Leia na íntegra a carta de renúncia de Casares à presidência do São Paulo

No texto, ex-mandatário garantiu que atuou com seriedade durante sua gestão no clube do Morumbi

Julio Casares renunciou à presidência do São Paulo

Julio Casares renunciou à presidência do São Paulo | Rubens Chiri/Sao Paulo FC

O então presidente afastado do São Paulo, Julio Casares, renunciou ao cargo no clube na tarde desta quarta-feira (21/1), em carta aberta publicada pelas redes sociais.

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No texto, o ex-mandatário garantiu que atuou com seriedade durante sua gestão, e disse que o afastamento sofrido na semana passada se tratou de um processo de natureza política.

Ele afirmou que boatos passaram a ser tratados como fatos, sem apresentação de provas consistentes. Leia a carta dele na íntegra ao fim deste texto.

Ação policial

A Polícia Civil deflagrou durante a manhã desta quarta uma operação contra um esquema de venda ilegal de camarotes no estádio Morumbis, do São Paulo Futebol Clube, na zona sudoeste da Capital.

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Ao todo, foram cumpridos quatro mandados de busca e apreensão, que mirou personalidades como Mara Casares, ex-mulher de Casares, e Douglas Schwartzmann, diretor adjunto de futebol de base do São Paulo.

A ação também incluiu Rita de Cássia Adriana Prado, apontado como responsável por explorar comercialmente um camarote da cantora Shakira, em fevereiro do ano passado.

A operação foi realizada pela 3ª Delegacia de Polícia de Investigações sobre Desmanches Delituosos (Dicca) após ordem judicial.

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Entenda a investigação

O suposto esquema de venda clandestina de camarotes para shows no Morumbis é investigado desde dezembro.

O foco do inquérito que apura coação é a ligação feita por Douglas e Mara para Adriana Prado, que adquiriu o camarote investigado. Nela, os então diretores tricolores pressionam a muher durante 40 minutos a retirar um processo judicial contra uma terceira pessoa que teria sublocado o camarote.

Na conversa, Mara e Douglas usam, eles próprios, o termo “clandestino” ao se referirem ao camarote.

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Em nota, o clube se disse vítima da suposta ação criminosa, e disse que vai contribuir com as investigações.

Afastamento de Casares

Após votação dos conselheiros do clube na noite de sexta-feira (17/1), Júlio Casares está afastado da presidência do São Paulo. O vice-presidente Harry Massis Júnior já assumiu o cargo.

Foram 188 votos contra Casares e 45 a favor da permanência, além de dois votos em branco. A destituição só será confirmada com a Assembleia Geral dos sócios, que tem 30 dias para ser marcada.

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A votação aconteceu após uma série de denúncias que mira a direção do clube e o mandatário tricolor. Entenda.

O que levou ao afastamento de Casares

O requerimento foi protocolado por conselheiros do São Paulo e se baseou, principalmente, na exploração clandestina de um camarote do estádio Morumbis, revelada pelo portal Globo Esportes em dezembro do ano passado.

O Ministério Público tem um inquérito civil e outro criminal para apurar os acontecimentos. No criminal, a Polícia Civil apura possíveis desvios de dinheiro do São Paulo.

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O órgão apura a razão do recebimento de R$ 1,5 milhão por depósitos em dinheiro nas contas de Casares. Outra investigação tenta explicar 35 saques nas contas do clube entre 2021 e 2025, totalizando R$ 11 milhões.

O inquérito civil apura também acusações de gestão temerária, a prescrição de canetas emagrecedoras para atletas e o modelo de negócio de um fundo de investimentos.

O Ministério Público emitiu ofício para ouvir mais de 25 pessoas relacionadas ao clube.

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Quem é Harry Massis Júnior

Harry tem 80 anos, é empresário e sócio do clube desde 1964. Conselheiro vitalício do São Paulo, ele já exerceu várias funções dentro do Tricolor.

Nos mundiais de 1992 e 1993, atuou como diretor adjunto administrativo e integrou a delegação nas conquistas internacionais. Quase 10 anos depois, entre 2001 e 2002, atuou como diretor adjunto de futebol.

Nos bastidores, faz parte do membro do grupo político conhecido como Vanguarda, que apoiava o então presidente, mas deixou a coalizão recentemente por conta das denúncias. Casares deixou a presidência após 188 votos a favor do processo de impeachment.

