Chernobyl e Fukushima foram dois dos maiores acidentes nucleares da história humana. Regiões inteiras foram desabitadas após a explosão de seus reatores, mas essas áreas, sem presença humana, se tornaram abrigos para a vida silvestre.
Em 2025, um estudo massivo intitulado “O impacto humano global na biodiversidade” revisou quase três mil artigos para quantificar a interferência humana no meio natural, e as zonas de exclusão citadas acima aparecem como exemplos importantes desse resultado.
Vida selvagem em Fukushima
Ocorrida em 2011, a zona de evacuação de Fukushima é um dos casos mais recentes a serem explorados. A cidade japonesa passa por um repovoamento gradual, porém ainda há zonas vazias, ao menos de humanos.
Um experimento publicado em 2020 instalou cerca de 106 câmeras nas zonas desabitadas da cidade. Com mais de 250 mil fotos, os pesquisadores registraram mais de vinte espécies diferentes que retornaram ao habitat, como javalis, macacos, cervos e capricornis.
Por ser recente, essa zona de evacuação ainda carece de uma base bibliográfica mais robusta para avaliar a qualidade de vida desses animais. Um dos poucos experimentos nesse campo analisou 221 amostras de músculo de javalis-japoneses, tanto de dentro quanto de fora da zona.
Os resultados mostram que javalis que habitam a zona de evacuação possuem maior concentração de césio-137 na carne (Foto: Urasimaru / Wikimedia Commons)E Chernobyl?
Enquanto Fukushima ainda carece de estudos, Pripyat é observada desde a tragédia de 1986. A zona de exclusão aos poucos se tornou um santuário natural, formando a Reserva Radioecológica da Biosfera de Chornobyl (RRBC).
Criada em 2016, ela cobre cerca de 2.273 km² dos 2.600 km² da antiga zona de exclusão ucraniana (Foto: Jorge Franganillo / Wikimedia Commons)A área passou por uma renaturalização intensa, com árvores, videiras e grama invadindo a antiga área urbana. Um censo de 2015 observou mais de 60 espécies de mamíferos, com destaque especial para a população de grandes mamíferos.
Animais em risco de extinção, como os cavalo-de-przewalski, encontraram em Chernobyl um novo lar (Foto: Dana Sacchetti / IAEA / Wikimedia Commons)A radiação não parece ser um impeditivo para o florescimento da vida selvagem. Dados do mesmo censo apontam que as populações de grandes mamíferos — como alces, corças, javalis e cavalos — já apresentam números semelhantes aos de outras reservas, enquanto a população de lobos é quase sete vezes maior que o normal.
“A vida encontra um jeito”
frase do Dr. Ian Malcolm no filme Jurassic Park
Adaptação radioativa
Enquanto algumas espécies apenas coexistem com a radiação e sofrem as consequências disso, como é o caso de populações nativas de arganazes, submetidas a pesquisa, que apresentaram maiores taxas de catarata, há outras que parecem ter se adaptado ao ambiente.
Espécimes de perereca-arborícola-oriental (Hyla orientalis) apresentam coloração dorsal mais escura. Os pesquisadores sugerem que a elevada exposição no momento do acidente pode ter favorecido indivíduos mais escuros, possivelmente porque a melanina ajuda a neutralizar radicais livres e reduzir danos celulares.
Espécimes comuns de Hyla orientalis (Foto: Omid Mozaffari / Wikimedia Commons)Ao mesmo tempo, algumas espécies específicas de fungos, como Cladosporium sphaerospermum, desenvolveram a capacidade de utilizar a radiação ionizante do ambiente como “combustível”. Esse processo, conhecido como radiossíntese, possui analogias com a fotossíntese.






