Por alguns anos, Xu Jiayin parecia representar exatamente o tipo de história que acompanha o crescimento vertiginoso da economia chinesa: um homem de origem humilde que construiu um império bilionário e se tornou uma das figuras mais poderosas do mercado imobiliário.
A trajetória, porém, terminou de forma muito diferente. Em 20 de agosto de 2026, o fundador da Evergrande foi condenado à prisão perpétua por um tribunal de Shenzhen, em um dos capítulos mais simbólicos da crise que abalou o setor imobiliário chinês.

Aos 67 anos, Xu Jiayin, também conhecido pelo nome cantonês Hui Ka Yan, teve os bens pessoais confiscados e perdeu os direitos políticos por toda a vida. A decisão veio após um julgamento que envolveu acusações de fraude financeira, uso ilegal de recursos, emissão fraudulenta de valores mobiliários e suborno.
De origem humilde ao topo do mercado imobiliário
Xu Jiayin nasceu em uma família de origem modesta e construiu sua carreira em um momento de forte expansão urbana na China. Em 1996, fundou a Evergrande, empresa que cresceu rapidamente acompanhando a valorização do mercado imobiliário do país.
A companhia se transformou em uma gigante do setor e chegou a ser a maior incorporadora da China em vendas. Com a expansão dos negócios, Xu passou a acumular uma fortuna estimada em US$ 45,3 bilhões em 2017, segundo dados citados pela Reuters.
O patrimônio, entretanto, evaporou junto com o valor da Evergrande. Em poucos anos, o empresário passou de símbolo do sucesso empresarial chinês a protagonista de uma das maiores quedas corporativas do país.
Futebol, luxo e a imagem de um bilionário
A influência de Xu não ficou restrita ao mercado imobiliário. Em 2010, ele comprou o clube Guangzhou Evergrande, que enfrentava dificuldades financeiras, e investiu pesado na equipe.
O projeto esportivo ganhou repercussão internacional com a contratação de jogadores e treinadores de alto nível. O clube conquistou títulos importantes e ajudou a transformar Xu em uma figura ainda mais conhecida na China.
Fora dos estádios, o empresário também ficou associado ao luxo. Seu interesse por marcas sofisticadas, incluindo a francesa Hermès, chamou atenção da imprensa e contribuiu para a construção de uma imagem de ostentação.
Essa combinação de negócios, futebol e riqueza ajudou a transformar Xu em uma celebridade empresarial em um país que, naquele momento, experimentava uma rápida ascensão econômica.
Quando o império começou a desmoronar

O crescimento da Evergrande foi acompanhado por uma estratégia agressiva de expansão e endividamento. O grupo acumulou compromissos financeiros gigantescos enquanto o governo chinês endurecia as regras para limitar o excesso de alavancagem das incorporadoras.
A situação se tornou crítica em 2021, quando a Evergrande entrou em default em meio a uma montanha de dívidas superior a US$ 300 bilhões. O colapso contribuiu para aprofundar a crise do mercado imobiliário chinês.
A empresa posteriormente entrou em processo de liquidação, após anos de dificuldades para reorganizar suas contas e recuperar ativos. A crise também atingiu consumidores, investidores, fornecedores e outras incorporadoras do país.
Fortuna bilionária virou uma fração do passado
A velocidade da queda financeira chama atenção. A fortuna de Xu, que chegou a dezenas de bilhões de dólares, despencou conforme a Evergrande acumulava perdas e enfrentava processos judiciais.
Em 2023, estimativas da Bloomberg apontavam que seu patrimônio havia recuado para cerca de US$ 1,8 bilhão, uma diferença gigantesca em relação ao pico registrado seis anos antes.
A trajetória mostra como a riqueza de grandes empresários pode estar diretamente ligada à valorização das empresas que controlam, e como uma crise corporativa pode destruir rapidamente anos de patrimônio.
Prisão perpétua e novas multas para a Evergrande
Antes da sentença final, Xu já havia admitido culpa durante o julgamento realizado em Shenzhen em abril de 2026. Na ocasião, ele também expressou arrependimento.
Na decisão de 20 de agosto, o tribunal determinou prisão perpétua, confisco de todos os bens pessoais e perda dos direitos políticos por toda a vida. A Justiça chinesa também determinou a continuidade da recuperação de ganhos considerados ilícitos.
A própria Evergrande recebeu uma multa de 8,82 bilhões de yuans, enquanto a Evergrande Real Estate foi condenada a pagar outros 7 bilhões de yuans. Juntas, as punições chegam a 15,82 bilhões de yuans, cerca de US$ 2,35 bilhões.
