A China ampliou sua presença na economia brasileira nas últimas décadas, com investimentos em setores como energia elétrica, mineração, petróleo, infraestrutura e indústria automotiva. O avanço, porém, passou a ser apresentado nas redes sociais como uma suposta compra de R$ 500 bilhões em ativos brasileiros, incluindo terras raras e mais de 150 empresas em todo o país.
A afirmação foi publicada pelo portal Investi Brasil e cita um levantamento do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), segundo o qual os investimentos chineses acumulados no Brasil entre 2007 e 2025 chegaram a US$ 85,5 bilhões, distribuídos por 355 projetos.
Os números ajudam a dimensionar a presença econômica chinesa, mas precisam ser interpretados corretamente: o valor acumulado de investimentos não corresponde necessariamente ao patrimônio atual de empresas chinesas no Brasil, muito menos significa que todas as terras raras brasileiras tenham sido adquiridas por grupos estrangeiros.
De acordo com Rafael Richter, mestre em Economia pela Universidade de Brasília (UnB), com MBA em Ciência de Dados e associado Livres, o levantamento considera diferentes modalidades de investimento, como construção de empreendimentos, expansão de operações existentes, parcerias empresariais e fusões e aquisições.
“É importante ressaltar que esse montante não representa necessariamente o valor atual dos ativos controlados por empresas chinesas no Brasil, mas o valor acumulado das operações e dos projetos identificados durante o período”, explica.
O especialista destaca que a composição desses investimentos também ajuda a compreender o fenômeno. Segundo os dados do CEBC apresentados por ele, 63,2% do valor investido correspondeu a fusões e aquisições, 31,3% a projetos construídos do zero e 5,5% a joint ventures, modelo em que duas ou mais empresas estabelecem uma parceria para desenvolver determinada atividade.
Isso significa que parte dos recursos foi destinada à compra de negócios que já existiam, enquanto outra parcela financiou novas instalações e empreendimentos. A diferença é importante para entender se o capital estrangeiro está mudando a propriedade de empresas brasileiras, ampliando estruturas produtivas ou estabelecendo parcerias comerciais.
O que a China está comprando do Brasil?
A relação entre os dois países não se resume aos investimentos empresariais. Brasil e China mantêm uma relação comercial de grande escala, na qual cada país ocupa posições diferentes nas cadeias produtivas internacionais.
O Brasil fornece principalmente produtos agrícolas e matérias-primas, como soja, minério de ferro, petróleo, carne e celulose. A China, por sua vez, vende ao mercado brasileiro uma variedade de produtos industrializados, entre eles máquinas, equipamentos, componentes eletrônicos e tecnologias utilizadas por empresas de diferentes setores.
Heloísa Galvão, head de importação da China Link, empresa que atua no comércio exterior, explica que as economias apresentam características complementares.
“O Brasil é um grande exportador para a China, ele é um grande fornecedor para os chineses de alimentos, recursos naturais, energia, enquanto a China é o nosso maior parceiro comercial de importação, já que é uma grande potência industrial”, afirma.
Na prática, quando uma empresa chinesa compra minério de ferro produzido no Brasil, ocorre uma operação comercial. Isso não significa que ela tenha adquirido a mina responsável pela extração. Da mesma forma, quando uma indústria brasileira importa máquinas fabricadas na China, não está transferindo a propriedade de seus negócios para o país asiático.
A aquisição de empresas ou de participações societárias é uma operação diferente. Nesse caso, uma companhia estrangeira pode comprar parte de uma empresa brasileira, assumir seu controle ou participar de um empreendimento conjunto.
Galvão ressalta que é necessário identificar o tipo de operação antes de afirmar que houve uma aquisição. “O comércio das mercadorias, principalmente nesse processo de exportação, não significa necessariamente que a China comprou um ativo ou alguma terra aqui no Brasil”, diz.
A presença chinesa também pode ocorrer por meio de investimentos em fábricas, redes de energia, infraestrutura logística e unidades industriais. A instalação de uma fábrica de veículos, por exemplo, representa uma modalidade de investimento produtivo diferente da compra de ações de uma companhia que já opera no país.
Segundo Galvão, os investimentos chineses no Brasil alcançaram US$ 6,1 bilhões em 2025, um crescimento de mais de 45% em relação ao ano anterior, de acordo com os números do CEBC citados pela especialista. Energia, mineração e indústria automotiva estão entre os setores que receberam recursos.
Por que a China investe tanto no Brasil?

A presença chinesa atende a diferentes interesses econômicos. Além de assegurar o fornecimento de matérias-primas, o país busca ampliar sua participação em setores produtivos, acessar mercados consumidores e fortalecer cadeias de fornecimento importantes para sua indústria.
