Primeiro vem a viagem. Depois, meses cortando cana sob o sol. E, quando a menstruação chega, até um dia de descanso pode significar dinheiro perdido. Para algumas mulheres da Índia, a saída encontrada foi extrema: retirar o próprio útero.
A história veio à tona anos atrás, mas não ficou no passado. Em Beed, no estado de Maharashtra, autoridades continuam investigando possíveis histerectomias desnecessárias entre trabalhadoras da cana.
Entre janeiro de 2024 e maio de 2025, 115 trabalhadoras passaram por histerectomias no distrito. O número não significa que todas as cirurgias tenham sido consideradas indevidas, mas chamou atenção em meio às denúncias de pressão sobre as mulheres.
Em 2026, o governo de Maharashtra voltou a colocar o caso sob investigação, reconstituindo uma comissão estadual e anunciando novas apurações sobre possíveis procedimentos indevidos em hospitais privados.
Tudo começa quando chega a temporada de cana
Todos os anos, famílias pobres deixam suas casas para acompanhar a colheira da cana-de-açúcar. Durante cerca de seis meses, ela vivem perto das plantações, muitas vezes em barracas ou cabanas sem banheiros.
O trabalho pode acontecer até durante a noite, sem horários fixos para trabalhar ou dormir. Para as mulheres, existe ainda uma dificuldade que aparece todos os meses: a menstruação.
Alguns empregadores, segundo pesquisas, resistiam à contratação de mulheres porque elas poderiam perder dias de trabalho durante o período menstrual.
Faltar também poderia significar multas. Então surge uma dúvida cruel. Trabalhar com dor e sem estrutura adequada ou perder dinheiro.
A cirurgia que parecia ser uma saída
É nesse ponto que a história fica difícil de imaginar. Algumas mulheres procuravam médicos por problemas ginecológicos. Em determinados casos elas eram encaminhadas para a retirada do útero mesmo quando o problema poderia ser tratado com medicamentos.
Para mulheres jovens, muitas delas com filhos e pouco acesso a informações médicas, a cirurgia podia parecer uma solução simples.
Sem útero, não haveria menstruação. Sem menstruação, não haveria aquele problema no trabalho. Só que a conta não terminava ali.
Em 2018 e 2019, metade das mulheres haviam passado pela cirurgia. A maioria tinha menos de 40 anos e algumas ainda estavam na casa dos 20. Muitas ainda relataram que a saúde piorou depois do procedimento.
O problema voltou a chamar atenção
Anos depois, os números mostram que a questão continua sendo acompanhada. Em 2024, 63 trabalhadoras da cana passaram por histerectomias em Beed. Nos cinco primeiros meses de 2025, foram registradas outras 52.
Ao mesmo tempo, hospitais privados recusaram 22 pedidos em 2024 e mais seis até maio de 2025, mostrando que os procedimentos passaram a receber maior fiscalização. Em 2026, a investigação ganhou outra etapa.
A tentativa é chegar antes da cirurgia
A resposta também começou a sair dos hospitais. Iniciativas recentes passaram a levar informações e atendimento para os acampamentos onde vivem as trabalhadoras migrantes.
Mulheres da própria comunidade foram treinadas para prestar primeiros socorros e orientar colegas sobre quando procurar atendimento. A proposta é facilitar o acesso à saúde antes que problemas ginecológicos se agravem e que uma cirurgia seja considerada.
Entre os desafios estão as condições precárias dos acampamentos, a falta de banheiros e o acesso limitado a serviços médicos durante a temporada de trabalho.






