Um grupo de especialistas e pesquisadores brasileiros está em alerta máximo e pede a revisão urgente de uma decisão judicial que autoriza o abate de jumentos no Brasil.
Por meio de uma carta aberta, cientistas de instituições renomadas como USP, Unesp e UFBA denunciam que a prática coloca a espécie em risco real de extinção, além de ser economicamente inviável e juridicamente questionável.
Declínio de 94% e a pressão do mercado chinês
O cenário para o animal, que é símbolo cultural especialmente no Nordeste, é crítico: entre 1996 e 2024, a população de jumentos no País despencou 94%. O principal motor dessa drástica redução é o abate predatório para exportação de couro para a China.
O mercado chinês utiliza a pele dos animais para produzir o ejiao, um produto derivado do colágeno.
De acordo com os pesquisadores, a atividade é puramente extrativista e não possui uma cadeia produtiva organizada, já que a reprodução dos jumentos é lenta – com gestações de 12 meses – o que impede a reposição dos animais no ritmo do abate.
A procura por este material tem provocado uma queda expressiva na população desses animais em vários países, inclusive no Brasil.
Entre 1996 e 2025, mais de um milhão de jumentos foram abatidos no País, reduzindo o rebanho nacional de 1,37 milhão de animais para cerca de 78 mil.
Decisão judicial polêmica
Oficialmente, o abate estava suspenso na Bahia desde 2020 por decisões judiciais. No entanto, no final de 2025, o Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1) decidiu favoravelmente à retomada da prática, justificando a importância econômica para as cidades que possuem abatedouros.
A comunidade científica rebate esse argumento, afirmando que a contribuição dessa indústria para as exportações brasileiras é insignificante (menos de 0,000003% do total) e que não houve aumento real na arrecadação de impostos nos municípios sede.
Riscos à saúde e à constituição
Além do risco ambiental, a carta aberta destaca outros perigos graves:
- Afronta à constituição: a prática violaria o artigo 225, que veda a extinção de espécies e a crueldade animal;
- Riscos sanitários: estudos identificaram falhas no controle sanitário dos animais destinados ao abate, o que pode facilitar a transmissão de doenças para seres humanos;
- Irregularidades: há denúncias de trabalho infantil e condições análogas à escravidão na cadeia produtiva.
Defesa do patrimônio nacional
Diante do colapso previsto, os especialistas defendem que o jumento nordestino seja reconhecido oficialmente como patrimônio genético, cultural e ambiental do Brasil.
O objetivo é implementar políticas públicas de conservação que impeçam o desaparecimento definitivo da espécie em solo nacional.


