Milton Isizuka aprendeu a colher um morango sem realmente tocar nele. O fruto pode estar maduro, perfumado e pronto para sair da planta, mas os dedos precisam ficar no caule. Uma pressão no lugar errado deixa marcas na superfície.
Ao lado de Marlete, Milton repete esse cuidado em Suzano, na Região Metropolitana de São Paulo. O casal cultiva os raros morangos Toyonoka desde 1987, quando, segundo a filha Kelly Isizuka, recebeu três mudas de um amigo agrônomo japonês.
Quase quatro décadas depois, aquela pequena experiência virou uma produção tão sofisticada que chefs deixam a capital para buscá-la. Victor Valadão, dos restaurantes Mapu e Aiô, percorre cerca de 75 quilômetros até a propriedade quando precisa do ingrediente. A família não oferece entregas.
Fruta delicada
A raridade em Suzano também nasce do trabalho necessário para mantê-la. Milton e Marlete cuidam diretamente da Toyonoka, enquanto a propriedade ainda produz outra variedade de morango, a Valentina, além de hortaliças. A produção permanece limitada ao que o casal consegue acompanhar.
Na colheita, o cuidado chega aos dedos. Milton explicou que a fruta deve ser retirada pelo caule, porque o contato pode deixar marcas. Além da aparência delicada, um estudo publicado na Scientia Horticulturae indica que temperaturas elevadas afetam a Toyonoka, reduzindo a frutificação e o tamanho dos frutos em determinadas condições experimentais.
A safra da família vai de junho a setembro, mas a disputa começa antes de qualquer morango amadurecer. Segundo Kelly, em janeiro já aparecem interessados. Em São Paulo, a produção fornecida pela família chega ao Mapu, na Vila Mariana e ao Aiô.
75 quilômetros
Para Valadão, buscar o morango se tornou parte da relação com o ingrediente. A viagem também ganhou caráter de peregrinação gastronômica: funcionários dos restaurantes visitam o sítio e conhecem a produção que depois aparece transformada nas cozinhas da Vila Mariana.
No começo de setembro de 2026, o Mapu previa usar a Toyonoka em uma sobremesa com crumble, bolo francês de amêndoa, sorvete, geleia e mochi. No Aiô, a fruta aparecia em uma raspadinha de saquê acompanhada de feijão branco, morango fermentado, merengue e folha de gergelim.








