O ator revelou uma reflexão sobre arte, liberdade e violência em entrevista à Gazeta de S. Paulo, no black carpet da HBO Max, apresentando o primeiro episódio da segunda temporada de “Cidade de Deus: A Luta Não Para”. Questionado sobre o papel da criação artística diante dos problemas retratados na série, Nachtergaele disse que a arte não deve ser responsabilizada por resolver questões concretas, mas pode ajudar o público a compreender outras realidades.
A arte, ela não deveria se responsabilizar por resolver os problemas concretos do homem. Ela deveria ser um caminho de aprendizagem, libertação e, principalmente, um lugar de ampliação do subjetivo.
Na resposta, Nachtergaele também explicou como essa experiência pode influenciar a maneira de enxergar quem vive situações diferentes das próprias. “Isso contribui para a melhor visão do mundo, para uma aceitação mais profunda das realidades do outro, portanto, uma visão mais coletiva e mais profunda da vivência humana na Terra”, disse.
O ator resumiu sua ideia em uma frase que, à primeira vista, pode parecer contraditória: “Mas a arte não tem obrigação política. Por outro lado, a arte, por ampliar a consciência e a liberdade, é sempre política”.
Arte e política
Na visão apresentada por Nachtergaele, uma obra não precisa oferecer soluções para problemas relacionados à violência nem substituir a ação do poder público. Ainda assim, pode ter um efeito político ao ampliar a consciência e aproximar o público de experiências que talvez não conheça de perto.
Essa reflexão conversa com a trajetória do ator, marcada por personagens que não cabem facilmente em uma única definição. Ao longo da carreira, ele interpretou João Grilo, em “O Auto da Compadecida”; Cintura Fina, em “Hilda Furacão“; e Cenoura, em “Cidade de Deus”. O papel de Cintura Fina rendeu a Nachtergaele o prêmio de ator revelação na televisão pela Associação Paulista de Críticos de Arte.
Personagens além dos rótulos
O pobre, o esperto, o ladrão, o traficante carismático ou a travesti emblemática: esses rótulos podem resumir personagens à primeira vista, mas não dão conta de toda a experiência humana que cada um carrega. A fala de Nachtergaele sobre a ampliação do subjetivo ajuda a pensar justamente nessa complexidade. Um personagem pode estar ligado à pobreza, à criminalidade ou à marginalização e, ao mesmo tempo, ter desejos, contradições e relações que não se explicam por uma única etiqueta.
Isso não significa apagar a violência nem justificar as escolhas de figuras como Cenoura. A questão está em retratá-las sem transformar o personagem em uma categoria única. Ao dizer que a arte pode favorecer “uma aceitação mais profunda das realidades do outro”, o ator aponta para a possibilidade de olhar com mais atenção para pessoas frequentemente reduzidas a estereótipos.
A maneira como Nachtergaele organiza a resposta também demonstra seu interesse em pensar o ofício para além da interpretação. Ele não atribui à arte a obrigação de consertar o mundo, mas reconhece que histórias e personagens podem alterar a forma como o público enxerga a realidade. É nesse sentido que, para ele, a arte não tem obrigação política e, ainda assim, “é sempre política”.
O retorno como Cenoura, 24 anos depois
Na segunda temporada de “Cidade de Deus: A Luta Não Para”, Nachtergaele volta a interpretar Cenoura, personagem que viveu no filme de 2002. O retorno ao papel reforça a relação entre sua reflexão sobre arte e a série, que retrata personagens atravessados pela violência sem reduzi-los a uma única característica.
Ao defender que a arte pode ampliar a compreensão sobre a realidade do outro, Nachtergaele também aponta para a complexidade de figuras como Cenoura. A ficção não resolve os problemas enfrentados por esses personagens, mas pode convidar o público a olhar para suas histórias com mais atenção.
A segunda temporada de “Cidade de Deus: A Luta Não Para” estreia em 8 de novembro na HBO Max.






