Um estudo recente do Instituto Sou da Paz escancara uma realidade dura e persistente no Brasil: 79% dos homens mortos por armas de fogo são negros.
Em outras palavras, homens negros têm três vezes mais chances de serem assassinados do que homens não negros.
A pesquisa, intitulada “Violência Armada e Racismo: o papel da arma de fogo na desigualdade racial”, mostra que a violência não se resume apenas à segurança pública, ela reflete desigualdades profundas de raça, gênero e território que atravessam o País.
O peso da raça e da idade
Os dados, consolidados a partir do Ministério da Saúde entre 2012 e 2022, revelam que as armas de fogo tiram a vida de quase 38 mil homens por ano no Brasil. Para cada três assassinatos, dois são cometidos com disparos de arma de fogo.
A desigualdade racial está no centro do problema. Como destaca Carolina Ricardo, diretora-executiva do Instituto Sou da Paz:
“A desigualdade racial está no cerne da mortalidade por arma de fogo no País.”
O recorte etário também impressiona: jovens de 20 a 29 anos enfrentam as taxas mais altas, com 89,3 mortes por 100 mil homens. Adolescentes entre 15 e 19 anos também estão entre os grupos mais vulneráveis.
Já crianças, idosos e homens mais velhos apresentam índices menores, embora ainda preocupantes.
Onde a violência acontece
Metade dos homicídios masculinos com armas de fogo ocorre em vias públicas. O que reforça o impacto direto na sensação de insegurança da população. Para adolescentes e jovens, a rua é o cenário mais recorrente.
Já crianças e idosos sofrem mais agressões dentro de casa, o que acende um alerta sobre o ambiente familiar.
Regionalmente, o Nordeste lidera com as maiores taxas de homicídios armados (57,9 por 100 mil homens), seguido pelo norte (49,1). Centro-Oeste, Sul e sudeste apresentam números menores, mas ainda significativos.
Violência não letal e o perfil dos agressores
A violência armada vai além dos casos fatais. Só em 2022, o Brasil registrou 4.702 notificações de violência não letal contra homens. Mais uma vez, a maioria das vítimas é negra em praticamente todas as regiões do País.
O perfil dos agressores vária. Em 46% dos casos, a autoria é desconhecida. Pessoas conhecidas da vítima aparecem em 17% das situações e policiais são responsáveis por 7% das agressões registradas.
Entre crianças, agressores conhecidos têm mais participação (32%), enquanto, para adolescentes e jovens adultos, policiais figuram em 9% das ocorrências.
Um desafio que exige respostas urgentes
Para o Instituto Sou da Paz, compreender esse cenário é fundamental para pensar soluções.
Carolina Ricardo reforça a necessidade de políticas públicas integradas, capazes de atuar sobre diferentes fatores de risco e enfrentar as vulnerabilidades que afetam, sobretudo, a população negra.
A violência armada no Brasil não pode ser vista apenas como um problema de criminalidade.
Ela carrega marcas históricas de racismo estrutural e desigualdade social. Reconhecer isso é o primeiro passo para que a sociedade pressione por mudanças e por políticas que salvem vidas.
