Há dois séculos, o Araçá-rosa, espécie conhecida cientificamente como Psidium cattleianum, deixou o Brasil rumo ao Havaí. A ideia era aproveitar a árvore como fonte de alimento para a população.
O resultado, porém, tomou outro caminho. Com o passar do tempo, a espécie se espalhou pelo arquipélago e passou a ocupar áreas de floresta, onde compete com a vegetação nativa.
Atualmente, os pesquisadores estimam que o guayabo de fresa esteja presente em cerca de 475 mil hectares no Havaí. Para enfrentar a expansão, uma equipe dos Estados Unidos testou uma estratégia que combina controle biológico e tecnologia aérea.
Inseto contra a invasora
O principal aliado nessa operação é o Tectococcus ovatus, um pequeno inseto originário do Brasil que se alimenta exclusivamente do guayabo de fresa.
As autoridades havaianas aprovaram o uso do inseto como agente de controle biológico em 2012. Ele forma pequenas estruturas chamadas agalhas nas folhas da árvore. Depois que uma planta é colonizada, essas estruturas podem se espalhar pela copa.
Em uma área de teste, uma colônia introduzida em 2017 apresentava agalhas em 23,1% das árvores fotografadas quatro anos depois. Em 2024, todas as árvores de guayabo de fresa observadas naquele local apresentavam sinais da presença do inseto.
Por que usar drones
O desafio está justamente onde a árvore cresce. Muitas áreas ocupadas pela espécie ficam em florestas densas, longe de estradas e caminhos. Levar os materiais a pé exige tempo e dificulta o alcance de regiões remotas.
Por isso, os pesquisadores desenvolveram um sistema para lançar do alto pequenas estruturas contendo o inseto.
Em um teste com 129 árvores na Reserva Florestal Ola’a, a aplicação manual conseguiu colocar as estruturas em 97,6% das tentativas. Com o drone, o índice foi de 86,6%.
A diferença, porém, apareceu no tempo necessário para realizar o trabalho. O equipamento aéreo reduziu em 77% o período de tratamento. Cada árvore levou cerca de 2,8 minutos para ser atendida pelo drone, contra 12 minutos no método manual.
Depois de um ano, 63% das árvores tratadas pelo drone haviam sido colonizadas com sucesso pelo inseto. Entre aquelas tratadas manualmente, o índice ficou em 38%.
Tecnologia em áreas remotas
O experimento também avançou para equipamentos maiores. Os pesquisadores testaram drones com sistemas de 16 e 54 unidades de lançamento, chamados de Kūhualūlū, e compararam os resultados com a distribuição feita a partir de um helicóptero Hughes 500.
A taxa de sucesso ficou próxima entre os métodos: 71,6% com o sistema de drones e 68% com o helicóptero. A diferença apareceu na precisão. A distância máxima em relação ao alvo foi de 2,83 metros com o drone, enquanto chegou a 8,24 metros no helicóptero.
Os cálculos ajudam a dimensionar o problema. Para cobrir as 475 mil hectares ocupadas pelo guayabo de fresa usando uma distância de um quilômetro entre os pontos de aplicação, seriam necessários cerca de 4.750 lançamentos e aproximadamente 92,5 horas de voo de helicóptero.
A experiência mostra por que os drones ganharam espaço nessa estratégia. Em regiões onde o acesso terrestre é lento ou impossível, levar o controle biológico pelo ar pode ser uma alternativa para alcançar áreas que permaneceriam praticamente fora do alcance das equipes.






