Por: Vanessa Dias com colaboração de Poliana Presses
A Universidade de Taubaté (UNITAU) tem papel importante no desenvolvimento do Vale do Paraíba, com atuação na formação profissional, na produção científica e em projetos que aproximam a comunidade acadêmica dos moradores.
Além do ensino e da pesquisa, a instituição promove iniciativas nas áreas de saúde, educação, cultura e cidadania, com serviços e atividades de extensão voltados às demandas regionais.
À frente da universidade há 100 dias, a professora doutora Leticia Maria tem entre os desafios da gestão ampliar a qualidade acadêmica, fortalecer a permanência dos estudantes e garantir o equilíbrio financeiro.
Ex-aluna, professora e gestora da instituição, a reitora falou à Gazeta sobre as prioridades para os próximos quatro anos, os impactos da inteligência artificial no ensino superior e os planos para preparar a universidade para as transformações do mercado de trabalho e da sociedade.
Confira entrevista na íntegra abaixo:
A senhora completa os primeiros 100 dias de gestão. Nesse período, o que encontrou que não esperava e qual foi a primeira mudança que precisou fazer?
Eu vivo a UNITAU há muitos anos, em diferentes posições. Já fui aluna, professora e estive em funções de gestão. Então, não cheguei à Reitoria esperando encontrar uma universidade que desconhecia. O que muda quando você assume essa posição é a dimensão das coisas. Passa a enxergar a instituição como um todo e percebe o quanto uma decisão tomada em uma área repercute em muitas outras.
Se eu tiver que destacar algo que ficou mais evidente nesses primeiros meses, é que já realizamos muita coisa, mas ainda precisamos fazer com que as informações, os processos e as pessoas conversem melhor. Por isso, uma das primeiras mudanças foi organizar a forma como acompanhamos a gestão. Criamos o Comitê de Governança, iniciamos um trabalho mais estruturado com dados e estabelecemos uma rotina de acompanhamento das prioridades.
Não basta termos boas ideias. Precisamos saber o que queremos alcançar, quem é responsável, quais são os prazos e o que os dados nos mostram ao longo do caminho.
A nova gestão colocou como prioridade a permanência dos estudantes e o combate à evasão. Já houve mudanças concretas nesses primeiros meses? Existe uma meta para reduzir os índices durante os quatro anos de mandato?
Historicamente, apresentamos índices de evasão na média nacional, de acordo com dados do Semesp. Mas isso não significa que podemos nos acomodar. Cada aluno que interrompe a graduação merece que a universidade procure entender o que aconteceu e o que poderia ter sido feito antes.
Garantir o acesso ao ensino superior é apenas o primeiro passo. Precisamos criar condições para que o estudante permaneça, tenha uma boa experiência acadêmica, vivencie o ensino, a pesquisa e a extensão e consiga concluir sua formação.
A evasão envolve diferentes fatores. Pode haver uma questão financeira, uma dificuldade de aprendizagem, a necessidade de conciliar trabalho e estudo ou até a percepção de que aquele curso não corresponde ao que o aluno esperava. Por isso, quando falamos em permanência, estamos falando de olhar para o estudante de forma integral.
Hoje, mais de 40% dos nossos alunos contam com algum tipo de bolsa de estudo. A Pró-Reitoria Estudantil também mantém ações voltadas à saúde, ao bem-estar e à diversidade, com diferentes formas de acolhimento e apoio ao longo da vida acadêmica.
Agora, queremos fortalecer essas políticas, acompanhar mais de perto a trajetória dos estudantes e utilizar melhor os dados disponíveis para identificar sinais e compreender as razões da evasão em cada curso.
Nossa meta é continuar reduzindo esses índices ao longo dos quatro anos. Mais do que estabelecer um número único para toda a instituição, queremos conhecer cada realidade e agir onde for necessário. O importante é que o aluno perceba que estamos ao lado dele não apenas quando entra, mas durante todo o caminho até a conclusão do curso.
A instituição é uma universidade pública municipal, e a sustentabilidade financeira aparece entre os desafios da gestão. Qual é a situação atual das contas e quais medidas são necessárias para garantir o equilíbrio financeiro sem reduzir os investimentos em ensino, pesquisa e extensão?
A universidade está financeiramente estável. Mas equilíbrio financeiro não significa que podemos nos acomodar. Pelo contrário. Temos que planejar, acompanhar contratos, monitorar com cuidado o uso dos recursos, reduzir despesas e ampliar receitas.
