Mulheres são maioria no setor público, mas ganham até 25% menos que homens

Apesar da estabilidade, gratificações e cargos de confiança criam um "abismo invisível" na remuneração de servidoras federais, estaduais e municipais

Elas são maioria no setor público, mas não no contracheque. O "abismo invisível" das gratificações ainda amplia a desigualdade salarial entre mulheres e homens

Elas são maioria no setor público, mas não no contracheque. O "abismo invisível" das gratificações ainda amplia a desigualdade salarial entre mulheres e homens | Pexels, Yankrukov

As mulheres já são maioria no serviço público civil brasileiro, representam cerca de 58% do total, mas ainda chegam ao fim do mês com salários menores que os dos homens. Em alguns recortes, a diferença pode alcançar 25%, mesmo em um sistema que prevê igualdade formal de remuneração.

O desnível não está no salário base. Ele aparece principalmente nas gratificações, nos cargos de confiança e nas progressões de carreira, mecanismos que ampliam a renda de forma desigual ao longo do tempo.

Levantamento do Instituto República (2023) aponta que a distorção persiste mesmo com regras padronizadas, o que coloca em discussão a forma como os recursos públicos são distribuídos dentro do próprio Estado.

Como gratificações e bônus excluem as mulheres

A maior parte da desigualdade está na parcela variável da remuneração. Funções de confiança e adicionais por desempenho representam uma fatia relevante dos ganhos e seguem mais acessíveis aos homens.

Esses cargos, que oferecem remunerações mais altas, também aceleram o crescimento da renda ao longo da carreira. O efeito vai além do salário imediato e impacta toda a trajetória profissional.

As gratificações seguem lógica semelhante. Apesar de critérios formais, a distribuição passa por avaliações e decisões internas, o que abre espaço para diferenças persistentes.

Por que as servidoras demoram mais para subir na carreira

A progressão na carreira ajuda a explicar parte do cenário. Mulheres tendem a avançar em ritmo mais lento, influenciadas por interrupções profissionais e menor acesso a posições estratégicas.

No topo da estrutura, a desigualdade fica mais evidente. No Executivo federal, apenas 323 dos 1.296 cargos mais altos de Direção e Assessoramento Superior (DAS) são ocupados por mulheres, que equivale a cerca de duas em cada dez posições.

Entre os salários mais elevados, o padrão se repete. Mulheres representam 21% dos servidores que recebem acima de 20 salários mínimos, abaixo dos 31% registrados em 2016.

Maioria na base, minoria no poder: a ocupação feminina nos cargos públicos

Nas faixas de menor renda, o cenário se inverte. Mulheres são maioria entre os servidores que recebem entre um e dois salários mínimos, concentrando-se nos níveis mais baixos da estrutura.

Dados do Instituto República, com base na PNAD Contínua do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que elas representam 64% nesse grupo, enquanto os homens são 36%.

A distribuição reflete um padrão estrutural. Carreiras com menor remuneração e menor acesso a cargos de comando concentram maior presença feminina.

Como a disparidade salarial prejudica o gasto público

O impacto vai além da questão de gênero. A forma como bônus e cargos são distribuídos levanta dúvidas sobre a eficiência do gasto público.

Quando a remuneração variável se concentra em grupos específicos, o retorno do investimento em pessoal perde eficiência e amplia distorções internas.

Dados do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) indicam que as diferenças de rendimento persistem em diversos recortes. O problema não está nas regras formais, mas na forma como incentivos e progressões são aplicados ao longo da carreira.