Rafael Moredo, internacionalista pela Fundação Getulio Vargas (FGV) e coordenador de Políticas Públicas do Livres, avalia que a estratégia chinesa vai além da compra de commodities.
Segundo ele, o movimento envolve quatro frentes: o acesso a recursos naturais necessários à transição energética, a participação nas etapas de processamento industrial, os investimentos em infraestrutura energética e a expansão para mercados consumidores.
“A estratégia chinesa tem pelo menos quatro camadas”, explica Moredo. “A primeira é o acesso a matérias-primas para a transição energética: lítio, níquel, cobre, grafite, terras raras e nióbio. A segunda é o posicionamento na cadeia produtiva, a China não quer apenas comprar minério bruto, quer controlar etapas de processamento para manter domínio sobre cadeias de valor globais.”
O processamento é uma etapa central dessa disputa. Em vez de apenas extrair um mineral e vendê-lo a outros países, uma economia pode desenvolver tecnologias para separar seus componentes, transformá-los em materiais industriais e fabricar produtos de maior valor agregado.
Esse processo permite que uma parcela maior da renda e do conhecimento permaneça no país produtor. Também pode gerar empregos especializados e criar oportunidades para fornecedores nacionais.
Moredo afirma que os investimentos em energia e indústria também têm efeitos de longo prazo. “A China não está apenas comprando recursos. Está construindo presença sistêmica em setores que determinam a competitividade da economia brasileira por décadas”, avalia.
A afirmação se refere à possibilidade de que investimentos em infraestrutura, energia e indústria influenciem os custos de produção, a logística e a capacidade produtiva brasileira durante muitos anos.
A China comprou as terras raras brasileiras?
Não é correto afirmar, de maneira generalizada, que a China comprou as terras raras do Brasil. O país asiático mantém relações comerciais com o setor mineral brasileiro e empresas chinesas podem participar de projetos de mineração, mas cada operação precisa ser analisada individualmente para identificar quais ativos estão envolvidos e quais direitos foram efetivamente negociados.
As terras raras são um conjunto de 17 elementos químicos utilizados em aplicações industriais e tecnológicas. Entre elas estão os ímãs permanentes empregados em motores de veículos elétricos e turbinas eólicas, além de componentes de equipamentos eletrônicos e sistemas de defesa.
Esses minerais despertam interesse internacional porque são importantes para setores como energia limpa, eletrônica e indústria de alta tecnologia. O Brasil possui reservas relevantes, mas a existência de recursos no subsolo não significa que o país já tenha capacidade industrial suficiente para extrair, processar e transformar todo esse material.
Dados da Agência Nacional de Mineração (ANM) divulgados em outubro de 2026 mostram que o Brasil produziu 326 toneladas de concentrado de óxidos de terras raras em 2025. No mesmo ano, exportou US$ 14,9 milhões desse concentrado e importou US$ 30,6 milhões em produtos da indústria de transformação mineral, incluindo óxidos de terras raras e ímãs.
A diferença entre possuir reservas e dominar a cadeia industrial é um dos principais pontos desse debate. Um país pode ter grandes depósitos minerais, mas depender de empresas estrangeiras para realizar etapas mais complexas do processamento.
Para Moredo, esse é um dos riscos envolvidos na disputa internacional pelos minerais estratégicos. “O risco para o Brasil é exportar o mineral bruto enquanto a China controla o processamento e captura o valor adicionado”, afirma.
Isso não significa que toda parceria com uma empresa chinesa resulte necessariamente nesse cenário. O resultado depende das condições do investimento, dos contratos, das tecnologias utilizadas e das etapas produtivas que serão realizadas em território brasileiro.
O que são as terras raras e por que elas interessam às potências?

A importância desses minerais está relacionada à transformação tecnológica e energética. Eles são utilizados em equipamentos que vão de motores elétricos a dispositivos eletrônicos, o que os torna relevantes para países que desejam desenvolver suas indústrias e reduzir vulnerabilidades nas cadeias de fornecimento.
A China ocupa uma posição importante nesse mercado, especialmente no processamento de terras raras. Essa concentração significa que outros países podem depender de instalações chinesas para transformar minerais extraídos em diferentes partes do mundo em materiais utilizáveis pela indústria.
É nesse contexto que o Brasil ganha relevância. O país pode atrair investimentos para pesquisa mineral, extração e processamento, mas também precisa decidir como pretende participar da cadeia produtiva.
O economista Gustavo Pessoa, professor de Economia e Finanças da FGV, afirma que o capital estrangeiro pode ajudar a viabilizar projetos que exigem grandes volumes de recursos, conhecimento técnico e tempo até gerar retorno financeiro.
“Uma parceria pode dividir esses riscos e aproximar o empreendimento dos compradores internacionais”, explica.
