Quando pensamos na preservação dos oceanos, a imagem que costuma vir à cabeça é quase sempre a mesma: tartarugas marinhas presas em canudos de plástico, baleias saltando no horizonte ou golfinhos simpáticos.
Essa abordagem focada na “fofofauna”, nome atribuído aos animais marinhos carismáticos que estampam campanhas ambientais, tem cumprido seu papel de sensibilização há anos, mas a questão é mais profunda.
No Painel “De costas para o mar: por que o oceano ainda não virou manchete no Brasil?” apresentado no 21º Congresso da Abraji deste ano, Ademilson Zamboni, diretor-geral da Oceana Brasil, Jéssica Maes, repórter da Folha de S. Paulo, e Bernardo Esteves, repórter da Revista Piauí, ajudaram a entender isso melhor.
Qual a importância dos oceanos?
O oceano não é apenas um aquário gigante povoado por espécies de animais; ele é o motor do sistema climático do planeta, o maior amortecedor do aquecimento global e uma arena geopolítica e econômica em disputa.
Continuar enxergando o mar sob a ótica da “escala do pedestre”, aquela em que só nos importamos com o que vai até onde dá pé, nos impede de agir com a urgência que a emergência climática exige.
Então como olhamos para ele da forma correta?
Como apontaram os especialistas, o oceano está na linha de frente das mudanças climáticas. Ele absorve cerca de 90% do excesso de calor aprisionado na Terra pelos gases de efeito estufa e captura vastas quantidades de dióxido de carbono (CO2). No entanto, essa regulação custa caro: a água esquenta, acidifica e perde oxigênio.
Não falar criticamente sobre o oceano beneficia justamente quem não quer frear a produção industrial e o uso de combustíveis fósseis. No Brasil, o debate ambiental costuma ser drenado pelo desmatamento na Amazônia e no Cerrado para a criação de pastos. Embora fundamental, essa pauta ofusca o fato de que a emergência climática também ocorre na água.
Além disso, nosso desconhecimento sobre o mar ainda é profundo. “Quando você acha que descobriu algo novo, percebe que não é nem a ponta do iceberg”, lembra Zamboni. Um exemplo disso é a descoberta recente de corais em zonas abissais que sequer precisam de luz solar para se desenvolver, quebrando paradigmas científicos consolidados.
Impacto atinge comunidades diretamente
A negligência com as águas recai com mais força sobre as populações locais. As comunidades caiçaras e ribeirinhas perdem historicamente seus territórios, sua cultura e sua identidade à medida que os oceanos são degradados ou privatizados pela especulação e pesca predatória.
Os especialistas reforçam que também há uma falha estrutural no meio científico e na cobertura mediática: cientistas muitas vezes extraem dados e conhecimentos tradicionais dessas populações, mas não devolvem diagnósticos nem as incluem no processo decisório.
No cenário socioeconômico brasileiro, os dados são alarmantes. O Brasil figura como um dos maiores exportadores de plástico (derivado do petróleo), enquanto diversos países já baniram plásticos de uso único. O microplástico já está presente na cadeia alimentar e no corpo humano.
Países vizinhos como Chile e Peru figuram entre as maiores potências pesqueiras do mundo, enquanto o Brasil ainda peca na fiscalização e no manejo das suas zonas costeiras. O Brasil conta com grandes unidades de conservação e parques marítimos, mas muitas vezes não entendemos a função prática dessas áreas protegidas, enxergando-as apenas como fonte de conflito econômico.
Estudos mostram o contrário: quando áreas de preservação rigorosa são criadas, como a proibição da pesca de arrasto em determinadas regiões do Rio Grande do Sul, por exemplo, o resultado é o “transbordamento” da biodiversidade. A vida marinha se multiplica dentro do parque e transborda para fora dele, beneficiando inclusive os próprios pescadores das regiões no entorno.
Ação individual vs. políticas públicas: a “Lei do Mar”
O discurso de que “o mundo está sofrendo e você precisa salvar o planeta sozinho apagando a luz ou recusando um canudo” tira a responsabilidade de onde ela realmente deve estar: nas políticas públicas e nas grandes corporações.
Sem políticas estatais robustas, ações individuais são apenas gotas no oceano. É por isso que ganha força a urgência de debates como a Lei do Mar (PL do Oceano), que visa estabelecer diretrizes nacionais para o uso sustentável e a preservação do patrimônio marinho brasileiro.
Como destaca a oceanografa Letícia Carvalho, considerada uma das maiores autoridades mundiais no tema e secretária-geral da Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos (ISA), o oceano está profundamente conectado a tudo: com os rios, com o saneamento básico, com o clima das cidades do interior e com a economia global.
Pautas urgentes para o ficarmos de olho
Para fugir do lugar-comum e do apelo superficial, é preciso olhar para o oceano sob novas perspectivas e compreender os impactos que acontecem muito além da faixa de areia. A mineração no fundo do mar, por exemplo, revela uma corrida corporativa e geopolítica pelos minérios presentes no leito marinho, levantando preocupações sobre possíveis impactos ambientais irreversíveis.
A emergência climática também precisa ser observada a partir do que acontece debaixo d’água. O aquecimento das correntes marinhas pode interferir diretamente nas safras agrícolas e contribuir para alterações nos padrões de tempestades que atingem as cidades brasileiras. Ao mesmo tempo, a presença de plásticos na saúde humana ganha cada vez mais atenção diante da identificação de polímeros e microplásticos na corrente sanguínea e em órgãos do corpo.
Outro ponto fundamental é entender que saneamento básico também é uma pauta marinha. O esgoto produzido em cidades do interior pode percorrer rios e chegar ao oceano, afetando a biodiversidade e criando impactos que também dizem respeito à saúde pública.
O oceano está longe de ser apenas um cenário para fotos bonitas de animais marinhos. Ele é uma engrenagem viva e essencial para a manutenção das condições que tornam o planeta habitável. Já passou da hora de tratá-lo com a gravidade, a atenção e a centralidade que sua importância exige.