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Carta de Casares

Leia a carta de renúncia de Casares, na íntegra:

“Ao longo de minha trajetória à frente da Presidência do São Paulo Futebol Clube, atuei com absoluta seriedade, firmeza, responsabilidade e compromisso com a defesa da instituição, sempre orientado pelo respeito à sua história, à sua grandeza e à sua torcida.

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Nos últimos meses, o clube passou a viver um ambiente de intensa instabilidade, marcado por ataques reiterados, narrativas distorcidas e pressões externas que extrapolaram o debate institucional legítimo.

O que se iniciou como versões frágeis e boatos foi sendo reiteradamente reproduzido, amplificado e, gradativamente, tratado como verdade, mesmo sem a apresentação de fundamentos consistentes ou provas robustas.

Formou-se, assim, um contexto de grave contaminação do debate, no qual ilações passaram a ocupar o lugar dos fatos e suposições foram apresentadas como certezas, em um processo que, aos poucos, transformou versões construídas em verdades aparentes.

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Não afirmo, neste momento, autoria, métodos ou responsabilidades específicas, até porque tais questões devem ser devidamente apuradas pelos órgãos competentes. Contudo, é impossível ignorar que houve articulações de bastidores, distorções deliberadas e uma trama política ardilosa, marcada por interesses, traições institucionais e expedientes incompatíveis com a história e os valores do São Paulo Futebol Clube — fatos que o tempo e a história haverão de registrar.

Esse cenário afetou profundamente a governança do clube e, de forma absolutamente inaceitável, ultrapassou os limites da esfera institucional, alcançando minha família e minha vida pessoal.

Não renunciei anteriormente porque entendi ser meu dever exercer, até o fim, o direito à ampla defesa e ao contraditório.

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Enfrentei esse processo de maneira direta, presencial e com dignidade, mesmo diante de um ambiente já contaminado por narrativas previamente construídas.

Na prática, a manifestação realizada na tribuna foi o único espaço efetivo que me foi concedido para apresentar minha defesa, em um rito sumário que, ao meu juízo, restringiu a necessária produção de provas e o pleno esclarecimento dos fatos.

A decisão tomada por este Conselho encerra um processo de natureza política.

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Respeito essa decisão, ainda que dela discorde, e reafirmo, com absoluta convicção, que jamais pratiquei qualquer irregularidade.

Minha renúncia não representa confissão, reconhecimento de culpa ou validação das acusações que me foram dirigidas.

Diante da continuidade desse ambiente, da necessidade de preservar minha saúde e, sobretudo, de proteger minha família de ataques e ameaças gravíssimas, bem como para evitar que essa disputa política continue a prejudicar o time de futebol e o ambiente esportivo do clube, apresento minha renúncia ao cargo de Presidente, com efeitos a partir desta data, antecipando, inclusive, o exercício do direito estatutário de aguardar a Assembleia Geral.

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Faço questão de registrar que deixo um clube esportivamente estruturado, com um time competitivo, que voltou a disputar decisões, chegou a finais e conquistou títulos de grande relevância. Destaco, de forma especial, a conquista da Copa do Brasil de 2023, título inédito e histórico, que simboliza o trabalho sério, responsável e comprometido desenvolvido ao longo da gestão.

Esse desempenho é fruto do esforço conjunto de atletas, comissão técnica e profissionais do clube, aos quais manifesto meu respeito e confiança.

Tenho absoluta convicção de que seguirão honrando essa camisa e lutando por títulos, com o apoio da torcida e da instituição.

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Meu afastamento também tem como objetivo permitir que eventuais apurações ocorram de forma ampla, técnica e isenta, sem qualquer alegação de interferência, para que a verdade possa ser plenamente buscada e alcançada.

Reitero, por fim, minha certeza de que o São Paulo Futebol Clube é maior do que qualquer cargo, circunstância ou narrativa construída.

Ao São Paulo Futebol Clube, amor de infância e da minha vida, jamais renunciarei. Renuncio, sim, ao ambiente de conspirações, distorções, mentiras e disputas de poder que ultrapassaram os limites democráticos e tentaram manchar trajetórias, biografias e a própria história do clube.

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Despeço-me com respeito, gratidão e amor permanente por esta instituição, que sempre honrarei.

Julio Casares”