Quando Heaven Delhaye assumiu a gastronomia da área VIP do Rock in Rio 2026 junto com a GSH Live, o desafio ganhou contornos de operação familiar.
Ao lado dela estão a mãe, Marie Delhaye, o pai Alexandre Mendes e os irmãos Francis, Ricardo e Miguel Delhaye, todos chefs e envolvidos diretamente na engrenagem montada para atender milhares de pessoas ao longo do festival.
É uma família cuja rotina profissional acontece, literalmente, dentro da cozinha.
No Rock in Rio, isso significa coordenar equipes, fornecedores, produção em larga escala, dezenas de toneladas de alimentos e uma estrutura que precisa funcionar durante horas para que, do lado de fora, o público encontre tudo pronto.
Mas existe uma segunda operação acontecendo simultaneamente.
Enquanto Heaven, Marie, Francis, Ricardo, Miguel e centenas de profissionais trabalham para colocar a experiência gastronômica de pé, alguém decidiu ligar a câmera antes que tudo estivesse perfeito.
Essa pessoa é Jéssica Sá.
Jéssica também integra essa história no âmbito pessoal: é noiva de Francis Delhaye. Mas, dentro da operação, sua função vai muito além do vínculo familiar. Diretora de marketing, jornalista e confeiteira, ela é responsável por transformar os bastidores da cozinha em narrativa e também assina os doces servidos na área VIP.
Nos últimos dias, foi justamente essa combinação pouco convencional de funções que colocou uma parte até então invisível do Rock in Rio diante de milhões de pessoas.
Em vez de utilizar as redes sociais apenas para mostrar pratos finalizados, bufês impecavelmente montados ou imagens de convidados aproveitando a experiência, Jéssica decidiu mostrar o que acontece antes.
A câmera acompanha o cansaço, a correria, as madrugadas, as decisões de última hora, os problemas que precisam ser solucionados, a convivência familiar, a pressão e os momentos em que nem tudo acontece exatamente como o planejado.
Não é acidente.
Jéssica não gosta de uma comunicação em que tudo parece perfeito o tempo inteiro.
A proposta é justamente mostrar quanto trabalho existe antes da perfeição que chega ao público.
Essa escolha transformou os bastidores da cozinha da área VIP em um reality digital acompanhado diariamente pelas redes sociais.
Até 13 de setembro, os 25 episódios publicados sobre a operação do Rock in Rio já acumulavam aproximadamente 5,5 milhões de visualizações apenas no Instagram. Quando considerados os demais vídeos relacionados à operação publicados durante o período, o número ultrapassa 6,3 milhões de visualizações na plataforma.
E esse resultado não contempla a audiência conquistada no TikTok e no YouTube, onde o conteúdo também é distribuído.
Os números ajudam a explicar por que aquilo que poderia ser tratado apenas como cobertura de bastidores começa a se consolidar como um produto de comunicação próprio.
Mas a história não começou no Rock in Rio.
A primeira experiência de Jéssica com esse formato aconteceu no Carnaval de 2026, durante a operação gastronômica realizada pela família em um camarote.
Na ocasião, surgiu a decisão de não mostrar apenas aquilo que estava sendo entregue ao público. A produção começou a acompanhar também o que acontecia nos bastidores e a transformar a rotina da equipe em episódios.
O formato funcionou e passou a acompanhar as operações seguintes.
Desde então, quando começa uma nova grande entrega gastronômica, começa também uma nova história para as redes sociais.
É uma diferença aparentemente pequena, mas que muda completamente a lógica da comunicação.
Em vez de o marketing chegar quando o trabalho terminou para registrar o resultado, ele passa a acompanhar o processo desde o início.
Isso exige outro olhar.
É preciso reconhecer uma história enquanto ela ainda está acontecendo. Entender quem são os personagens, perceber que uma conversa aparentemente banal pode ajudar a explicar um problema maior e saber quando uma câmera deve simplesmente continuar gravando.
