TDAH pode atrapalhar o sono? Veja 7 hábitos que ajudam a dormir melhor

Alterações no relógio biológico podem fazer pessoas com o transtorno sentirem sono mais tarde e terem dificuldade para acordar; veja dicas para melhorar a rotina do sono e explicação de psiquiatra sobre o tema

Dormir mal

Segundo os autores, problemas de sono e insônia podem atingir até 80% dos adultos e 82% das crianças com o transtorno nas populações estudadas/ Foto: Freepik

A dificuldade para dormir no horário desejado e o esforço para sair da cama pela manhã podem fazer parte da rotina de algumas pessoas com Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). Embora esses problemas sejam frequentemente associados à falta de disciplina ou a hábitos inadequados, pesquisas indicam que, em determinados casos, a dificuldade também pode estar relacionada ao funcionamento do relógio biológico.

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Um artigo de perspectiva publicado na revista científica Frontiers in Psychiatry, em 2025, reuniu evidências sobre a relação entre TDAH e alterações no ritmo circadiano. Segundo os autores, problemas de sono e insônia podem atingir até 80% dos adultos e 82% das crianças com o transtorno nas populações estudadas. Os percentuais representam estimativas de pesquisas analisadas e não significam que todas as pessoas com TDAH apresentarão essas dificuldades.

O estudo também aponta uma tendência ao cronotipo vespertino, caracterizado pela preferência por atividades e períodos de maior disposição durante a noite. Em parte dos pacientes, o organismo pode apresentar um atraso na liberação da melatonina, hormônio que participa da regulação do ciclo sono-vigília.

Para o psiquiatra Dr. Adiel Rios, fundador do Grupo Nutrindo Emoções, compreender essa relação é importante para evitar que as dificuldades sejam interpretadas apenas como falta de organização.

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“Quando falamos de TDAH, normalmente pensamos primeiro em desatenção, impulsividade e hiperatividade. Mas o sono também merece ser investigado. Existem pacientes que relatam dificuldade para sentir sono em horários considerados convencionais e, consequentemente, sofrem muito para acordar cedo”, explica.

Por que quem tem TDAH pode sentir sono mais tarde?

O ritmo circadiano funciona como um relógio interno que organiza diferentes atividades do organismo ao longo de aproximadamente 24 horas. Ele influencia a produção hormonal, a temperatura corporal, o metabolismo e a alternância entre sono e vigília.

No artigo publicado na Frontiers in Psychiatry, os pesquisadores identificaram evidências de atraso na fase circadiana em parte das pessoas com TDAH. Entre os resultados analisados, o início da liberação de melatonina apresentou um atraso médio de aproximadamente 45 minutos em crianças e 90 minutos em adultos, em comparação aos grupos de referência.

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Isso significa que, para algumas pessoas, os sinais biológicos que preparam o organismo para dormir podem aparecer mais tarde. Mesmo quando existe a intenção de deitar cedo, o sono pode demorar a chegar.

“Isso ajuda a compreender por que, para algumas pessoas, simplesmente mandar ‘dormir mais cedo’ não resolve toda a questão. Pode existir uma tendência do organismo sinalizar sono mais tarde. Mas é importante deixar claro que isso não acontece com todos os pacientes e, isoladamente, não serve para diagnosticar TDAH”, ressalta Adiel.

Como o TDAH pode interferir na qualidade do sono?

Além das alterações no relógio biológico, características associadas ao TDAH podem dificultar a preparação para dormir. A dificuldade de interromper uma atividade, a sensação de inquietação, a distração e a dificuldade de organizar tarefas podem fazer com que a pessoa adie repetidamente o horário de ir para a cama.

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Outro fator é a dificuldade de desacelerar os pensamentos. Algumas pessoas relatam que, ao deitar, começam a lembrar de compromissos, organizar tarefas do dia seguinte ou pensar em diferentes assuntos, prolongando o tempo necessário para adormecer.

A relação também funciona no sentido contrário: dormir pouco ou ter um sono fragmentado pode prejudicar a atenção, a memória, a regulação emocional e a disposição durante o dia. Isso pode intensificar dificuldades que já fazem parte do cotidiano de quem tem TDAH.

Por isso, investigar a qualidade do sono é uma etapa importante do acompanhamento clínico.

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7 hábitos que podem ajudar quem tem TDAH a dormir melhor

Embora não exista uma rotina única que funcione para todas as pessoas com TDAH, algumas estratégias comportamentais podem ajudar a organizar o ciclo de sono e vigília. A regularidade é especialmente importante para quem apresenta tendência a dormir e acordar mais tarde.

1. Estabeleça um horário fixo para acordar

Manter um horário relativamente constante para levantar, inclusive nos fins de semana, ajuda a organizar o relógio biológico. Em vez de tentar mudar radicalmente o horário de dormir de uma vez, pode ser mais fácil começar pela regularidade ao acordar.

