Segunda-feira de manhã, seu despertador toca, mas bate aquela preguiça de levantar da cama? Cuidado! Isso pode ser disania.
Ou talvez você não tivesse ficado até tarde, ontem a noite, assistindo a um filme de terrir, você conseguisse acordar mais cedo e descansado.
Mas, mudando de assunto agora… E essa pejoatização do mercado? Dá até saudade de ser CLT.
Se você não entendeu nada dos parágrafos acima, não se desespere. “Disania”, “terrir” e “pejotização” são três novas palavras que ainda não existem no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (Volp). Mas estão em uma “lista de espera” aguardando a decisão dos lexicógrafos da Academia Brasileira de Letras (ABL) para saber se vão ou não serem incorporadas de forma oficial no idioma.
- Disania – dificuldade extrema de sair da cama pela manhã, mesmo após uma noite de sono
- Terrir – gênero de filme ou obra que mistura terror e humor
- Pejotização – prática de contratar um trabalhador como pessoa jurídica (PJ)
O que é Volp?
Volp é o documento oficial que determina qual a grafia correta de uma palavra seguindo a norma padrão do português brasileiro. É a lei da gramática.
Ao contrário dos dicionários que usamos em sala de aula – Houaiss e Aurélio, por exemplo – que o objetivo é ensinar o significado de uma palavra, que inclui até gírias e expressões populares que usamos no dia a dia, o Volp privilegia a norma culta de uma palavra.
Em sua busca ele não mostra o significado de uma palavra, mas sim, a forma correta de escrevê-la, a flexão dessa palavra (o pular, por exemplo) e a qual classe gramatical ela serve (se é um verbo, um substantivo, um adjetivo, etc.).
Critérios para se tornar uma palavra oficial, segundo o Volp
Para se tornar uma palavra oficial do vocabulário do português do Brasil, segundo o Volp, o termo deve seguir uma estabilidade e o uso contínuo na sociedade. Termos que são “modinhas de momento”, expressões da indústria do entretenimento ou memes que logo somem não devem ser registradas. É o que explica o linguista da USP Marcelo Módolo, em entrevista para o G1.
Por exeplo, em 2002 a TV Globo colocou ao ar a novela “O Clone”, que foi responsável por popularizar a palavra “Inshalá” – expressão árabe que significa “se Deus quiser” ou “se Alá quiser”. Pouco tempo depois, pós-fim da novela, o termo caiu em desuso. Neste caso, para o Volp, não faria sentido registrar a palavra no vocabulário brasileiro.
Os principais critérios para incorporar um novo termo ao vocabulário brasileiro são os seguintes:
- Ocorrência em textos escritos: a palavra precisa constar em materiais como reportagens, livros, artigos acadêmicos ou textos doutrinários.
- Presença em pelo menos três gêneros textuais distintos: é necessário que o vocábulo apareça em registros diversos — como reportagens jornalísticas, artigos científicos, textos técnicos e obras literárias.
- Uso estável e uniforme: o termo deve apresentar “homogeneidade de sentido em diferentes contextos”, sem variações de significado. Um neologismo que seja entendido de forma diferente por cada um pode não estar ainda consolidado na língua.
- Adaptação ortográfica, no caso de estrangeirismos: termos estrangeiros que mantêm a grafia original, como “spin-off” e “bullying”, costumam ser registrados em um vocabulário específico de palavras estrangeiras, distinto do Volp.
Além de “Disania”, “terrir” e “pejotização”, outras cinco palavras estão na “sala de espera” da Academia Brasileira de Letras (ABL) para entrarem ou não no vocabulário brasileiro. São elas:
- Cordonel – lona têxtil revestida com borracha crua, utilizada principalmente no conserto e na vulcanização de pneus.
- Microssono – brevíssimo período de sono, geralmente de poucos segundos, que ocorre de forma involuntária.
- Reclínio – ação ou estado de inclinar-se, dobrar-se, afastar-se de uma posição perpendicular ou deitar-se.
- Retrofitagem – processo de modernização de edifícios antigos, com a inserção de tecnologias e melhorias sem alterar a estrutura original.
- Tokenização – Na área de segurança, tokenizar é substituir um dado sensível (como um número de cartão de crédito) por um código aleatório (o token), que não tem valor fora do sistema que o criou.
Por que novas palavras continuam surgindo?
A língua está em constante transformação, impulsionada por fatores como avanços tecnológicos, mudanças sociais e influências de outros idiomas. Esse movimento gera novos vocábulos por meio de fenômenos como:
- Empréstimos linguísticos – Palavras de outras línguas são incorporadas ao português, como podcast, bullying e emoji.
Muitas vezes, essas palavras são adaptadas na pronúncia ou grafia (football vira futebol). Algumas também mudam de sentido no novo idioma, como deletar ou point, que ganham significados diferentes do original. - Neologismos técnicos – Áreas como medicina, engenharia e direito criam novos termos conforme surgem técnicas e conceitos, como retrofitagem e cibersegurança.





