Sem opção: o drama das cortadoras de cana que removem o útero em lavouras na Índia

Em comunidades de trabalhadoras da cana-de-açúcar, a menstruação virou um obstáculo para conseguir renda e levou mulheres a uma cirurgia definitiva

Para muitas mulheres, a menstruação deixou de ser apenas uma questão de saúde e passou a representar também um problema financeiro (Foto: Bhaskaranaidu/ Wikimedia Commons)

Para muitas mulheres, a menstruação deixou de ser apenas uma questão de saúde e passou a representar também um problema financeiro (Foto: Bhaskaranaidu/ Wikimedia Commons)

Primeiro vem a viagem. Depois, meses cortando cana sob o sol. E, quando a menstruação chega, até um dia de descanso pode significar dinheiro perdido. Para algumas mulheres da Índia, a saída encontrada foi extrema: retirar o próprio útero.

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A história veio à tona anos atrás, mas não ficou no passado. Em Beed, no estado de Maharashtra, autoridades continuam investigando possíveis histerectomias desnecessárias entre trabalhadoras da cana.

Entre janeiro de 2024 e maio de 2025, 115 trabalhadoras passaram por histerectomias no distrito. O número não significa que todas as cirurgias tenham sido consideradas indevidas, mas chamou atenção em meio às denúncias de pressão sobre as mulheres.

Em 2026, o governo de Maharashtra voltou a colocar o caso sob investigação, reconstituindo uma comissão estadual e anunciando novas apurações sobre possíveis procedimentos indevidos em hospitais privados.

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Tudo começa quando chega a temporada de cana

Todos os anos, famílias pobres deixam suas casas para acompanhar a colheira da cana-de-açúcar. Durante cerca de seis meses, ela vivem perto das plantações, muitas vezes em barracas ou cabanas sem banheiros.

O trabalho pode acontecer até durante a noite, sem horários fixos para trabalhar ou dormir. Para as mulheres, existe ainda uma dificuldade que aparece todos os meses: a menstruação.

Alguns empregadores, segundo pesquisas, resistiam à contratação de mulheres porque elas poderiam perder dias de trabalho durante o período menstrual.

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Faltar também poderia significar multas. Então surge uma dúvida cruel. Trabalhar com dor e sem estrutura adequada ou perder dinheiro.

A cirurgia que parecia ser uma saída

É nesse ponto que a história fica difícil de imaginar. Algumas mulheres procuravam médicos por problemas ginecológicos. Em determinados casos elas eram encaminhadas para a retirada do útero mesmo quando o problema poderia ser tratado com medicamentos.

Para mulheres jovens, muitas delas com filhos e pouco acesso a informações médicas, a cirurgia podia parecer uma solução simples.

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Sem útero, não haveria menstruação. Sem menstruação, não haveria aquele problema no trabalho. Só que a conta não terminava ali.

Em 2018 e 2019, metade das mulheres haviam passado pela cirurgia. A maioria tinha menos de 40 anos e algumas ainda estavam na casa dos 20. Muitas ainda relataram que a saúde piorou depois do procedimento.

O problema voltou a chamar atenção

Anos depois, os números mostram que a questão continua sendo acompanhada. Em 2024, 63 trabalhadoras da cana passaram por histerectomias em Beed. Nos cinco primeiros meses de 2025, foram registradas outras 52.

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Ao mesmo tempo, hospitais privados recusaram 22 pedidos em 2024 e mais seis até maio de 2025, mostrando que os procedimentos passaram a receber maior fiscalização. Em 2026, a investigação ganhou outra etapa.

A tentativa é chegar antes da cirurgia

A resposta também começou a sair dos hospitais. Iniciativas recentes passaram a levar informações e atendimento para os acampamentos onde vivem as trabalhadoras migrantes.

Mulheres da própria comunidade foram treinadas para prestar primeiros socorros e orientar colegas sobre quando procurar atendimento. A proposta é facilitar o acesso à saúde antes que problemas ginecológicos se agravem e que uma cirurgia seja considerada.

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Entre os desafios estão as condições precárias dos acampamentos, a falta de banheiros e o acesso limitado a serviços médicos durante a temporada de trabalho.