Segundo Pessoa, a oportunidade não está apenas na extração. “Além da extração, há o processamento, a separação dos elementos e a fabricação de materiais e componentes, como os ímãs. Essas atividades exigem conhecimento especializado e podem criar empregos qualificados.”
Para que isso aconteça, entretanto, é necessário desenvolver infraestrutura, formar profissionais, investir em pesquisa e criar condições para que as etapas industriais sejam economicamente viáveis no país.
Como os investimentos chineses podem beneficiar o Brasil?
Os investimentos estrangeiros podem ampliar a capacidade produtiva brasileira, financiar infraestrutura e criar oportunidades para empresas fornecedoras. Os efeitos, porém, dependem do tipo de projeto e da sua integração com a economia local.
Na indústria automotiva, por exemplo, a instalação de uma fábrica pode gerar empregos diretos, movimentar fornecedores de peças e serviços e estimular a formação de profissionais. Em projetos de energia, os recursos podem ampliar a infraestrutura disponível e contribuir para o fornecimento de eletricidade a empresas e consumidores.
Pessoa explica que os resultados são mais duradouros quando o empreendimento estabelece vínculos com a economia brasileira.
“Os resultados tendem a ser mais duradouros quando o investimento se integra à economia local”, afirma. Isso acontece, segundo ele, quando as empresas contratam fornecedores brasileiros, formam trabalhadores e ampliam as atividades de engenharia realizadas no país.
Heloísa Galvão também aponta ganhos de competitividade para empresas brasileiras que importam equipamentos e tecnologias chinesas. “A empresa brasileira poder importar máquinas e equipamentos, componentes, matérias-primas com condições comerciais que viabilizam e aumentam muito mais a produtividade e modernização”, é um dos benefícios dessa relação, afirma.
A importação de máquinas pode permitir que uma empresa produza mais, melhore a qualidade de seus produtos ou passe a realizar atividades que antes eram inviáveis. A chegada de investimentos estrangeiros também pode ampliar o acesso a tecnologias que ainda não estão disponíveis em escala no Brasil.
Entretanto, o valor anunciado de um investimento não é suficiente para medir seus resultados. É necessário observar quantos empregos foram criados, qual parcela da produção utiliza fornecedores locais, quanto conhecimento foi desenvolvido no país e se houve ampliação da capacidade produtiva.
Rafael Richter ressalta que o objetivo deve ser atrair projetos que deixem benefícios duradouros. “Não dá pra medir o sucesso dos investimentos pelo tanto de dólares que entraram no país. O ideal é atrair investimentos que tragam para o país produção, fornecedores, engenharia, centros de pesquisa e exportações”, afirma.
Quais são os riscos dos investimentos estrangeiros?
A entrada de capital estrangeiro também pode trazer desafios. Entre eles estão a concentração de investimentos em poucos setores, a dependência de fornecedores ou compradores específicos e a possibilidade de que o país continue exportando matérias-primas sem desenvolver etapas industriais mais sofisticadas.
No comércio exterior, por exemplo, uma empresa brasileira que depende de um único fornecedor estrangeiro para obter um componente essencial pode enfrentar dificuldades se houver interrupções na produção, problemas logísticos ou mudanças nas condições comerciais.
Galvão recomenda diversificar fornecedores e verificar a qualidade dos produtos e a capacidade de entrega das empresas contratadas. “Se uma empresa brasileira depende de um único fornecedor chinês para um componente essencial, qualquer problema de produção, logística, pagamento, restrição comercial que possa acontecer, pode comprometer a operação”, explica.
O risco também existe na concentração das exportações. Quando uma parcela expressiva das vendas brasileiras depende de um único mercado, mudanças na economia desse parceiro podem afetar a demanda por produtos nacionais e seus preços.
Richter afirma que a concentração comercial precisa ser analisada considerando a existência de compradores alternativos. “Se o Brasil vende um produto para o qual existem vários compradores alternativos, a concentração das exportações é menos preocupante. Se a China se mostra como única compradora, surge uma fragilidade maior para os produtores nacionais”, diz.
O economista ressalta, porém, que dependência econômica e perda de soberania não são sinônimos. O país pode receber investimentos estrangeiros e manter sua autonomia, desde que preserve sua capacidade de regular setores estratégicos, fiscalizar empresas e garantir alternativas de fornecimento.
Moredo acrescenta que a transparência sobre a propriedade dos ativos também é importante. Ele aponta como sinais de alerta a concentração excessiva de setores essenciais, a dificuldade de identificar os controladores finais das empresas e a falta de desenvolvimento de fornecedores locais ou de transferência de tecnologia.
Nesse cenário, a questão não é simplesmente impedir a entrada de empresas estrangeiras, mas estabelecer condições que permitam ao Brasil aproveitar os recursos recebidos sem comprometer sua capacidade produtiva e regulatória.
