Em junho deste ano, a Hellships Memorial Foundation encontrou na costa das Filipinas os destroços do navio Hōfuku Maru, cargueiro japonês afundado durante a Segunda Guerra Mundial. O navio carregava mais de mil prisioneiros britânicos e holandeses e naufragou há 80 anos.
O Hōfuku Maru repousa a cerca de 50 metros de profundidade e foi identificado por uma equipe que incluiu o explorador Josh Gates, após anos de cruzamento de registros militares japoneses e americanos.
O que aconteceu com o navio?
O navio Hōfuku Maru foi construído em 1918 no Japão, inicialmente para atuar como um cargueiro mercante comum. Em 1941, na Segunda Guerra Mundial, ele passou a ser usado para transporte militar.
Em 20 de setembro de 1944, ele deixou a capital das Filipinas junto com o comboio japonês MATA-27, formado por 11 navios. A bordo estavam 1.289 prisioneiros, muitos já enfraquecidos por meses de trabalho forçado na construção da ferrovia Birmânia-Tailândia, a chamada ‘Ferrovia da Morte’.
Na manhã seguinte, 21 de setembro, aviões da Marinha dos Estados Unidos avistaram o comboio. O Hōfuku Maru não tinha nenhuma marcação que o identificasse como transporte de prisioneiros. Por isso, aviões de guerra americanos confundiram a embarcação com um navio de carga militar japonês legítimo.
Por volta das 10h30, dezenas de caças e bombardeiros lançados dos porta-aviões americanos iniciaram um ataque em massa. O navio foi atingido primeiro por uma bomba de 450 quilos na popa. Minutos depois, pelo menos um torpedo atingiu o navio na região central do casco.
O impacto partiu a embarcação ao meio. Testemunhas relataram que o navio afundou em menos de cinco minutos, deixando centenas de prisioneiros presos nos porões escuros, sem qualquer chance de fuga.
Dos cerca de 1.200 prisioneiros a bordo, apenas 242 conseguiram nadar até a costa e muitos foram recapturados pelas forças japonesas logo em seguida. Outros 42 sobreviventes foram resgatados por navios-escolta japoneses e levados a Taiwan. Ao todo, estima-se que mais de mil prisioneiros de guerra morreram no naufrágio, além de soldados e tripulantes japoneses.
Foi um episódio trágico de fogo amigo involuntário, resultado da falta de identificação exigida pelas convenções de guerra da época.
Por que os sobreviventes o apelidaram de ‘navio do inferno’?
O apelido reflete as condições brutais enfrentadas pelos prisioneiros durante a viagem. Relatos de sobreviventes descrevem porões escuros e metálicos, calor sufocante e ausência total de ventilação ou condições sanitárias.
Muitos prisioneiros morriam de sede, exaustão e espancamentos antes mesmo de qualquer combate. O Japão usou 56 embarcações desse tipo para transportar mais de 62 mil prisioneiros durante o conflito. 19 delas foram afundadas por fogo aliado.
Oito décadas de mistério
Até junho deste ano, a localização dos destroços do navio era desconhecida e a descoberta só foi possível graças aos registros de guerra japoneses. Eles indicavam que o naufrágio ocorrera a mais de 30 milhas do ponto até então considerado correto pelos historiadores.
Drones subaquáticos mapearam três seções distintas do casco espalhadas pelo leito marinho, e a Agência de Patrimônio Cultural dos Países Baixos confirmou a identificação. Como restos humanos foram encontrados no local, o naufrágio agora é oficialmente reconhecido como túmulo de guerra, protegido por convenções internacionais que impedem qualquer escavação.