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2. Procure receber luz natural pela manhã

A exposição à claridade natural nas primeiras horas do dia é um dos estímulos ambientais que ajudam a regular o ritmo circadiano. Abrir as cortinas, tomar café da manhã perto de uma janela ou fazer uma caminhada pela manhã são alternativas para incorporar esse hábito.

3. Reduza a exposição à luz e às telas à noite

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Celulares, computadores e televisores podem prolongar o estado de alerta, especialmente quando utilizados para atividades estimulantes. Reduzir a luminosidade do ambiente e estabelecer um período sem telas antes de dormir pode ajudar o organismo a reconhecer a aproximação da noite.

4. Crie uma rotina noturna com etapas simples

Para quem tem TDAH, depender apenas da memória ou da sensação de sono para iniciar a preparação noturna pode dificultar a regularidade. Uma sequência visual de pequenas tarefas pode ajudar: separar a roupa do dia seguinte, escovar os dentes, tomar banho e deixar o celular carregando fora da cama.

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5. Evite cafeína perto do horário de dormir

Café, energéticos, refrigerantes à base de cola e alguns tipos de chá contêm cafeína, substância que pode prolongar o estado de alerta. Como seus efeitos podem durar várias horas, reduzir o consumo a partir da tarde é uma medida que pode favorecer o sono.

6. Mantenha atividades físicas durante o dia

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A prática regular de exercícios pode contribuir para a saúde geral e para a qualidade do sono. Caminhadas, bicicleta, musculação e outras atividades podem fazer parte da rotina. O ideal é evitar exercícios muito intensos imediatamente antes de deitar caso eles aumentem a disposição e dificultem o relaxamento.

7. Organize as preocupações antes de ir para a cama

Anotar compromissos, pendências e pensamentos recorrentes em um papel ou aplicativo pode ajudar a reduzir a necessidade de tentar organizar tudo mentalmente na hora de dormir. Atividades tranquilas, como leitura, música relaxante ou exercícios de respiração, também podem fazer parte da preparação noturna.

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As estratégias seguem recomendações de saúde do sono e orientações de serviços especializados no acompanhamento de pessoas com TDAH. A adaptação deve considerar as necessidades individuais, a rotina e a presença de outros problemas que possam interferir no descanso.

Melatonina ajuda quem tem TDAH a dormir?

A melatonina é um hormônio produzido naturalmente pelo organismo e relacionado à sinalização do período noturno. Sua produção costuma aumentar quando a luminosidade diminui, contribuindo para a organização do ciclo sono-vigília.

O artigo publicado na Frontiers in Psychiatry também analisou pesquisas sobre a utilização de melatonina em pessoas com TDAH. Em um ensaio clínico com adultos, a suplementação conseguiu adiantar em aproximadamente 88 minutos o início de um marcador biológico relacionado ao começo da noite.

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Apesar dos resultados, isso não significa que a substância seja indicada para todas as pessoas com o transtorno ou que possa ser utilizada sem acompanhamento profissional. A resposta depende de fatores como o padrão de sono, o horário de administração, a dose e as condições clínicas de cada paciente.

“Melatonina não deve ser tratada como uma solução universal para quem tem TDAH ou dificuldade para dormir. Antes de qualquer conduta, precisamos entender a origem daquela alteração, os hábitos do paciente, os medicamentos utilizados e o quadro clínico como um todo”, alerta o psiquiatra.

Quando procurar ajuda médica?

A dificuldade para dormir merece avaliação quando se torna frequente, prejudica as atividades durante o dia ou interfere na qualidade de vida. Acordar constantemente cansado, apresentar sonolência excessiva, demorar muito para adormecer ou ter despertares recorrentes são situações que devem ser relatadas ao profissional responsável pelo acompanhamento.

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Também é importante investigar se a dificuldade está relacionada ao ritmo circadiano, à insônia, a outros distúrbios do sono, à ansiedade ou a possíveis efeitos de medicamentos utilizados no tratamento do TDAH.

Uma estratégia útil é manter um diário do sono, registrando os horários em que a pessoa vai para a cama, consegue adormecer, acorda durante a noite e levanta pela manhã. Essas informações ajudam o profissional a identificar padrões e avaliar possíveis intervenções.

Para Dr. Adiel, incluir o sono na conversa sobre TDAH é fundamental para ampliar o cuidado.

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“Cuidar do sono não substitui o tratamento do TDAH. O que precisamos entender é que ele pode fazer parte desse cuidado. Quando um paciente relata repetidamente que não consegue dormir no horário esperado e sofre todas as manhãs para acordar, isso merece ser ouvido e investigado”, conclui.