Christopher Lee atravessou quase sete décadas de cinema sem jamais se limitar a um único personagem. Antes de se tornar um dos rostos mais reconhecidos do terror e da fantasia, serviu na Segunda Guerra Mundial, trabalhou com inteligência militar e participou da localização de suspeitos de crimes de guerra nazistas.
Com o tempo, transformou a voz grave, a altura imponente e a presença austera em marcas registradas. Foi Drácula, Saruman, Conde Dooku, Scaramanga e dezenas de outras figuras que atravessaram gerações. Já consagrado, ainda encontrou espaço para uma improvável incursão pelo heavy metal.
Ao fim da carreira, somava mais de 250 créditos no cinema e na televisão, segundo o British Film Institute. Poucos atores conseguiram permanecer tão reconhecíveis por tanto tempo sem se tornar reféns de uma única fase.
A guerra, antes dos monstros
Nascido em Londres em 27 de maio de 1922, Christopher Frank Carandini Lee tinha 17 anos quando a Europa mergulhou na Segunda Guerra Mundial. Depois de uma breve passagem pela Finlândia durante a Guerra de Inverno, ingressou na Royal Air Force.
Um problema no nervo óptico encerrou a possibilidade de seguir como piloto. Lee acabou deslocado para funções de inteligência e chegou ao posto de flight lieutenant.
Nos últimos meses do conflito, foi destacado para o Central Registry of War Criminals and Security Suspects, organização responsável pela identificação e localização de suspeitos de crimes de guerra.

Seu trabalho envolvia análise de dossiês, busca por procurados, interrogatórios e encaminhamento de suspeitos às autoridades competentes. Foi dessa etapa da vida que nasceu, anos depois, a expressão “caçador de nazistas” associada à sua biografia.
O rótulo ajuda a resumir o período, mas simplifica uma função mais ampla. Lee integrou uma estrutura aliada dedicada à investigação e localização de pessoas ligadas ao regime nazista.
O estrelato demorou a chegar
Quando deixou a RAF, em 1946, Christopher Lee ainda estava longe de imaginar a dimensão que sua carreira alcançaria. A estreia no cinema ocorreu em Corridor of Mirrors, de 1948, mas o reconhecimento levaria quase uma década.
A altura de cerca de 1,93 metro e a voz profunda, que mais tarde se tornariam parte de sua assinatura, inicialmente foram vistas como limitações. Durante anos, acumulou papéis pequenos e aparições discretas.

A mudança veio em 1957, com A Maldição de Frankenstein. No filme, Lee interpretou a criatura e encontrou o caminho que o levaria ao centro do terror britânico.
No ano seguinte, surgiu o personagem que marcaria de forma definitiva a primeira metade de sua carreira.
O Drácula que redefiniu o terror
Em Drácula, de 1958, Christopher Lee apresentou uma versão do conde bastante diferente daquela eternizada por Bela Lugosi. Seu vampiro era mais físico, mais agressivo e, ao mesmo tempo, carregava uma presença sedutora.
A interpretação rapidamente se tornou referência. Ao lado de Peter Cushing, que viveu Van Helsing, Lee formou uma das duplas mais importantes do cinema de terror.

O sucesso também teve um preço. Drácula passou a dominar a percepção do público sobre sua carreira, e o ator começou a procurar personagens que lhe permitissem escapar daquela associação.
Uma das melhores oportunidades apareceu em 1973, com O Homem de Palha. Como Lord Summerisle, líder de uma comunidade isolada, Lee encontrou um papel que ajudou a ampliar sua imagem para além do horror gótico.
De James Bond à Terra-média
Pouco depois, Lee entrou em outra franquia histórica. Em 007 Contra o Homem com a Pistola de Ouro, de 1974, viveu Francisco Scaramanga, assassino profissional que enfrenta James Bond, então interpretado por Roger Moore.
A ligação com o universo de 007 vinha de antes. Lee era primo por afinidade de Ian Fleming, criador do agente britânico, e sua própria trajetória de guerra parecia ter pontos de contato com o mundo da espionagem que ajudou a alimentar a série.
Décadas mais tarde, quando muitos atores de sua geração já estavam afastados do cinema, Lee voltou ao centro da cultura pop.
Peter Jackson o escalou como Saruman em O Senhor dos Anéis. Para o ator, o papel tinha um peso especial.
Leitor antigo de J.R.R. Tolkien, Lee conhecia profundamente aquele universo e chegou a encontrar o escritor pessoalmente, ainda que por poucos instantes. Durante anos, dizia esperar por uma grande adaptação cinematográfica da obra.

Saruman tornou esse desejo realidade quando ele já se aproximava dos 80 anos.
Nos bastidores, Lee discutia detalhes de personagens, passagens dos livros e aspectos da mitologia criada por Tolkien. O conhecimento sobre a obra ajudou a dar ao personagem uma dimensão que ultrapassava a de um simples antagonista.
Ao falar sobre o legado da trilogia, afirmou acreditar que seria especialmente lembrado por aqueles filmes. Para ele, O Senhor dos Anéis havia alcançado algo raro: a imortalidade.
De Saruman a Star Wars
Quase no mesmo período, Christopher Lee passou a integrar outra das maiores franquias do cinema.
Como Conde Dooku, apareceu em Star Wars: Episódio II – Ataque dos Clones e Episódio III – A Vingança dos Sith.
A imagem era curiosa por si só. O ator que havia se tornado símbolo do terror britânico nos anos 1950 surgia, já octogenário, empunhando um sabre de luz vermelho.

A passagem por Star Wars reforçou uma característica que acompanhou toda a sua carreira: a capacidade de permanecer relevante para públicos muito diferentes.
Uma carreira paralela no heavy metal
Guerra, espionagem, Drácula, James Bond, Tolkien e Star Wars já seriam suficientes para uma biografia incomum. Christopher Lee, porém, ainda acrescentaria outro capítulo.
Dono de uma voz de baixo-barítono, aproximou-se do metal sinfônico e passou a gravar música já em idade avançada.
Em 2010, aos 87 anos, lançou Charlemagne: By the Sword and the Cross, álbum conceitual inspirado em Carlos Magno.

Três anos depois, no dia em que completou 91 anos, apresentou Charlemagne: The Omens of Death, trabalho mais diretamente ligado ao heavy metal e com arranjos de Richie Faulkner, guitarrista do Judas Priest.
Lee também gravou versões natalinas em metal e continuou envolvido com música até os últimos anos de vida.
Um último retorno à Terra-média
Christopher Lee morreu em 7 de junho de 2015, aos 93 anos. Até perto do fim, continuava ativo.
Seus últimos anos no cinema foram marcados pelo retorno de Saruman em O Hobbit, mais de meio século depois da fase em que se tornou estrela com os filmes da Hammer.
Ao longo da carreira, foi Frankenstein, Drácula, Sherlock Holmes, Fu Manchu, Lord Summerisle, Scaramanga, Saruman e Conde Dooku. Em 2009, recebeu o título de cavaleiro por serviços prestados ao teatro e à caridade.

Nos últimos dias de vida, porém, foi a Terra-média que voltou a aparecer diante dele.
Internado em Londres, Lee passou a última noite assistindo a O Senhor dos Anéis ao lado de enfermeiras. Enquanto o filme era exibido, comentou cenas e relembrou histórias das filmagens de uma obra que admirava havia décadas.
Christopher Lee morreu pacificamente durante a noite.















