Poucos jogadores viveram uma queda tão dramática quanto Alex Villaplane, o primeiro capitão da seleção francesa em uma Copa do Mundo.
O jogador tinha tudo para construir uma trajetória histórica no futebol. No entanto, fez escolhas que transformaram seu nome em um dos mais desprezados da França.
Em vez de ser lembrado pelos feitos dentro de campo, Villaplane entrou para a história como colaborador do regime nazista durante a Segunda Guerra Mundial.
Sua participação em crimes brutais culminou em uma condenação à morte por fuzilamento, em 1944.
Do norte da África ao protagonismo no futebol francês
Alex Villaplane nasceu em 12 de setembro de 1905, em Argel, na Argélia, então território administrado pela França. Ainda adolescente, mudou-se para o país europeu para viver com os tios e buscar oportunidades no futebol.
Aos 16 anos, ingressou no FC Sète, onde chamou rapidamente a atenção do treinador escocês Victor Gibson. Graças à qualidade nos passes, à inteligência tática e ao excelente jogo aéreo, conquistou espaço na equipe principal.
Pouco depois, transferiu-se para o Nîmes. Na época, o futebol francês ainda mantinha oficialmente o status de amador. Apesar disso, diversos clubes encontravam maneiras de remunerar atletas, oferecendo empregos paralelos para driblar as regras.
Enquanto defendia o Nîmes, Villaplane consolidou seu espaço na seleção francesa. Primeiro disputou os Jogos Olímpicos de 1928.
Em seguida, recebeu a braçadeira de capitão da França na primeira Copa do Mundo, realizada no Uruguai, em 1930, atuando nas três partidas da equipe.
Fama, luxo e o início da decadência de Alex Villaplane
Depois do Mundial, a carreira começou a perder força. Aos poucos, Villaplane passou a dedicar mais tempo à vida social do que ao futebol.
Ele frequentava cabarés, eventos luxuosos e corridas de cavalos. Ao mesmo tempo, acumulava polêmicas.
Em 1932, enfrentou acusações de envolvimento na manipulação de uma partida entre Antibes e SC Fives Lille.
Mais tarde, transferiu-se para o Nice, mas colecionou faltas aos treinamentos, recebeu diversas multas e demonstrou pouco interesse dentro de campo. Como consequência, o clube rescindiu seu contrato.
Sem espaço no futebol profissional, Villaplane gastou rapidamente a fortuna conquistada nos gramados para sustentar um estilo de vida marcado pela ostentação.
Em 1935, voltou ao noticiário por outro escândalo. Dessa vez, recebeu punição por participar de esquemas envolvendo corridas de cavalos em Paris e na Costa Azul.
Segunda Guerra Mundial revelou seu lado mais cruel
Se os episódios anteriores já haviam destruído sua reputação esportiva, a Segunda Guerra Mundial marcou o capítulo mais sombrio de sua vida.
Depois que os nazistas ocuparam Paris, em junho de 1940, passaram a recrutar colaboradores franceses para perseguir judeus, integrantes da resistência e civis.
Entre esses colaboradores estava o policial corrupto Henri Lafont, que organizou uma poderosa quadrilha conhecida como Gestapo Francesa.
Dentro dessa estrutura surgiu a Brigade Nord Africain, unidade formada principalmente por imigrantes do norte da África.
Alex Villaplane integrou o grupo e rapidamente assumiu o posto de subcomandante. A motivação era simples: dinheiro.
Saques, assassinatos e terror
Sob o comando da organização, Villaplane participou de uma sequência de crimes que chocou a França.
Além de saquear propriedades, o grupo promovia estupros, execuções e perseguições contra civis. Testemunhas relataram episódios de extrema violência praticados pela unidade.
Durante o julgamento, o promotor descreveu a atuação da quadrilha em palavras contundentes:
“Eles saquearam, estupraram, roubaram, mataram e se uniram aos alemães por feitos ainda piores, efetuando as mais terríveis execuções. Deixaram fogo e destruição por onde passaram. Uma testemunha nos contou como viu com os próprios olhos esses mercenários pegando joias dos corpos ainda contorcidos e manchados de sangue das vítimas. Villaplane estava no meio disso tudo, calmo e sorridente.”
Relatos da época afirmam que o ex-capitão francês demonstrava tranquilidade durante as execuções e participava ativamente das operações conduzidas pela organização.
A tentativa frustrada de escapar da Justiça
Quando percebeu que a Alemanha caminhava para a derrota, Villaplane tentou mudar de lado.
Segundo depoimentos reproduzidos pelo jornal britânico The Guardian, ele passou a abordar civis franceses afirmando que também era vítima dos alemães. Em seguida, oferecia falsa proteção em troca de grandes quantias de dinheiro.
Uma testemunha afirmou que Villaplane dizia:
“Vivemos tempos terríveis. Sou um francês obrigado a usar uniforme alemão. Posso salvar vocês, mas preciso de 400 mil francos.”
Na prática, o ex-jogador explorava o desespero da população para enriquecer ainda mais.
O fim do primeiro capitão da França em Copas
Após a libertação de Paris, as autoridades prenderam Alex Villaplane e os principais integrantes da Gestapo Francesa.
O tribunal o considerou culpado por colaborar com os nazistas e participar de inúmeros crimes de guerra.
A Justiça francesa condenou Villaplane à pena de morte. Em 26 de dezembro de 1944, ele foi fuzilado no Forte de Montrouge, ao lado de Henri Lafont e de outros membros da organização criminosa.
Assim terminou a história daquele que, anos antes, havia carregado a braçadeira de capitão da França na primeira Copa do Mundo.
Em vez de ocupar lugar de destaque na memória do futebol, Alex Villaplane ficou conhecido como um dos maiores traidores da história francesa.