No Rock in Rio, essa proximidade com a operação faz ainda mais diferença.
Jéssica não é uma profissional de marketing observando uma cozinha de fora. Ela está dentro dela.
Como confeiteira, participa diretamente da produção e assina junto com o Pedro Frade os doces servidos na área VIP do festival. Como diretora de marketing, pensa em estratégia, posicionamento e distribuição. Como jornalista, transforma acontecimentos em narrativa.
Na prática, ajuda a construir a experiência e, ao mesmo tempo, decide como essa experiência será contada. Isso significa reconhecer, por exemplo, que a história não está necessariamente no momento em que uma mesa aparece pronta.
Às vezes, ela está nas horas anteriores.
No profissional exausto tentando finalizar uma entrega. Na mudança feita minutos antes do serviço. Na família discutindo uma decisão. Em alguma coisa que deu errado e precisou ser resolvida antes que o público sequer percebesse.
A maioria dessas cenas poderia simplesmente ser cortada. Jéssica prefere mantê-las.
E talvez seja justamente aí que esteja uma das principais razões para o público continuar assistindo.
Durante muito tempo, a comunicação das marcas nas redes sociais esteve associada à ideia de controle. O cenário precisava estar perfeito. O produto, perfeito. As pessoas, perfeitas. Qualquer dificuldade permanecia fora do enquadramento.
O comportamento da audiência, porém, mudou. O processo passou a despertar tanta curiosidade quanto o resultado.
As pessoas querem saber como aquilo foi feito, quanto trabalho existiu antes, quem estava envolvido, o que deu errado e como alguém resolveu o problema.
É a mesma lógica que transformou bastidores, documentários e realities em produtos capazes de sustentar audiência por temporadas inteiras.
O que Jéssica fez foi trazer essa linguagem para dentro de uma operação gastronômica real.
Existem personagens recorrentes. Existe continuidade. Existem conflitos que não precisam ser criados por um roteiro porque surgem naturalmente do próprio trabalho. Algo que acontece em um episódio pode repercutir no seguinte.
O espectador deixa de assistir a um vídeo isolado e começa a acompanhar uma história.
No centro dela está uma família.
Heaven, Marie, Francis, Ricardo e Miguel aparecem não apenas como profissionais entregando um produto final, mas como pessoas lidando com o peso de uma operação de grandes proporções.
Isso humaniza algo que, visto apenas de fora, poderia parecer uma engrenagem perfeitamente automática.
Não é.
Por trás de cada noite existe gente cansada, gente tomando decisão, gente discordando, gente tentando acertar e gente que precisa começar tudo novamente no dia seguinte.
E existe uma diretora de marketing que percebeu que esconder tudo isso seria desperdiçar justamente a melhor história disponível.
O resultado é particularmente interessante porque o Rock in Rio já é, por natureza, um evento disputado por câmeras.
Há artistas internacionais, celebridades, marcas gigantescas, palcos, experiências e milhares de estímulos acontecendo simultaneamente.
Ainda assim, milhões de visualizações foram parar dentro de uma cozinha.
Isso diz alguma coisa sobre a maneira como consumimos conteúdo hoje.
Talvez não estejamos interessados apenas no extraordinário.
Estamos interessados em descobrir como o extraordinário é construído.
Para Jéssica, essa construção não termina nas redes sociais. Entre um episódio e outro, ela continua sendo também parte do trabalho que está sendo filmado.
E existe uma ironia interessante nisso tudo.
Dentro da área VIP, o objetivo de centenas de profissionais é fazer com que o público tenha a sensação de que tudo funciona perfeitamente.
Do lado de dentro, Jéssica decidiu mostrar exatamente o contrário: tudo funciona porque existe uma quantidade enorme de gente trabalhando para fazer funcionar.
No fim, a experiência chega impecável ao convidado.
Mas, desta vez, milhões de pessoas também puderam assistir ao caos, ao esforço, à família e ao trabalho que existiram antes dela.
