Carminho leva fado ao Cultura Artística, em São Paulo

Cantora portuguesa apresenta em São Paulo o espetáculo da turnê “Eu Vou Morrer de Amor ou Resistir”, com repertório autoral de fado

Cantora de fado destaca a receptividade do público brasileiro e a relação afetiva que estabeleceu com o país ao longo de suas passagens por aqui. Foto: Mariana Maltoni

Cantora de fado destaca a receptividade do público brasileiro e a relação afetiva que estabeleceu com o país ao longo de suas passagens por aqui. Foto: Mariana Maltoni

A cantora e compositora portuguesa Carminho chega a São Paulo nesta segunda (24/8) e na terça (25/8), em ambas as datas às 20h, para apresentar, no Cultura Artística, a turnê mundial de “Eu Vou Morrer de Amor ou Resistir”, seu sétimo álbum, lançado pela Sony Music.

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O trabalho parte do fado tradicional, um dos estilos musicais mais conhecidos da cultura portuguesa, mas explora novas possibilidades para o gênero, em um diálogo constante entre herança, criação e contemporaneidade.

‘O fado é uma língua viva’

O repertório do espetáculo tem como principal referência o disco lançado em 2025, que reúne 11 faixas, oito delas compostas por Carminho, nascida em Lisboa.

Entre as canções está “Saber”, parceria vocal com a artista norte-americana Laurie Anderson, que interpreta versos em inglês sobre a poesia de Ana Hatherly (1929-2015).

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A obra da poeta também inspira “Balada do país que dói”, marcada pela combinação entre guitarra portuguesa, mellotron e Vocoder, instrumento manipulado pela própria cantora.

Outro destaque do álbum é “Canção à ausente”, baseada em poema de Pedro Homem de Mello e dedicada ao sentimento de espera provocado pela ausência amorosa. Já “Sofrendo da alma”, construída a partir de versos de Amália Rodrigues, aproxima novamente a artista das referências que formam a base do fado.

Esse disco é a continuação do trabalho que tenho feito, de pesquisa e de prática sobre o fado tradicional, que eu acredito ser uma língua viva. Ela está aqui para nos servirmos dela, para podermos nos expressar”, afirma Carminho. “Busquei em poemas mais ambíguos e em sentimentos mais plurais o meu interesse na interpretação.

Além das músicas do novo trabalho, Carminho deve incluir no show “Chuva no Mar”, dueto gravado com Marisa Monte, e composições presentes no álbum dedicado à obra de Tom Jobim.

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A relação com a música brasileira também aparece em “Sabiá”, de Tom Jobim e Chico Buarque, que integra o repertório da turnê.

Ideia central do álbum

O título “Eu Vou Morrer de Amor ou Resistir” traduz uma das ideias centrais do álbum. A frase foi encontrada pela cantora em um poema do escritor português Antônio Campos Monteiro, entre manuscritos e lembranças que recebeu da fadista Beatriz da Conceição.

A partir dela, Carminho trabalha com a dualidade entre a entrega ao amor, frequentemente associada ao fado, e a possibilidade de permanecer firme diante dele.

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“Esse poema traz a ambiguidade que eu procurava e a vertigem que me encantou nesta ideia de que se morre muito de amor no fado, mas há sempre a hipótese de resistir. Essa é apenas uma imagem para outras ambiguidades que podem estar presentes dentro do ser humano”, explica. “Eu sou várias vozes, várias interrogações. É importante que não haja uma só verdade dentro de nós. Não nos definimos por um momento ou por uma atitude; somos uma pluralidade de acontecimentos.”

Mulheres no fado

A presença feminina também ocupa lugar importante no álbum. Carminho reconhece a influência de mulheres que fizeram parte da história do fado e de sua formação artística, entre elas sua mãe, Teresa Siqueira, Beatriz da Conceição e Amália Rodrigues, além de Wendy Carlos e Annette Peacock. Para a cantora, essas trajetórias ajudaram a abrir caminhos para outras intérpretes.

Este disco foi muito inspirado nas vozes que ouvi, no ambiente fadista a que tive acesso. É também inspirado nas mulheres que usaram a voz como forma de abrir caminho para outras, através da coragem das atitudes, da arte e da própria vida.

A ideia de resistência também está relacionada à trajetória das mulheres na criação artística. Para Carminho, ter liberdade para construir uma carreira e expressar sua própria voz continua sendo uma forma de afirmação.

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“Hoje em dia a mulher tem a oportunidade de se expressar livremente e de ter a sua própria carreira e sua voz. Acredito que, ao continuar nessa jornada, por si só, a voz feminina já é um ato de resistência”.

Conexão com a música brasileira

O vínculo com o Brasil permanece presente tanto no repertório quanto nas relações construídas pela cantora ao longo dos anos. Carminho cita nomes consagrados da música brasileira, como Caetano Veloso, Chico Buarque, Maria Bethânia, Marisa Monte e Milton Nascimento, e também acompanha uma nova geração de artistas.

Quando me perguntam por artistas jovens brasileiros que escuto, digo que são muitos, porque, realmente, a geração é muito viva: Agnes Nunes, Marina Sena, Ana Frango Elétrico, Dora Morelenbaum, Silva, Tim Bernardes, Jotapê e Zé Ibarra. Há muita gente fazendo um trabalho muito bonito.

A cantora também destaca a receptividade do público brasileiro e a relação afetiva que estabeleceu com o País ao longo de suas passagens por aqui.

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“É um público muito carinhoso, fiel, que se expressa imensamente. Acho que tem um orgulho imenso de suas raízes e seus artistas. Isso me orgulha também”, diz. “Uma das maiores alegrias que tenho ao saber que vou tocar no Brasil é, exatamente, me reencontrar com muitos amigos e passar por cidades com as quais já estabeleci uma relação emocional”, revela.

Experimentação

Apesar de ter apresentado algumas das músicas do novo álbum durante sua passagem pelo Brasil em 2025, a atual turnê traz novidades.

O espetáculo conta com nova cenografia e iluminação, além da incorporação de instrumentos como Cristal Baschet, Ondes Martenot e Vocoder, ampliando as possibilidades sonoras das canções.

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A experimentação, porém, não significa para Carminho uma tentativa de romper com o fado. O objetivo, segundo ela, é investigar até onde a linguagem do gênero pode chegar sem perder sua identidade.

Não é uma necessidade de mudança, nem uma pretensão de mudar o fado. Não há uma busca desenfreada por novidade ou por modernidade. Procuro algo que eu goste de ouvir e que continue a fazer sentido para mim, dentro do gênero musical que é o meu e da linguagem que é a minha. Portanto, existe essa adrenalina de procurar os limites da linguagem.

Com a turnê, Carminho pretende continuar levando o álbum a diferentes palcos. Para ela, o contato com o público também alimenta o processo de criação e pode abrir caminho para novos trabalhos.

“É algo que me dá muito prazer e alegria, como também abre portas para novos discos e para novas canções. Ao mesmo tempo em que ponho em prática aquilo que criei, se abre um novo momento criativo”, conclui.

Serviço – ‘Eu Vou Morrer de Amor ou Resistir’