Esse peixe vive mais de 100 anos, tem 20kg e pode estar sumindo do mundo; conheça a espécie que parece nunca envelhecer

Pesquisas revelam que espécie pode viver até 127 anos, mas quase não produz adultos jovens; agora, cientistas tentam descobrir por que os filhotes não chegam à maturidade

Considerado o peixe de água doce mais longevo do mundo, o peixe-búfalo-boca-grande intriga cientistas por sua resistência ao envelhecimento e enfrenta uma ameaça silenciosa (Foto: Divulgação/Universidade de Minnesota Duluth)

Considerado o peixe de água doce mais longevo do mundo, o peixe-búfalo-boca-grande intriga cientistas por sua resistência ao envelhecimento e enfrenta uma ameaça silenciosa (Foto: Divulgação/Universidade de Minnesota Duluth)

Se você observar as águas do Lago Rice, em Minnesota, nos Estados Unidos, durante a primavera, poderá encontrar peixes enormes entre as plantas de arroz selvagem. Alguns deles, porém, escondem uma idade surpreendente.

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São os peixes-búfalos-boca-grande, considerados os peixes de água doce mais longevos do mundo. Pesquisas já identificaram exemplares com até 127 anos, mas a espécie enfrenta um problema que pode ser decisivo para seu futuro.

Isso porque os animais adultos continuam vivendo por décadas, enquanto seus filhotes parecem desaparecer antes de chegar à maturidade. O resultado é uma população cada vez mais velha e uma ameaça que, por enquanto, permanece difícil de enxergar.

Um peixe que parece desafiar o envelhecimento

Nativos da América do Norte, os peixes-búfalos-boca-grande podem ultrapassar 23 quilos e vivem em rios e lagos dos Estados Unidos e do Canadá. Durante a primavera, eles migram para se reproduzir.

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Por muito tempo, porém, a espécie recebeu pouca atenção dos pesquisadores. Vista como um peixe “não comercial”, ela acabou sendo considerada pouco relevante para a pesca e também para os estudos científicos.

Essa percepção começou a mudar quando o pesquisador Alec Lackmann analisou estruturas chamadas otólitos, encontradas no ouvido dos peixes. Assim como os anéis de uma árvore, elas registram marcas que ajudam a determinar a idade.

“O primeiro peixe-búfalo-boca-grande que examinei tinha quase 90 anos de idade”, ele conta, em entrevista à CNN. “Fiquei pensando ‘uau, meu Deus’… No início, era difícil acreditar.”

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Idade parece não pesar para esses animais

A descoberta levou cientistas a investigar se os peixes também apresentavam sinais de envelhecimento biológico. Para isso, pesquisadores observaram indicadores como células do sistema imunológico e o comprimento dos telômeros.

Essas estruturas de DNA costumam encurtar com o passar do tempo e podem indicar processos relacionados ao envelhecimento. No peixe-búfalo-boca-grande, entretanto, os resultados foram diferentes do esperado.

O estudo, publicado na revista Nature, não encontrou sinais claros de declínio biológico com a idade. Pelo contrário, alguns indicadores apontaram para um funcionamento imunológico aparentemente melhor entre os animais mais velhos.

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“O estudo indicou que, na verdade, não estávamos observando declínio com a idade naqueles organismos”, afirma a bióloga Britt Heidinger. Ainda assim, os cientistas não sabem exatamente como isso acontece.

O mistério dos filhotes que desaparecem

Enquanto os adultos parecem resistir ao tempo, outro fenômeno chama atenção. No Lago Rice, os peixes se reproduzem todos os anos e produzem muitos filhotes, mas os jovens desaparecem antes do fim do verão.

Em uma amostra de 390 animais, 389 tinham mais de 50 anos. A idade média chegou a 79 anos, indicando que quase toda aquela população nasceu antes ou pouco depois do fim da Segunda Guerra Mundial.

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Segundo Lackmann, não existe uma geração bem-sucedida de jovens peixes-búfalos-boca-grande há mais de seis décadas. “Todo peixe jovem que sobreviveu após 1957 é estatisticamente atípico.”

Predadores podem estar por trás do problema

Uma das hipóteses levantadas pelos pesquisadores envolve o lúcio, outro peixe nativo que também se reproduz no Lago Rice. Como seus filhotes surgem antes, eles podem se alimentar dos jovens peixes-búfalos-boca-grande.

No entanto, essa é apenas uma possibilidade. Os cientistas também investigam se mudanças no ambiente, como a construção de barragens, alteraram os locais usados pela espécie para reprodução.

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“Para mim, é meio que a pergunta do ovo e da galinha”, explica Walt Ford, gerente do Refúgio Nacional da Vida Selvagem do Lago Rice. Ainda não se sabe se a longevidade veio primeiro ou se foi uma resposta à dificuldade de reprodução.

Espécie antiga diante de uma ameaça moderna

A situação preocupa porque os peixes adultos têm poucos predadores naturais, enquanto a pesca humana pode aumentar a pressão sobre uma população que demora décadas para se renovar.

“Esta é uma das populações de animais mais idosas do mundo e não existe gestão, nem proteção da espécie”, afirma Lackmann. Em Minnesota, por exemplo, não há limite para o número de pescadores autorizados simultaneamente.

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“Muitas vezes, encontramos pilhas de peixes descartados a pouca distância umas das outras”, conta Ford. Além disso, a espécie ainda pode ser confundida com carpas invasoras, apesar de ser nativa e cumprir um papel no ecossistema.

Tempo pode estar contra o peixe centenário

Os pesquisadores ainda desconhecem informações básicas sobre a espécie, como seus padrões de migração, tolerância às mudanças de temperatura e tamanho real das populações.

“Grande parte da biologia elementar do peixe-búfalo-boca-grande é desconhecida”, explica a ecologista Eva Enders. Para ela, preencher essas lacunas é essencial para entender como as mudanças climáticas podem afetar o animal.

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Por isso, especialistas defendem que novas pesquisas avancem antes que os peixes mais velhos desapareçam. A espécie pode guardar pistas importantes sobre o envelhecimento, mas também enfrenta uma corrida contra o tempo.

“Precisamos acelerar nossas pesquisas sobre este tema”, destaca Ford. “Parece urgente.” Afinal, quanto mais a população envelhece sem uma nova geração, menor pode ser a margem para descobrir o que está acontecendo.