Brasil está no centro da disputa entre China e Estados Unidos?
O interesse pelos minerais estratégicos também precisa ser compreendido no contexto da competição entre grandes potências. China e Estados Unidos buscam garantir o acesso a matérias-primas e reduzir vulnerabilidades em cadeias industriais consideradas importantes para a economia, a transição energética e a segurança nacional.
Para os Estados Unidos, ampliar as alternativas de fornecimento é uma forma de reduzir a dependência do processamento concentrado na China. Para os chineses, assegurar acesso a recursos e fortalecer sua posição nas etapas industriais pode ajudar a manter sua competitividade.
Nesse contexto, o Brasil tem uma posição relevante por reunir recursos naturais, mercado consumidor e potencial de expansão industrial.
Moredo avalia que a disputa cria oportunidades para o país, mas também exige capacidade de negociação. “Isso cria uma janela de oportunidade real para o Brasil, mas também o risco de ser pressionado a escolher lados antes de estar em posição de negociar com vantagem”, afirma.
Na avaliação do internacionalista, o país pode ampliar sua margem de negociação ao manter relações com diferentes parceiros e evitar conceder exclusividade sobre ativos estratégicos sem avaliar as consequências. “Qualquer acordo de minerais críticos deveria exigir processamento e refino no Brasil como contrapartida, não apenas extração”, defende.
A proposta busca garantir que os recursos naturais brasileiros sejam utilizados para desenvolver também a indústria nacional, em vez de abastecer exclusivamente cadeias produtivas localizadas no exterior.
O que o Brasil pode fazer para aproveitar melhor as terras raras?
O desafio brasileiro é transformar o potencial mineral em produção industrial, conhecimento e renda. Para isso, o país precisa ampliar investimentos em pesquisa, infraestrutura, formação profissional e tecnologias de processamento.
Pessoa afirma que projetos de mineração devem ser avaliados considerando os efeitos que podem gerar além da extração. Isso inclui a formação de equipes especializadas, a parceria com universidades e centros de pesquisa, o desenvolvimento de fornecedores e a adoção de medidas para reduzir os impactos ambientais.
“Com uma boa estruturação, o investimento pode trazer recursos e deixar capacidade produtiva e conhecimento no Brasil”, afirma.
Richter também considera que a entrada de capital estrangeiro pode contribuir para desenvolver o setor, desde que acompanhada de políticas industriais. “O maior risco não é simplesmente uma empresa estrangeira extrair o mineral, mas sim de o Brasil permanecer apenas na etapa de menor valor da cadeia”, diz.
O economista defende que o país estimule o processamento mineral, a pesquisa e a fabricação de componentes sempre que essas atividades forem economicamente viáveis. A intenção é permitir que empresas brasileiras participem de etapas mais complexas e tenham acesso a conhecimento tecnológico.
Uma mudança importante nesse sentido ocorreu em setembro de 2026, quando foi sancionada a Lei nº 15.506, que instituiu a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. A norma criou mecanismos para estimular pesquisa, extração, beneficiamento e transformação mineral, além de estabelecer o Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos.
A implementação das medidas e a capacidade de atrair projetos com contrapartidas produtivas serão importantes para determinar os resultados da política.
Afinal, os investimentos chineses ameaçam a soberania brasileira?

A resposta depende das condições em que os investimentos são realizados e da capacidade do Brasil de estabelecer regras e acompanhar os resultados. A presença de empresas estrangeiras, por si só, não significa que o país tenha perdido o controle sobre seus recursos ou sua economia.
O debate sobre soberania envolve a capacidade de o Estado definir regras, fiscalizar atividades, garantir a segurança de setores essenciais e negociar em condições que atendam ao interesse nacional.
Richter afirma que o Brasil não precisa manter todos os ativos sob propriedade nacional para preservar sua autonomia econômica. “O mais importante é que o Estado brasileiro mantenha capacidade regulatória, concorrência, segurança de abastecimento e alternativas estratégicas”, explica.
O economista também defende a diversificação de parceiros comerciais e investidores, de forma que o país não dependa exclusivamente de uma única potência para financiar projetos, vender seus produtos ou obter tecnologias.
O mesmo raciocínio vale para as terras raras. A entrada de empresas estrangeiras pode ajudar a financiar a exploração de recursos que exigem investimentos elevados, mas os resultados para o Brasil dependerão das condições negociadas e da capacidade de desenvolver etapas produtivas no próprio território.
O ponto central, portanto, não é apenas saber quanto a China investe no Brasil, mas identificar quais ativos são envolvidos, quais atividades são realizadas, quem se beneficia dos resultados e quanto desse processo contribui para o desenvolvimento brasileiro.








