Musical ‘Epifania – Uma Fábula Moderna’, de Vitor Rocha, estreia em São Paulo com reflexão sobre criatividade e hiperconexão

'Epifania - Uma Fábula Moderna' acompanha uma compositora que enfrenta um bloqueio criativo em meio à pressão por desempenho

'Epifania', novo musical de Vitor Rocha, estreia em outubro e aborda criatividade, hiperconexão, FOMO e a pressão por validação. Foto: André Leão

'Epifania', novo musical de Vitor Rocha, estreia em outubro e aborda criatividade, hiperconexão, FOMO e a pressão por validação. Foto: André Leão

O que acontece quando criar deixa de ser apenas uma experiência movida pelo prazer, pela curiosidade ou pela necessidade de expressão e passa a exigir uma finalidade? É dessa provocação que parte “Epifania – Uma Fábula Moderna“, novo musical autoral de Vitor Rocha, que estreia em 28 de outubro, no Teatro Estúdio, em São Paulo.

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A montagem terá sessões às quartas e quintas-feiras na capital paulista até 17 de dezembro. Os ingressos custam a partir de R$ 60 estão à venda pela Sympla.

Produzido pela Encanto Artístico Produções e Girassol Produções, o espetáculo reúne sete atores multi-instrumentistas em cena e combina fantasia com questões presentes no cotidiano contemporâneo, como hiperconexão, FOMO (fear of missing out), solidão, excesso de estímulos e a pressão constante por desempenho e validação.

No centro da discussão está a criatividade e o que acontece quando ela passa a ser atravessada pela necessidade de produzir, entregar e corresponder a expectativas.

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Conheça a história de ‘Epifania – Uma Fábula Moderna’

A protagonista de “Epifania – Uma Fábula Moderna” é Filipa, uma compositora interpretada por Luiza Porto, que finalmente se depara com a oportunidade profissional que sempre desejou.

O que poderia representar uma virada em sua carreira, porém, vem acompanhado de um bloqueio criativo que faz com que ela perca seu dom para a música.

Ao lado do vizinho Valério, vivido por Diego Rodda, Filipa parte em busca daquilo que perdeu. A tentativa de colocar novamente a vida em ordem conduz a personagem a uma jornada que atravessa diferentes tempos e dimensões e chega a uma espécie de origem de tudo: um momento anterior ao próprio tempo, quando existia apenas o nada, um grande vazio.

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É nesse universo que aparecem as Primas, vividas por Anna Toledo, Marília Lopes e Aline Cunha, apresentadas como as criadoras de todos os conteúdos.

O vazio, porém, também tem força própria e encontra maneiras de se espalhar. A partir desse confronto, a protagonista precisa reencontrar aquilo que a conecta à criação.

A tecnologia aparece na história não como uma vilã, mas como parte das inquietações de uma geração que vive permanentemente conectada. Notificações, distrações, comparações, pressa e a impressão de que algo mais importante acontece em outro lugar atravessam a trajetória dos personagens.

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Contradições do mundo moderno

A obra também explora uma contradição típica desse cenário: ao mesmo tempo em que é possível acompanhar acontecimentos do outro lado do mundo em poucos segundos, muitas vezes falta atenção para perceber o que acontece com quem está por perto.

Essa discussão aparece também na estrutura narrativa. Marco França e Laura Castro interpretam Verso e Fábula, dois narradores que entram constantemente em desacordo sobre os rumos da história.

Enquanto um defende uma narrativa mais direta e voltada ao que considera essencial, o outro insiste na importância da fantasia, dos começos, das imagens e do próprio processo de construção de uma história.

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O embate entre os dois personagens permite que o musical também brinque com as próprias convenções do teatro e reflita sobre a relação entre forma e conteúdo em um período marcado pela produção incessante de conteúdo.

A música é outro elemento fundamental da montagem. Os sete integrantes do elenco são multi-instrumentistas e se revezam entre diferentes instrumentos durante o espetáculo. Além de atuar, os artistas também estão envolvidos em áreas como composição e escrita, contribuindo para uma trilha sonora original.

A sonoridade da montagem inclui momentos instrumentais e utiliza também o silêncio e o tempo como elementos da narrativa, sem depender o tempo todo da palavra para conduzir a história.

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No palco, essa lógica parte do vazio. Os ambientes e as imagens são construídos diante do público, em uma proposta visual que acompanha a própria origem da fábula: tudo começa no nada, como uma página em branco, e ganha forma por meio da criação.

A direção de movimento é de Fabrício Licursi, e os arranjos musicais são assinados por Marco França.

Décimo espetáculo autoral de Vitor Rocha

“Epifania” representa ainda uma nova etapa na trajetória autoral de Vitor Rocha. Premiado por trabalhos no teatro musical e responsável por espetáculos que tiveram diferentes temporadas e montagens no Brasil e no exterior, o artista chega ao décimo espetáculo de sua autoria encenado.

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A nova obra também marca seu retorno a uma criação inteiramente própria depois de cerca de dois anos dedicados à retomada de trabalhos anteriores e a projetos desenvolvidos para outros contextos. Embora Filipa seja compositora, e não dramaturga, Rocha identifica na personagem conflitos relacionados ao próprio processo de criação.

“Eu acho que nunca fiz um espetáculo tão pessoal na minha vida. É a minha cabeça aberta ali no palco, nessa história. O meu processo criativo visto de dentro”, afirma Vitor.

Já a ideia de criar as “Primas” surgiu em janeiro, mas foi apenas no fim de julho que o autor decidiu transformar aquele universo em seu próximo musical. Texto, músicas e letras foram desenvolvidos de forma concentrada durante agosto e chegaram à sala de ensaio ainda abertos às contribuições e aos encontros com os demais criadores da montagem.

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O próprio título do espetáculo está ligado à ideia de criação. Epifania é o nome dado a um momento de percepção súbita, quando algo que antes parecia disperso finalmente encontra forma e sentido. Na dramaturgia de Rocha, chegar a essa essência não está necessariamente ligado ao resultado produzido a partir de um talento, mas à possibilidade de reconhecer aquilo que cada pessoa consegue colocar no mundo.

Pensei muito durante esse processo: o que seria alcançar a minha essência? E acabei concluindo que a minha essência é fabulosa e fabulesca, é assim que as coisas ganham forma através de mim.

Entre a fantasia e as questões da atualidade, “Epifania” transforma o vazio em ponto de partida para a criação. Ao invés de apresentar respostas definitivas sobre produtividade, tecnologia ou processo criativo, o musical parte daquilo que pode se perder quando experiências passam a ser avaliadas pelo resultado, pela velocidade ou pela utilidade, e do que ainda pode surgir quando existe espaço para uma ideia permanecer acesa.

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Se você gosta de teatro musical, não deixe de conferir que “Percy Jackson – O Ladrão de Raios: O Musical” acaba de chegar ao Brasil em montagem inédita. O espetáculo faz temporada no Teatro Liberdade, na capital paulista.

Serviço – “Epifania – Uma Fábula Moderna“

  • Onde? Teatro Estúdio – Rua Conselheiro Nébias, 891 – Campos Elíseos, São Paulo
  • Quando? De 28 de outubro a 17 de dezembro; quartas e quintas, às 20h
  • Quanto? R$ 120 (inteira) e R$ 60 (meia)
  • Classificação indicativa: Livre