Imagine encontrar milhares de pegadas de dinossauros e descobrir que elas não estão espalhadas pelo chão, como seria esperado. Em Cal Orcko, na Bolívia, os rastros aparecem em uma enorme parede rochosa.
O cenário parece desafiar a lógica, mas a explicação está justamente na história da Terra. Os animais caminharam sobre antigos sedimentos que, milhões de anos depois, foram transformados em rocha e elevados pela formação dos Andes.
O detalhe que torna o local ainda mais impressionante é a quantidade de rastros preservados. O paredão de Cal Orcko reúne mais de 5 mil pegadas fossilizadas e se estende por cerca de 1.200 metros, com trechos que chegam a 110 metros de altura.
Um estudo brasileiro publicado na revista Transformar explica que o local é considerado um dos mais importantes registros de icnofósseis do mundo.
Tudo começou com uma paisagem diferente
Quando os dinossauros caminhavam pela região, o cenário era bem diferente do atual. Segundo o estudo, a área estava associada a ambientes aquáticos e a antigos mares internos, onde os animais deixaram suas marcas sobre sedimentos ainda moles.
Com o passar do tempo, esses materiais foram soterrados e sofreram litificação, processo que transforma sedimentos em rocha. Assim, as pegadas ficaram preservadas no próprio registro geológico da região.
Os rastros pertencem principalmente a dinossauros dos grupos dos saurópodes e terópodes. A análise das marcas também permite estudar o tamanho dos animais, o modo como caminhavam e até possíveis comportamentos sociais.
O estudo ressalta que “os icnofósseis são importantes ferramentas para o estudo da paleontologia”, justamente porque as marcas deixadas pelos animais ajudam a reconstruir aspectos da vida no passado que nem sempre aparecem nos fósseis corporais.

Por que as pegadas estão na parede?
A resposta está muito longe de uma caminhada vertical dos dinossauros. Eles não subiram pelo paredão que os visitantes observam hoje. Na época, a superfície onde deixaram as marcas era essencialmente horizontal.
O que mudou foi a própria paisagem. De acordo com o artigo, os sedimentos já endurecidos foram deformados e elevados por processos geológicos relacionados à formação da Cordilheira dos Andes.
A colisão entre as placas tectônicas de Nazca e a Sul-Americana provocou transformações profundas na região. Com o levantamento do terreno, as camadas que antes estavam em outra posição passaram a formar o grande paredão.
É justamente essa sequência de acontecimentos que ajuda a explicar a aparência incomum do lugar.
Transformação em milhões de anos
É justamente essa transformação que cria a ilusão mais curiosa de Cal Orcko. As pegadas continuam registradas na mesma camada de rocha, mas a posição dessa camada mudou ao longo de milhões de anos.
Por isso, quem observa o local hoje pode ter a impressão de que os dinossauros caminharam por uma parede. Na realidade, foram as forças geológicas que alteraram a paisagem e deixaram exposto o antigo registro de seus passos.
O paredão atual tem uma inclinação de aproximadamente 72 graus. Assim, a formação geológica virou uma espécie de mural natural, onde diferentes trilhas aparecem distribuídas em várias direções e alturas.
O resultado é um dos cenários mais curiosos da paleontologia. Em vez de encontrar as marcas no solo, os visitantes observam as trilhas fossilizadas em uma superfície inclinada, que permite visualizar a dimensão do antigo ambiente de uma maneira incomum.

Registro raro da vida pré-histórica
Além do impacto visual, Cal Orcko ajuda pesquisadores a entender como era a vida na região durante o Cretáceo. As diferentes formas e trajetórias das pegadas fornecem pistas sobre os animais que circulavam pelo ambiente.
O estudo também destaca que os rastros podem indicar comportamentos sociais entre alguns grupos de dinossauros. Além disso, a região preserva informações sobre a fauna e a flora que existiam naquele antigo ambiente.
As marcas também ajudam a compreender a movimentação dos animais. Como cada trilha registra uma sequência de passos, os pesquisadores conseguem observar padrões que contribuem para identificar deslocamentos e características dos dinossauros que passaram pelo local.
A descoberta das pegadas ocorreu em 1985, após intervenções no terreno de uma empresa de cimento. Entre 1994 e 1998, o paleontólogo suíço Christian Meyer ajudou a reconhecer a importância do achado para a paleontologia.
Hoje, o paredão integra o Parque Cretácico de Cal Orcko, próximo a Sucre, capital constitucional da Bolívia. O local também ganhou réplicas de dinossauros em tamanho natural, mas é a parede que guarda a atração mais surpreendente.