Nossa principal fonte de receita são as mensalidades. Não recebemos repasses dos governos municipal, estadual ou federal para a manutenção da instituição. Por isso, cada investimento precisa ser feito com muita responsabilidade.
Estamos redesenhando processos de compra, revendo contratos para reduzir desperdícios e utilizando mais dados para apoiar nossas decisões. Também precisamos ampliar nossa capacidade de gerar novas oportunidades. Estamos avançando nesse sentido com iniciativas como o Escritório Institucional de Apoio de Projetos e o Banco de Temas Regionais, que poderão contribuir para a captação de recursos e a prestação de serviços.
A ideia é que o equilíbrio financeiro nos permita investir. Precisamos continuar cuidando da manutenção dos prédios, melhorar laboratórios, equipamentos e tecnologia, fortalecer a pesquisa e a extensão e, ao mesmo tempo, valorizar professores e funcionários.
A inteligência artificial está mudando rapidamente a relação entre alunos, professores e universidades. O que já está sendo feito para acompanhar essa transformação? Há previsão de mudanças na forma de ensinar, avaliar ou preparar os estudantes para o mercado de trabalho?
Não adianta a universidade agir como se a inteligência artificial ainda fosse chegar. Ela já está na sala de aula, no trabalho, na pesquisa e na vida das pessoas.
Uma das primeiras medidas adotadas foi a criação de uma comissão institucional para avançarmos nessa discussão. Realizamos uma pesquisa com a comunidade acadêmica, ouvindo alunos, professores e funcionários, e também promovemos uma audiência pública. A partir dessa escuta, chegamos a um guia para orientar o uso da inteligência artificial tanto no ambiente acadêmico quanto nas atividades administrativas.
Essa discussão vai além de dizer o que pode ou não pode. A inteligência artificial nos obriga a repensar a forma como ensinamos e avaliamos. Se hoje uma ferramenta consegue produzir um texto em poucos segundos, precisamos olhar cada vez mais para o processo, a autoria, a capacidade de argumentar, relacionar conhecimentos e fazer escolhas.
O aluno precisa sair da universidade sabendo usar essas ferramentas, porque elas estarão no mercado de trabalho. Mas também precisa saber questionar o que elas produzem, conferir informações, reconhecer limites e assumir a responsabilidade pelo trabalho que apresenta.
Além disso, avançamos nas tratativas para a adoção de um novo sistema de Business Intelligence (BI), que deverá oferecer ferramentas para aprimorar a gestão com o apoio da inteligência artificial.
A senhora conhece a instituição também pelo lado de quem já esteve nos bancos da universidade e, depois, em sala de aula. Ao assumir a Reitoria, que universidade encontrou e qual gostaria de entregar ao final dos quatro anos de gestão?
Assumi a universidade em um momento de equilíbrio financeiro, com laços enraizados na nossa região. É uma instituição que se expandiu, chegou a Caraguatatuba e Cruzeiro e produz conhecimento que interfere de verdade na vida das pessoas.
Neste mês, por exemplo, o NUPES completou 30 anos. Há três décadas, professores e alunos acompanham os preços dos alimentos na região. Parece algo simples, mas não é. Quando você acompanha o preço daquilo que chega à mesa das famílias, produz informações que ajudam a compreender a vida econômica e social de onde vivemos. Para mim, isso diz muito sobre o papel de uma universidade como a nossa.
Ao mesmo tempo, temos desafios importantes. O maior deles é avançar na qualidade acadêmica. Precisamos olhar para nossos cursos, os indicadores, a formação dos professores e a experiência que o aluno tem aqui dentro.
Não quero chegar ao fim de quatro anos dizendo que inventamos outra universidade. Quero que tenhamos conseguido avançar a partir de tudo o que já construímos. Quero olhar para nossos cursos e enxergar mais qualidade. Quero que o aluno tenha condições de permanecer, participar da vida acadêmica e encontrar novas oportunidades, inclusive fora do país.
Também quero professores e funcionários valorizados, com espaço para continuar aprendendo, e uma gestão menos burocrática, que use melhor os dados e consiga responder mais rapidamente às necessidades das pessoas.
A universidade tem uma história muito grande. Nosso trabalho agora é cuidar dessa trajetória sem ficar presos a ela e preparar a instituição para aquilo que ainda vem pela frente.
