Maior concentração de pegadas de dinossauro do mundo não fica no chão, mas sim em um paredão de 110 metros de altura

O que parece um enorme mural de pegadas de dinossauros é, na verdade, o resultado de milhões de anos de transformações geológicas que mudaram completamente a paisagem

Na Bolívia, milhares de pegadas fossilizadas estão preservadas em um paredão inclinado (Foto: Reprodução/Youtube/@paradiseonabudget)

Na Bolívia, milhares de pegadas fossilizadas estão preservadas em um paredão inclinado (Foto: Reprodução/Youtube/@paradiseonabudget)

Imagine encontrar milhares de pegadas de dinossauros e descobrir que elas não estão espalhadas pelo chão, como seria esperado. Em Cal Orcko, na Bolívia, os rastros aparecem em uma enorme parede rochosa.

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O cenário parece desafiar a lógica, mas a explicação está justamente na história da Terra. Os animais caminharam sobre antigos sedimentos que, milhões de anos depois, foram transformados em rocha e elevados pela formação dos Andes.

O detalhe que torna o local ainda mais impressionante é a quantidade de rastros preservados. O paredão de Cal Orcko reúne mais de 5 mil pegadas fossilizadas e se estende por cerca de 1.200 metros, com trechos que chegam a 110 metros de altura.

Um estudo brasileiro publicado na revista Transformar explica que o local é considerado um dos mais importantes registros de icnofósseis do mundo.

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Tudo começou com uma paisagem diferente

Quando os dinossauros caminhavam pela região, o cenário era bem diferente do atual. Segundo o estudo, a área estava associada a ambientes aquáticos e a antigos mares internos, onde os animais deixaram suas marcas sobre sedimentos ainda moles.

Com o passar do tempo, esses materiais foram soterrados e sofreram litificação, processo que transforma sedimentos em rocha. Assim, as pegadas ficaram preservadas no próprio registro geológico da região.

Os rastros pertencem principalmente a dinossauros dos grupos dos saurópodes e terópodes. A análise das marcas também permite estudar o tamanho dos animais, o modo como caminhavam e até possíveis comportamentos sociais.

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O estudo ressalta que “os icnofósseis são importantes ferramentas para o estudo da paleontologia”, justamente porque as marcas deixadas pelos animais ajudam a reconstruir aspectos da vida no passado que nem sempre aparecem nos fósseis corporais.

Por que as pegadas estão na parede?

A resposta está muito longe de uma caminhada vertical dos dinossauros. Eles não subiram pelo paredão que os visitantes observam hoje. Na época, a superfície onde deixaram as marcas era essencialmente horizontal.

O que mudou foi a própria paisagem. De acordo com o artigo, os sedimentos já endurecidos foram deformados e elevados por processos geológicos relacionados à formação da Cordilheira dos Andes.

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A colisão entre as placas tectônicas de Nazca e a Sul-Americana provocou transformações profundas na região. Com o levantamento do terreno, as camadas que antes estavam em outra posição passaram a formar o grande paredão.

É justamente essa sequência de acontecimentos que ajuda a explicar a aparência incomum do lugar.

@brunobrezenski

PAREDÃO DE CAL ORCK’O 🦕 Mais uma evidência científica da movimentação das placas tecntônicas que ergeram a Cordilheira dos Andes. Dessa vez a evidência vem de uma dos maiores dinassauros que ja andaram sobre a Terra, o Titanossauro deixou suas pegadas e nos revelou mais do que imaginávamos. #ciencia #curiosidades #paleontologia #geologia #conhecimento

♬ som original – Bruno Brezenski – Bruno Brezenski

Transformação em milhões de anos

É justamente essa transformação que cria a ilusão mais curiosa de Cal Orcko. As pegadas continuam registradas na mesma camada de rocha, mas a posição dessa camada mudou ao longo de milhões de anos.

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Por isso, quem observa o local hoje pode ter a impressão de que os dinossauros caminharam por uma parede. Na realidade, foram as forças geológicas que alteraram a paisagem e deixaram exposto o antigo registro de seus passos.

O paredão atual tem uma inclinação de aproximadamente 72 graus. Assim, a formação geológica virou uma espécie de mural natural, onde diferentes trilhas aparecem distribuídas em várias direções e alturas.

O resultado é um dos cenários mais curiosos da paleontologia. Em vez de encontrar as marcas no solo, os visitantes observam as trilhas fossilizadas em uma superfície inclinada, que permite visualizar a dimensão do antigo ambiente de uma maneira incomum.

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Registro raro da vida pré-histórica

Além do impacto visual, Cal Orcko ajuda pesquisadores a entender como era a vida na região durante o Cretáceo. As diferentes formas e trajetórias das pegadas fornecem pistas sobre os animais que circulavam pelo ambiente.

O estudo também destaca que os rastros podem indicar comportamentos sociais entre alguns grupos de dinossauros. Além disso, a região preserva informações sobre a fauna e a flora que existiam naquele antigo ambiente.

As marcas também ajudam a compreender a movimentação dos animais. Como cada trilha registra uma sequência de passos, os pesquisadores conseguem observar padrões que contribuem para identificar deslocamentos e características dos dinossauros que passaram pelo local.

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A descoberta das pegadas ocorreu em 1985, após intervenções no terreno de uma empresa de cimento. Entre 1994 e 1998, o paleontólogo suíço Christian Meyer ajudou a reconhecer a importância do achado para a paleontologia.

Hoje, o paredão integra o Parque Cretácico de Cal Orcko, próximo a Sucre, capital constitucional da Bolívia. O local também ganhou réplicas de dinossauros em tamanho natural, mas é a parede que guarda a atração mais surpreendente.