Quando Sônia se senta ao lado de Raskólnikov, numa manhã fria às margens de um rio da Sibéria, quase nada mudou ao redor deles. Ele continua preso, condenado a trabalhos forçados. Restam sete anos de pena. O passado também continua irreparável.
Ainda assim, alguma coisa muda. Raskólnikov segura a mão da mulher que o acompanhou até o exílio, cai aos seus pés e chora. É nesse momento que Fiódor Dostoiévski escreve uma das passagens mais famosas de Crime e Castigo.
“Eles foram ressuscitados pelo amor; o coração de cada um continha fontes infinitas de vida para o coração do outro.”
Um homem isolado
A cena é a virada de chave após Dostoiévski passar centenas de páginas construindo o contrário. Raskólnikov se isola, transforma pessoas em abstrações e tenta viver segundo uma teoria que o coloca acima das regras morais comuns. Depois de assassinar duas mulheres, essa distância só aumenta.
Na prisão, o afastamento continua. Ele quase não conversa, é rejeitado pelos outros detentos e recebe Sônia com frieza. Aos poucos, porém, as visitas dela se tornam uma necessidade. Quando Sônia adoece e deixa de aparecer, Raskólnikov percebe que está esperando por ela.
Dostoiévski não estava escrevendo um manual de psiquiatria, e seria um erro transformar Raskólnikov em alguma espécie de diagnóstico. Mas o movimento literário é claro: o personagem passa do isolamento para o vínculo, e é justamente nessa passagem que o autor escolhe falar em renascimento.
Quase 160 anos depois, essa imagem encontra um paralelo inesperado fora da literatura. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que mais de 1 bilhão de pessoas vivem atualmente com algum transtorno mental.

Remédio não é tudo
Medicamentos são fundamentais e salvam vidas. Porém, as evidências enfraquecem uma abordagem simples para lidar com os transtornos: a ideia de que uma crise tão ampla possa ser enfrentada apenas por meio de comprimidos.
Uma revisão sistemática publicada em 2024 na Frontiers in Psychiatry reuniu 19 ensaios clínicos com mais de mil adultos diagnosticados com depressão. Os pesquisadores compararam os resultados de pacientes tratados com psicoterapia, medicamentos antidepressivos ou uma combinação das duas abordagens.
No acompanhamento após o fim do tratamento, psicoterapia e tratamento combinado apresentaram vantagens sobre o uso isolado de medicamentos em alguns indicadores de recaída e recorrência. O resultado não invalida os antidepressivos, mas reforça que o cuidado pode exigir estratégias complementares e acompanhamento contínuo.
Epidemia de solidão
Existe ainda outro lado dessa história. Em 2025, uma comissão da OMS estimou que uma em cada seis pessoas no mundo está em um quadro de solidão. Entre adolescentes e jovens adultos, a proporção chega aproximadamente a uma em cinco.
Apesar de a solidão não ser um sinônimo de transtorno mental, a OMS associa a desconexão social à maior ocorrência de depressão e ansiedade. Dessa maneira, a organização passou a defender a conexão social como questão de saúde pública.








