Telas estão afastando crianças da literatura: livros interativos apostam em texturas e cores para conquistar os pequenos

Editora aposta em livros interativos enquanto pais procuram alternativas para afastar os filhos do excesso de telas

Com peças, cores, texturas e histórias, literatura infantil encontra novas formas de despertar a curiosidade dos pequenos (Foto: Carmem Pareras / Helena Merencio)

Com peças, cores, texturas e histórias, literatura infantil encontra novas formas de despertar a curiosidade dos pequenos (Foto: Carmem Pareras / Helena Merencio)

A criança pega o livro, mexe nas peças, toca uma textura, olha as cores e quer descobrir o que vem na próxima página. Para alguns pais, esse pode ser o primeiro passo para fazer o filho trocar, ainda que por alguns minutos, a tela por uma história.

Continua após a publicidade

Foi justamente essa mudança de relação com os livros que chamou atenção durante a Bienal do Livro em São Paulo. A editora Catapulta, que completa 25 anos, aposta em obras infantis interativas para aproximar as crianças da literatura por meio de experiências que vão além de simplesmente virar páginas.

A proposta aparece em diferentes formatos. Há livros para os menores com peças de encaixe, números, cores e texturas. Outros trazem sons de animais ou elementos que podem ser manipulados pelas crianças.

A ideia é fazer com que o livro também seja um objeto para explorar.

Continua após a publicidade

Quando ler também vira brincadeira

Para crianças pequenas, o contato com a literatura pode acontecer antes mesmo de uma leitura convencional.

Em um dos livros apresentados, por exemplo, a criança precisa encontrar as peças certas e encaixá-las nos lugares correspondentes. No processo, começa a entrar em contato com números, formas e cores.

Outras obras trabalham com texturas. A criança pode tocar, sentir e observar enquanto acompanha as ilustrações.

Continua após a publicidade

Esse tipo de interação também leva em conta uma característica bem conhecida pelos pais: criança pequena não apenas lê o livro, ela mexe, aperta e até pode colocá-lo na boca.

Por isso, os livros apresentados pela editora são feitos para ter maior durabilidade e suportar esse contato mais intenso.

Há ainda livros que unem leitura e construção. Na coleção com peças de Lego, a criança precisa acompanhar as instruções para montar o que está sendo proposto.

Continua após a publicidade

Na prática, a brincadeira acaba criando um motivo para continuar lendo.

O desafio de competir com as telas

Durante a feira, Carmen, representante da Catapulta, conta que percebeu uma preocupação recorrente entre os pais: a vontade de afastar as crianças das telas.

Segundo ela, mesmo os livros que têm jogos e brincadeiras procuram fazer com que a criança leia algum trecho. A expectativa é que esse contato frequente ajude a criar o hábito da leitura e estimule a criatividade.

Continua após a publicidade

Um relato ouvido durante a própria feira mostrou como essa busca pode acontecer dentro de casa.

Uma mãe contou que estava tentando tirar o filho do iPad. Depois de apresentar a ele um livro de dedoche e fazer um teatrinho, percebeu que a criança se encantou pela atividade e começou a demonstrar interesse pelos livros, deixando o aparelho de lado.

Para Carmen, esse tipo de retorno é especialmente significativo.

Continua após a publicidade

A diferença, segundo ela, está na forma como a criança participa da experiência. Em vez de apenas receber imagens prontas, ela precisa virar páginas, tocar texturas e interagir com o conteúdo.

Histórias que vão além da brincadeira

A literatura infantil apresentada pela editora também aposta em histórias capazes de apresentar referências para os pequenos.

Um dos destaques é a coleção Gente Pequena, Grandes Sonhos, com biografias de personalidades como Rosa Parks, Frida Kahlo, Anne Frank, Ayrton Senna e Pelé.

Continua após a publicidade

A proposta é mostrar trajetórias de pessoas que realizaram seus sonhos e transformar essas histórias em exemplos para as crianças.

Entre os livros citados durante a entrevista também aparece uma obra desenvolvida para o espectro autista, além de títulos que introduzem temas como filosofia de maneira acessível ao público infantil.

Para os leitores mais velhos, a editora também apresenta 31 Dias para Te Amar, um romance juvenil construído a partir de 31 cartas.

Continua após a publicidade

Na história, uma garota encontra uma carta amassada, decide respondê-la e a deixa em um bar para que chegue ao dono. A partir daí, os dois começam uma correspondência sem sequer conhecer o nome um do outro.

No fim das contas, a proposta apresentada na Bienal parte de uma ideia simples: se a criança ainda não se apaixonou pelos livros, talvez seja preciso encontrar uma maneira diferente de apresentá-los.

E, para isso, uma página pode ser só o começo. Uma textura, uma peça, um som ou uma história podem ser o convite para continuar.