Artista Meio Killo revisita desenhos esquecidos e transforma fragmentos em exposição sobre partidas, chegadas e mudanças em SP

'Mudanças Provisórias, Chegadas Permanentes' reúne trabalhos que atravessam o surreal, o cotidiano e a memória em uma espécie de autorretrato indireto; abertura acontece neste sábado, na The Coast Gallery, em São Paulo

Meio Killo/ /Divulgação

Personagens surreais e cenas do cotidiano ganham novas camadas na mostra de Meio Killo /Divulgação

Desenhos guardados por anos, personagens surgidos de forma intuitiva e imagens que pareciam não ter conexão entre si deram origem à nova exposição de Thiago, conhecido artisticamente como Meio Killo.

Continua após a publicidade

Em “Mudanças Provisórias, Chegadas Permanentes”, o artista transforma o próprio arquivo em matéria-prima para investigar ideias de partida, chegada e movimento.

A mostra começa neste sábado (29/8), das 11h às 19h, na The Coast Gallery, na região da Berrini, em São Paulo.

A exposição apresenta telas, pinturas de parede, trabalhos em madeira e toy art, além de desenhos e personagens marcados pelo universo surrealista que acompanha a trajetória de Meio Killo.

Continua após a publicidade

Em entrevista exclusiva à Gazeta, o artista revelou que, mais do que organizar uma seleção de obras antigas, ele decidiu olhar novamente para aquilo que havia ficado de lado.

Quando surgiu a proposta para a exposição, a primeira coisa que fiz foi revisitar meus desenhos arquivados para poder selecionar um tema específico. Revendo esses desenhos guardados, percebi que muita coisa que anotei e desenhei ficou guardada só para mim e por muito tempo.

Desenhos esquecidos ganharam novo significado

O processo de criação da exposição começou justamente onde, normalmente, uma obra termina: no arquivo pessoal do artista.

Ao revisitar o material produzido ao longo dos anos, Meio Killo encontrou um desafio.

Continua após a publicidade

As imagens haviam sido criadas em momentos diferentes e sem a intenção de formar uma única narrativa.

Eram desenhos diversos, que foram desenhados sem intenção de conectá-los. Então precisei parar para estudar o meu próprio trabalho e perceber o que une eles além da imagem.

Foi nesse processo de observação que surgiu a ideia central da exposição. Elementos que pareciam aleatórios começaram a apontar para temas recorrentes na produção do artista.

Segundo Thiago, a noção de chegada, partida e movimento aparecia de maneira sutil em trabalhos que, originalmente, não tinham sido pensados para falar sobre isso.

Continua após a publicidade

Coisas que desenhei só usando o inconsciente, que ao desenhar não parecia ter um significado, mas olhando com outros olhos hoje, vi que diz muito sobre mim, sobre como está presente a ideia de chegada, partida e movimento no meu trabalho de uma forma sutil.

Um autorretrato sem retratar o próprio artista

A partir dessa descoberta, as obras foram reorganizadas para criar uma narrativa que não segue necessariamente uma ordem cronológica.

O resultado é uma exposição construída a partir de fragmentos. Personagens, símbolos, objetos e cenas do cotidiano aparecem em situações que transitam entre o reconhecível e o imaginário.

Para Meio Killo, o surrealismo não funciona como uma maneira de abandonar a realidade. Ele serve justamente para reorganizar aquilo que já existe e enxergar situações comuns por outro ângulo.

Continua após a publicidade

Depois que descobri o que aqueles desenhos queriam dizer, eles se uniram de uma forma surreal, fragmentada, e usei uma visão lúdica para expressar o que eu sinto e da forma que eu vejo as situações. A exposição é quase um autorretrato indireto”, resume o artista.

Essa característica também aparece nos personagens criados por Thiago. Um dos elementos mais reconhecíveis de seu trabalho são os rostos com nariz retangular verde, que se tornaram uma espécie de assinatura visual.

As figuras costumam aparecer com expressões contemplativas e são colocadas em situações que misturam humor, estranhamento e poesia.

Do graffiti para diferentes suportes

Nascido em 1995 e criado em Embu das Artes, na Grande São Paulo, Thiago é formado em Design Gráfico e começou a construir sua trajetória artística principalmente nas ruas.

Continua após a publicidade

Desde 2014, o graffiti ocupa um espaço importante em sua produção. Com o passar dos anos, porém, o artista passou a explorar outros suportes, levando seus personagens para muros, telas, ambientes digitais e objetos.

Na nova exposição, essa variedade também aparece.

Consegui expressar esses trabalhos em telas, pintura na parede e outros suportes como madeira e toy art.

A diversidade de materiais reforça a proposta de não tratar os desenhos apenas como registros de uma determinada fase. Eles ganham novas formas quando são retirados do caderno e levados para outros espaços.

Continua após a publicidade

Uma segunda exposição solo

Mudanças Provisórias, Chegadas Permanentes” também representa um momento importante na trajetória de Meio Killo por marcar sua segunda exposição individual.

Para o artista, apresentar essas obras significa dar uma nova função a materiais que permaneceram durante muito tempo guardados.

Está sendo bem importante expor essas obras, mostrar essas ideias que estavam guardadas e técnicas que aprendi durante a produção.

O processo também provocou uma reflexão sobre a própria trajetória.

Continua após a publicidade

Ao olhar para trás, Thiago percebeu que trabalhos que antes pareciam menores ou inacabados tiveram importância para a construção de sua linguagem atual.

Foi bom ter olhado com carinho para o passado e ver que tudo o que produzi até agora foi bem importante para entender o meu trabalho atual.

A exposição acontece na The Coast Gallery, espaço fundado em 2023 pelo fotógrafo e curador Jean Cabral.

Localizada na região da Berrini, em São Paulo, a galeria busca aproximar artistas e público por meio de exposições que combinam arte, cultura e convivência.

Continua após a publicidade

O espaço também reúne experiências ligadas à fotografia, à cultura e à gastronomia oriental.

A proposta combina com a própria trajetória de Meio Killo, cuja produção circula entre a arte urbana, a ilustração e diferentes linguagens visuais.