Jovem cria projeto aos 14 anos, visita 26 escolas e transforma iniciativa em negócio que reúne oito livros e atividades em 14 estados brasileiros

Anna Luiza Calixto começou com ações voluntárias em Atibaia e encontrou no microcrédito apoio para publicar obras sobre direitos e proteção de crianças.

Estantes de livros e mesa com cadeiras coloridas em espaço de leitura imaginado.

Composição ilustrativa sobre leitura; não retrata escola ou projeto citado na matéria. Imagem gerada por inteligência artificial. Crédito: Imagem gerada por IA

A ideia começou na adolescência e entrou nas escolas antes de virar empresa. Em 2015, aos 14 anos, Anna Luiza Calixto criou o Projeto Bem Me Quer e percorreu 26 escolas municipais de Atibaia para conversar sobre direitos de crianças e adolescentes.

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Em 2018, a iniciativa se tornou microempresa. Segundo reportagem de divulgação estadual publicada pelo Jornal Cidade de Rio Claro em 29 de outubro de 2026, o trabalho passou a reunir oito livros e atividades itinerantes em 14 estados brasileiros.

O crédito do Banco do Povo Paulista ajudou a financiar etapas como ilustração, diagramação e impressão. A trajetória aproxima duas tarefas que nem sempre aparecem juntas: criar histórias para leitores pequenos e organizar os meios para que essas histórias cheguem até eles. Os números divulgados descrevem a atuação do projeto, sem comprovar, por si só, o efeito de cada publicação.

Um livro precisa existir como objeto antes de encontrar o leitor

Entre o texto escrito e o exemplar pronto há trabalho que o público nem sempre vê. É preciso organizar páginas, pensar a relação entre palavras e imagens, revisar e decidir como o material será apresentado. No livro infantil, essas escolhas participam da leitura e não funcionam apenas como acabamento posterior.

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Uma ilustração pode acrescentar informações que o texto não diz; a sequência das páginas pode criar expectativa; o tamanho das letras pode facilitar ou dificultar o contato. Isso ajuda a entender por que publicar não se resume a imprimir um arquivo. A proposta precisa ganhar uma forma adequada à experiência de quem vai ler.

Há ainda diferenças entre a leitura individual, a leitura compartilhada com adultos e a apresentação a uma turma. Um mesmo livro pode circular em situações distintas, mas a mediação muda o encontro com a obra. Observar essas possibilidades permite pensar a publicação como parte de uma atividade, em vez de tratá-la como um objeto que resolve tudo sozinho.

Falar de direitos com crianças exige escuta e linguagem adequada

Abordar proteção, convivência ou violência não significa entregar a uma criança conceitos jurídicos sem adaptação. A conversa precisa considerar idade, contexto e condições de compreensão. Histórias podem oferecer uma entrada para o diálogo, mas não dispensam a responsabilidade de quem acompanha a leitura e acolhe perguntas que possam surgir.

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Também não é necessário transformar cada narrativa em uma lição com resposta única. Personagens, situações e escolhas podem criar espaço para observar sentimentos e relações. Uma pergunta feita pelo leitor pode ser mais reveladora do que a repetição de uma conclusão esperada pelo adulto.

Quando um assunto provoca desconforto, a mediação pede atenção ao ritmo da criança. Forçar relatos pessoais ou exigir uma identificação imediata com o personagem pode ultrapassar o objetivo da leitura. É possível conversar sobre uma história sem transformar aquele momento em uma investigação sobre a vida de quem está ouvindo.

Entrar na escola envolve conversar com quem já está lá

Uma atividade externa precisa encontrar lugar na realidade da unidade escolar. Professores conhecem a turma, seus interesses e a proposta pedagógica em andamento. Esse conhecimento ajuda a planejar a experiência, definir o que faz sentido e evitar que uma visita se torne um acontecimento desconectado do trabalho realizado depois.

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O Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação orienta, no âmbito da escolha de obras da educação infantil, a análise da adequação à faixa etária e à proposta pedagógica. Embora essa orientação pertença a um programa específico, ela evidencia critérios importantes para pensar o encontro entre livros, crianças e espaços de aprendizagem.

Uma apresentação pode despertar interesse, mas a continuidade depende do que ficará disponível. Ter acesso ao livro, poder reler e encontrar alguém com quem conversar amplia as possibilidades de contato. A leitura não precisa acontecer somente no dia de um evento ou depender da presença de quem escreveu a obra.

A passagem de projeto voluntário para negócio muda responsabilidades

Uma iniciativa pode começar com disponibilidade pessoal e crescer até exigir outra forma de organização. Quando passa a oferecer serviços ou produtos, precisa tornar claros prazos, propostas e condições de execução. A finalidade social não elimina essas tarefas; torna ainda mais importante explicar o que está sendo oferecido e a quem.

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No caso de uma publicação, há decisões sobre quantidade, formato e circulação. Produzir exemplares sem pensar como chegarão aos leitores pode deixar livros guardados. Planejar a distribuição ajuda a relacionar o trabalho editorial ao uso pretendido, seja em atividades, bibliotecas, vendas ou outras formas de acesso.

Essa organização também permite distinguir alcance e impacto. Estar presente em vários lugares mostra circulação; compreender mudanças produzidas por uma atividade exige outros registros e critérios. Uma história de empreendedorismo pode valorizar o crescimento documentado sem atribuir automaticamente a ele resultados educacionais que não foram avaliados.

Formar leitores depende de acesso e de convivência

O Plano Nacional do Livro e Leitura, apresentado pelo Ministério da Cultura, articula políticas de livro, literatura, escrita e bibliotecas. A proposta reconhece que construir uma sociedade leitora envolve diferentes agentes e espaços. Um autor participa desse ambiente, mas não substitui o trabalho de famílias, escolas, bibliotecas e mediadores.

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Para quem acompanha uma criança, ler junto pode começar com a disponibilidade para observar e ouvir. Há leitores que querem comentar cada página; outros preferem escutar primeiro e falar depois. Respeitar essas diferenças ajuda a manter o encontro aberto, sem transformar toda leitura em tarefa a ser verificada.

Também é possível voltar ao mesmo livro. A repetição pode revelar uma imagem antes despercebida, uma pergunta nova ou outra interpretação. O valor do contato com uma história não depende de consumir rapidamente muitos títulos. Uma obra conhecida pode continuar oferecendo espaço para conversa em momentos diferentes.

O tamanho de uma ideia aparece também em sua continuidade

A imagem de alguém escrevendo costuma ocupar o centro das histórias sobre livros. Menos visíveis são as decisões que permitem manter o trabalho: revisar materiais, responder a uma escola, preparar uma atividade e organizar uma nova edição. A publicação final reúne essas etapas, mesmo quando o leitor vê apenas a capa e as páginas prontas.

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Uma trajetória que começou cedo também não precisa ser apresentada como fórmula a seguir. Pessoas encontram caminhos em idades e circunstâncias diferentes. Conhecer uma experiência concreta e as condições que a tornaram possível pode ajudar outras pessoas a formular seus projetos, preservando a diferença entre encontrar inspiração e esperar que o mesmo percurso funcione para todos.

Quando uma ideia ganha circulação, surge a oportunidade de ouvir quem entrou em contato com ela. Perguntas de professores, observações de leitores e experiências de mediação podem orientar próximos passos. O projeto continua em movimento quando o livro deixa de ser apenas resultado da escrita e passa a integrar uma conversa com outras pessoas.