Vila de pescadores no Nordeste foi engolida por dunas nos anos 1970, mudou de lugar e hoje atrai turistas com lagoas que aparecem e somem

Após o avanço das dunas nos anos 1970, moradores reorganizaram a comunidade em novos núcleos cercados por pesca, manguezais e lagoas

Dunas e água dividem a paisagem de Tatajuba, comunidade que precisou mudar de lugar após o avanço da areia (Foto: Otávio Nogueira/Wikimedia Commons)

Dunas e água dividem a paisagem de Tatajuba, comunidade que precisou mudar de lugar após o avanço da areia (Foto: Otávio Nogueira/Wikimedia Commons)

Entre dunas que avançam com o vento, lagoas que aparecem conforme a época do ano e uma faixa de mangue ligada ao mar, a vila de Tatajuba aprendeu há décadas que sua paisagem nunca fica exatamente no mesmo lugar.

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A pequena comunidade do litoral oeste do Ceará carrega uma história incomum: parte do antigo povoado desapareceu sob a areia e os moradores tiveram que reconstruir a vida em outra área.

A mudança aconteceu na década de 1970, quando dunas móveis avançaram sobre a antiga Tatajuba. Casas e caminhos foram atingidos e a própria organização da comunidade precisou mudar.

O episódio ainda ajuda a explicar a disposição atual do povoado, hoje dividido entre diferentes núcleos próximos à costa de Camocim.

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Muito antes disso, porém, a região já tinha uma ligação direta com a pesca. Relatos reunidos sobre a história local apontam 1902 como um marco da ocupação, quando o lugar ainda era conhecido como Cabaceiras. O nome Tatajuba só apareceria algumas décadas depois.

Conheça também outra vila do Ceará que esconde a rede elétrica sob a areia e proíbe carros em nome do paraíso.

Veja fotos da vila:

Uma vila engolida pela areia

O avanço das dunas não aconteceu de uma hora para outra. A movimentação constante da areia faz parte da própria dinâmica daquele trecho do litoral cearense, onde vento, vegetação, chuva e mar moldam o terreno ao longo do tempo.

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Na década de 1970, essa transformação chegou ao antigo povoado. As dunas barcanas avançaram até cobrir parte da vila e também alteraram o curso de uma gamboa, obrigando moradores a procurar novas áreas para viver.

Dessa reorganização surgiram os núcleos conhecidos como Nova Tatajuba, Vila São Francisco, Vila Nova e Baixa da Tatajuba. A comunidade continuou existindo, mas já não ocupava exatamente o mesmo espaço de antes.

A história ficou marcada menos por uma construção específica e mais pela capacidade dos moradores de acompanhar uma paisagem que nunca foi completamente estática.

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Pesca veio antes do turismo na vila

A formação de Tatajuba está diretamente ligada ao mar. A comunidade cresceu com famílias de pescadores e encontrou na abundância de pescado uma das principais razões para permanecer naquele trecho do litoral.

A pesca da lagosta teve importância especialmente nos primeiros anos de desenvolvimento do povoado. Peixes, camarões e caranguejos também aparecem ligados à alimentação e à economia das comunidades da região.

Essa relação ajuda a entender Tatajuba para além das imagens de dunas e lagoas que hoje atraem visitantes. Antes de virar ponto de passagem de roteiros pelo litoral oeste, o lugar já tinha uma rotina construída em torno da pesca, das condições do mar e dos caminhos disponíveis entre areia e água.

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Nome surgiu de uma árvore

A ocupação relatada pela história oral remonta a 1902, quando havia dois núcleos chamados Cabaceiras de Cima e Cabaceiras de Baixo.

Foi apenas em 1930 que o povoado passou a usar o nome Tatajuba. A escolha estaria relacionada à presença da árvore de mesmo nome na região.

A mudança parece pequena perto do que viria algumas décadas depois, mas ajuda a montar a sequência de transformações vividas pela comunidade ao longo de mais de um século.

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Lagoas podem aparecer e sumir

Nem mesmo a paisagem que o visitante encontra em uma viagem necessariamente estará igual na próxima.

Tatajuba reúne dunas móveis, dunas fixas, lagoas e manguezais. Em determinados períodos, a água acumulada entre as dunas forma lagoas interdunares que passam a fazer parte do cenário. Em outros momentos, a própria movimentação da areia altera acessos e modifica essas áreas.

É essa combinação que faz com que alguns caminhos usados pela comunidade e pelos visitantes dependam das condições naturais.

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A Duna do Funil, também conhecida como Morro Branco, está entre os pontos associados à Praia da Tatajuba. O entorno ainda mantém coqueiros, áreas de mangue e extensões de areia que ajudam a formar a paisagem característica da região.

Chegada também depende da natureza

Quem parte de Camocim encontra mais de uma possibilidade para chegar a Tatajuba.

Um dos trajetos costeiros percorre cerca de 40 quilômetros e inclui a travessia da foz do rio Coreaú. Nesse caminho, a maré interfere diretamente na passagem, que deve ser feita nas condições adequadas e com veículo compatível com o terreno.

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Também existe a possibilidade de acesso pela CE-085, evitando parte do deslocamento pela faixa de praia.

Mesmo assim, Tatajuba não é daqueles destinos em que basta olhar a distância no mapa e sair dirigindo. Areia, água e maré fazem parte do percurso, principalmente para quem escolhe a rota costeira.

Comunidade continua ligada ao lugar

A região voltou a aparecer em discussões ambientais mais recentes por causa da presença de dunas, lagoas e outros ambientes naturais. Propostas de preservação e uso sustentável reforçam a importância de uma área que continua sendo ocupada por comunidades tradicionais e, ao mesmo tempo, recebe visitantes.

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Artesanato, casas de farinha e a culinária baseada em frutos do mar permanecem entre os elementos associados à cultura local.

Tatajuba chama atenção justamente porque sua história não ficou parada junto com a antiga vila soterrada. A areia avançou, os moradores mudaram de lugar e a comunidade encontrou outra forma de permanecer naquele trecho do Ceará.

Hoje, quem atravessa suas dunas encontra muito mais do que uma praia bonita. Encontra um povoado que precisou literalmente sair do caminho da areia para continuar existindo.