‘Fofofauna não é tudo que tem no oceano’: especialistas explicam importância dos mares além dos virais de animais queridos

Oceano não é apenas um aquário gigante povoado por espécies de animais; ele é motor do sistema climático do planeta, maior amortecedor do aquecimento global e arena geopolítica em disputa

Baleias-jubarte voltam a encantar turistas em Ilhabela durante a temporada de migração pelo litoral brasileiro (Reprodução: YouTube)

O oceano está longe de ser apenas um cenário para fotos bonitas de animais marinhos/ Foto: YouTube

Quando pensamos na preservação dos oceanos, a imagem que costuma vir à cabeça é quase sempre a mesma: tartarugas marinhas presas em canudos de plástico, baleias saltando no horizonte ou golfinhos simpáticos. 

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Essa abordagem focada na “fofofauna”, nome atribuído aos animais marinhos carismáticos que estampam campanhas ambientais, tem cumprido seu papel de sensibilização há anos, mas a questão é mais profunda.

No Painel “De costas para o mar: por que o oceano ainda não virou manchete no Brasil?” apresentado no 21º Congresso da Abraji deste ano, Ademilson Zamboni, diretor-geral da Oceana Brasil, Jéssica Maes, repórter da Folha de S. Paulo, e Bernardo Esteves, repórter da Revista Piauí, ajudaram a entender isso melhor.

Qual a importância dos oceanos?

O oceano não é apenas um aquário gigante povoado por espécies de animais; ele é o motor do sistema climático do planeta, o maior amortecedor do aquecimento global e uma arena geopolítica e econômica em disputa. 

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Continuar enxergando o mar sob a ótica da “escala do pedestre”, aquela em que só nos importamos com o que vai até onde dá pé, nos impede de agir com a urgência que a emergência climática exige.

Então como olhamos para ele da forma correta?

Como apontaram os especialistas, o oceano está na linha de frente das mudanças climáticas. Ele absorve cerca de 90% do excesso de calor aprisionado na Terra pelos gases de efeito estufa e captura vastas quantidades de dióxido de carbono (CO2). No entanto, essa regulação custa caro: a água esquenta, acidifica e perde oxigênio.

Não falar criticamente sobre o oceano beneficia justamente quem não quer frear a produção industrial e o uso de combustíveis fósseis. No Brasil, o debate ambiental costuma ser drenado pelo desmatamento na Amazônia e no Cerrado para a criação de pastos. Embora fundamental, essa pauta ofusca o fato de que a emergência climática também ocorre na água.

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Além disso, nosso desconhecimento sobre o mar ainda é profundo. “Quando você acha que descobriu algo novo, percebe que não é nem a ponta do iceberg”, lembra Zamboni. Um exemplo disso é a descoberta recente de corais em zonas abissais que sequer precisam de luz solar para se desenvolver, quebrando paradigmas científicos consolidados.

Impacto atinge comunidades diretamente

A negligência com as águas recai com mais força sobre as populações locais. As comunidades caiçaras e ribeirinhas perdem historicamente seus territórios, sua cultura e sua identidade à medida que os oceanos são degradados ou privatizados pela especulação e pesca predatória.

Os especialistas reforçam que também há uma falha estrutural no meio científico e na cobertura mediática: cientistas muitas vezes extraem dados e conhecimentos tradicionais dessas populações, mas não devolvem diagnósticos nem as incluem no processo decisório.

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No cenário socioeconômico brasileiro, os dados são alarmantes. O Brasil figura como um dos maiores exportadores de plástico (derivado do petróleo), enquanto diversos países já baniram plásticos de uso único. O microplástico já está presente na cadeia alimentar e no corpo humano.

Países vizinhos como Chile e Peru figuram entre as maiores potências pesqueiras do mundo, enquanto o Brasil ainda peca na fiscalização e no manejo das suas zonas costeiras. O Brasil conta com grandes unidades de conservação e parques marítimos, mas muitas vezes não entendemos a função prática dessas áreas protegidas, enxergando-as apenas como fonte de conflito econômico.

Estudos mostram o contrário: quando áreas de preservação rigorosa são criadas, como a proibição da pesca de arrasto em determinadas regiões do Rio Grande do Sul, por exemplo, o resultado é o “transbordamento” da biodiversidade. A vida marinha se multiplica dentro do parque e transborda para fora dele, beneficiando inclusive os próprios pescadores das regiões no entorno.

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Ação individual vs. políticas públicas: a “Lei do Mar”

O discurso de que “o mundo está sofrendo e você precisa salvar o planeta sozinho apagando a luz ou recusando um canudo” tira a responsabilidade de onde ela realmente deve estar: nas políticas públicas e nas grandes corporações.

Sem políticas estatais robustas, ações individuais são apenas gotas no oceano. É por isso que ganha força a urgência de debates como a Lei do Mar (PL do Oceano), que visa estabelecer diretrizes nacionais para o uso sustentável e a preservação do patrimônio marinho brasileiro.

Como destaca a oceanografa Letícia Carvalho, considerada uma das maiores autoridades mundiais no tema e secretária-geral da Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos (ISA), o oceano está profundamente conectado a tudo: com os rios, com o saneamento básico, com o clima das cidades do interior e com a economia global.

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Pautas urgentes para o ficarmos de olho

Para fugir do lugar-comum e do apelo superficial, é preciso olhar para o oceano sob novas perspectivas e compreender os impactos que acontecem muito além da faixa de areia. A mineração no fundo do mar, por exemplo, revela uma corrida corporativa e geopolítica pelos minérios presentes no leito marinho, levantando preocupações sobre possíveis impactos ambientais irreversíveis.

A emergência climática também precisa ser observada a partir do que acontece debaixo d’água. O aquecimento das correntes marinhas pode interferir diretamente nas safras agrícolas e contribuir para alterações nos padrões de tempestades que atingem as cidades brasileiras. Ao mesmo tempo, a presença de plásticos na saúde humana ganha cada vez mais atenção diante da identificação de polímeros e microplásticos na corrente sanguínea e em órgãos do corpo.

Outro ponto fundamental é entender que saneamento básico também é uma pauta marinha. O esgoto produzido em cidades do interior pode percorrer rios e chegar ao oceano, afetando a biodiversidade e criando impactos que também dizem respeito à saúde pública.

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O oceano está longe de ser apenas um cenário para fotos bonitas de animais marinhos. Ele é uma engrenagem viva e essencial para a manutenção das condições que tornam o planeta habitável. Já passou da hora de tratá-lo com a gravidade, a atenção e a centralidade que sua importância exige.