Brasileiro que vive há 16 anos no Paraguai diz que situação vivida no país é ‘delicada’ após liquidação do Ueno Bank

Fernando Zani Ramírez relata o impacto do bloqueio abrupto de contas que afetou mais de 3 milhões de pessoas, desencadeou protestos de rua e abriu um processo de juízo político contra o presidente Santiago Peña

Brasileiro Fernando Zani Ramírez foi um dos afetados com a crise vivida no Paraguai / Divulgação

Brasileiro Fernando Zani Ramírez foi um dos afetados com a crise vivida no Paraguai / Divulgação

O produtor audiovisual brasileiro Fernando Zani Ramírez, 35, que atua há seis anos no setor e reside há quase 16 no Paraguai, classificou como “delicada” e “surreal” a crise financeira e política instalada no país. Ele foi um dos atingidos pela paralisação das operações do Ueno Bank, que bloqueou saques de correntistas e interrompeu o recebimento por trabalhos executados por sua produtora.

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O bloqueio das contas teve início após uma intervenção do Banco Central do Paraguai (BCP), efetuada durante a madrugada de uma terça-feira (3/11), por volta das 3 horas. Na manhã seguinte, trabalhadores, operários, microempreendedores e idosos acordaram sem acesso aos próprios recursos, impossibilitados até mesmo de comprar alimentos ou abastecer veículos para ir ao trabalho. A estimativa é de que mais de 3 milhões de pessoas, entre paraguaios e residentes estrangeiros, tenham sido afetadas pela situação.

“A situação atual tá sendo bastante delicada aqui. Muita gente está passando por a necessidade de não ter o dinheiro, que que estava na conta, e as pessoas acordaram simplesmente sem poder retirar esse dinheiro. Eu mesmo fui uma pessoa que que foi afetada por isso. As pessoas já estão indo para a rua, já está tendo manifestação”, conta Fernando.

“O Banco Central do Paraguai acionou o fundo de garantia para poder ressarcir as pessoas, que tinham dinheiro na conta. Tenho entendido que até num prazo de 15 dias esse dinheiro vai cair, né, na conta das pessoas e que foram afetadas”, completa Fernando.

Diante do colapso financeiro, o Banco Central do Paraguai acionou um fundo de garantia que prevê o ressarcimento dos correntistas em um prazo de até 15 dias, no valor integral de até 75 salários mínimos por cliente (cerca de 210 milhões de guaranis – aproximadamente R$ 150 mil a R$ 160 mil).

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Na prática, os cidadãos que mantinham saldos dentro desta margem máxima recebem 100% do valor retido de forma priorizada pelas regras da lei de emergência. Já os correntistas, empresas ou entidades públicas com montantes acumulados que ultrapassam esse teto não recebem o excedente imediatamente: a quantia excedente entra na fila oficial de credores e sua devolução dependerá da liquidação dos ativos do próprio banco e do leilão dos bens bloqueados pela Justiça na ação contra os executivos investigados.

O caso também desencadeou uma crise institucional impulsionada por denúncias de corrupção e lavagem de dinheiro envolvendo a instituição bancária, na qual o presidente da República, Santiago Peña, figurava como acionista. As investigações citam familiares e empresas associadas ao Grupo Vásquez, incluindo contas multimilionárias atribuídas à nora do mandatário.

Ao todo, oito pessoas foram capturadas ou colocadas sob restrições judiciais, com o presidente sendo detido e outros investigados monitorados por tornozeleira eletrônica.

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Nas ruas, a indignação popular motivou protestos diários em busca de justiça. Embora as manifestações tenham ocorrido predominantemente de forma pacífica, episódios pontuais de violência e intervenção policial foram registrados. No cenário político, o presidente apresentou seu pedido de demissão, enquanto a Câmara dos Deputados aprovou, com 78 votos favoráveis, o encaminhamento do processo de juízo político contra Santiago Peña para julgamento no Senado.

