeira-pelado apresenta resistência extraordinária ao câncer.
Pesquisas identificaram, entre outros mecanismos, a presença elevada de uma forma de ácido hialurônico de alta massa molecular. A substância ajuda a impedir a proliferação descontrolada de células, contribuindo para a proteção contra tumores.
Isso não significa que o animal seja absolutamente incapaz de desenvolver câncer, mas sua resistência é acima da média e tão incomum que a espécie se tornou um importante modelo para pesquisas na área.
Sobrevive onde quase não há oxigênio
Debaixo da terra, o ar dentro das tocas pode apresentar pouco oxigênio e muito gás carbônico. Para enfrentar esse ambiente, o animal desenvolveu adaptações metabólicas impressionantes.
Em situações extremas de falta de oxigênio, o rato-toupeira-pelado consegue mudar sua fonte de energia e utilizar frutose para manter a produção de energia.
Experimentos mostraram que o animal pode suportar horas em condições de hipóxia e sobreviver a períodos de anóxia, quando praticamente não há oxigênio disponível, sem apresentar o mesmo tipo de lesão que seria esperado em outros mamíferos.
Assim, o animal que parece ter saído de um desenho de ficção científica se tornou, na verdade, uma espécie valiosa para entender envelhecimento, câncer e sobrevivência em ambientes extremos.