Avanço do impeachment e isolamento político

A renúncia de Santiago Peña nesta quinta-feira (5/11) foi precipitada pelo avanço acelerado de um pedido de impeachment no Congresso Nacional. A oposição e antigos aliados acusavam o ex-presidente de conflito de interesses, uso indevido de fundos previdenciários e omissão, alegando que a autoridade monetária do país teria atuado para encobrir irregularidades financeiras. A derrocada política do governante consolidou-se quando lideranças do seu próprio partido, o Partido Colorado, retiraram o apoio oficial ao seu governo.

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Apesar da entrega da carta de renúncia, a Câmara dos Deputados do Paraguai optou por dar prosseguimento ao processo de impeachment contra Peña. O requerimento responsabiliza a gestão pelas falhas na fiscalização do setor bancário, que acumulava valores expressivos de depósitos públicos do Instituto de Previdência Social.

Quem é Santiago Peña

Santiago Peña Palacios, de 47 anos, é um economista e político paraguaio de orientação conservadora, filiado ao tradicional Partido Colorado. Ele foi eleito presidente do Paraguai em 2023 aos 44 anos, tornando-se o governante mais jovem a assumir o comando do Executivo no país desde a redemocratização em 1989.

Com formação em Economia pela Universidade Católica de Assunção e mestrado em Administração Pública pela Universidade Columbia, em Nova York, Peña construiu uma sólida trajetória técnica antes de ingressar na política partidária. Atuou no Fundo Monetário Internacional (FMI), em Washington, fez carreira no Banco Central do Paraguai e ocupou o cargo de ministro da Fazenda entre 2015 e 2017, durante a gestão do ex-presidente Horacio Cartes.

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No campo ideológico, consolidou uma imagem de perfil técnico aliado a pautas morais e econômicas alinhadas à direita conservadora. Sua trajetória política ficou marcada pelo papel central no Partido Colorado e pela transição do meio acadêmico e financeiro para o mais alto posto do governo paraguaio, culminando em sua renúncia em meio ao colapso do sistema bancário ligado ao banco Ueno.

O que é e qual o papel do banco Ueno na crise

O banco digital Ueno (antigo Financiera Ueno, pertencente ao Grupo Vázquez) era considerado uma das principais fintechs de crescimento rápido no Paraguai, acumulando cerca de 3 milhões de correntistas, em um país de aproximadamente 7,5 milhões de habitantes.

Além do grande volume de clientes individuais, a instituição privada mantinha sob sua custódia cerca de US$ 850 milhões em depósitos públicos, incluindo repasses e fundos essenciais do Instituto de Previdência Social (IPS) paraguaio.

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A trajetória da instituição e a origem da crise envolvem pontos centrais:

  • Conexão política: o ex-presidente Santiago Peña foi acionista direto do grupo controlador da instituição até março de 2023, antes de assumir o comando do Executivo. A oposição e setores da sociedade acusaram seu governo de conflito de interesses, favorecimento e falta de fiscalização sobre as operações do banco.
  • Abertura de liquidação: a crise estourou quando o Banco Central do Paraguai (BCP) determinou a liquidação e o encerramento das atividades do Ueno após constatar insuficiência grave de recursos para cobrir as obrigações da instituição. A autoridade monetária apontou a concessão de empréstimos irregulares e sem garantias para empresas vinculadas ao próprio grupo financeiro.
  • Ações judiciais e bloqueios: após o anúncio do fechamento, a Procuradoria do Paraguai acusou formalmente dezenas de pessoas ligadas à administração do banco, emitindo mandados de prisão contra executivos e ordenando o congelamento e bloqueio de bens dos envolvidos.
  • Impacto no sistema financeiro: o travamento dos fundos do Ueno gerou pânico bancário, filas históricas de correntistas em busca de saques e instabilidade temporária nos aplicativos de outras instituições financeiras do país devido ao alto volume de transferências de urgência.