De um estande coletivo a uma editora de romances: como nasceu e cresceu a Unicorn Books

Projeto começou com escritoras independentes que buscavam dividir espaço em eventos e, quatro anos depois, chegou à Bienal de São Paulo com catálogo próprio e dezenas de autoras

Estande da Unicorn Books na Bienal do Livro de 2026 em São Paulo. (Foto: Divulgação/Unicorn Books)

Estande da Unicorn Books na Bienal do Livro de 2026 em São Paulo. (Foto: Divulgação/Unicorn Books)

Entre os milhares de leitores que passaram pela Bienal Internacional do Livro de São Paulo em 2026, a Unicorn Books ocupava um espaço que remetia diretamente à própria origem da empresa. Quatro anos antes, uma tentativa de reunir escritoras independentes em eventos literários começou a desenhar o que mais tarde se tornaria a editora.

Continua após a publicidade

No último dia da Bienal, realizada entre 4 e 13 de setembro no Distrito Anhembi, a Gazeta de S.Paulo conversou com o CEO da Unicorn, Rodrigo Castanheira, e com escritoras ligadas à casa. As entrevistas ajudam a reconstruir uma trajetória que nasceu de um problema prático e avançou até se transformar em um negócio dedicado principalmente às diferentes vertentes do romance.

Formalizada em fevereiro de 2023, no Rio de Janeiro, a Unicorn Editora Livraria e Marketing surgiu depois que um grupo de escritoras independentes buscou uma maneira de participar conjuntamente de feiras e encontros com leitores. Hoje, a Unicorn Books se apresenta como uma editora nacional focada em autores de romances.

Antes da editora, havia um grupo de escritoras

Rodrigo define o nascimento da empresa como um processo pouco planejado.

Continua após a publicidade

A Unicorn nasceu meio que organicamente, afirma.

Segundo ele, sua irmã, também escritora, integrava o grupo que tentou organizar um espaço coletivo em 2022.

Logo, porém, a ideia esbarrou em uma questão administrativa. De acordo com o CEO, a operação precisava conciliar 12 CNPJs diferentes. O número se refere às estruturas empresariais envolvidas naquele momento e não necessariamente à quantidade exata de escritoras.

Continua após a publicidade

Era muito difícil porque eram 12 CNPJs, 12 empresas para se transformar em um único negócio.

Foi então que a irmã aproximou Rodrigo do projeto. Até aquele momento, ele não atuava no mercado de livros. O empresário conta que acumulava 23 anos de experiência no setor de eventos e passou a aplicar esse conhecimento na organização da iniciativa.

Ela teve a ideia porque eu tinha experiência empresarial, experiência com eventos. Ela falou: ‘Meu irmão pode tentar direcionar’.

A princípio, a proposta buscava apenas viabilizar a presença conjunta das escritoras em eventos. Com o tempo, porém, o grupo percebeu que aquela organização poderia continuar além das feiras. No ano seguinte, a iniciativa ganhou formato empresarial e a Unicorn passou a atuar como editora.

Uma visão trazida de fora do mercado editorial

Rodrigo não esconde a falta de experiência anterior dentro de editoras. Pelo contrário, ele considera essa origem uma das características que influenciaram a maneira de conduzir o negócio.

Continua após a publicidade

Eu e meu sócio não somos pessoas do mercado editorial originalmente”, conta.

Na avaliação do CEO, chegar ao setor por outro caminho permitiu observar certas relações sob uma perspectiva diferente.

A partir dessa lógica, Rodrigo passou a colocar a proximidade com quem escreve entre os pilares da empresa.

Continua após a publicidade

Eu acho que o segredo está no meu contato com as autoras. Um dos segredos é a forma como eu lido com elas.

Essa relação ajuda a explicar por que a história da Unicorn se conecta tão diretamente a escritoras que já construíam trajetórias próprias antes mesmo da criação da empresa.

Tatiana Amaral e Ary Nascimento levaram a escrita da internet para a profissão

Tatiana Amaral é uma dessas autoras. Escritora há 16 anos, ela conta que começou a publicar quase sem pretensão profissional. A própria Unicorn a apresenta como autora best-seller da Amazon, com mais de 60 romances publicados.

Quando eu comecei a escrever, eu achava que não seria nada. Foi uma brincadeira na internet, deu certo muito rápido e aí eu larguei tudo na minha vida para ser só escritora.

Antes dos livros, Tatiana trabalhava em outra área. Formada em Administração e Marketing, administrava uma empresa até decidir dedicar a rotina integralmente à literatura.

Continua após a publicidade

Larguei trabalho, larguei tudo e comecei só a escrever. Graças a Deus, até hoje eu vivo da minha escrita.”

Ao relembrar os títulos que impulsionaram sua carreira, ela cita Função CEO, Professor e O Diário de Miranda. As obras também mostram a importância que o ambiente digital teve para uma parcela das escritoras que posteriormente passaram a trabalhar com a Unicorn.

Os três foram para plataforma gratuita, depois viraram livro, ficaram em primeiro lugar rápido na Amazon e entraram para a lista dos livros físicos mais vendidos”, afirma.

Continua após a publicidade

Ary Nascimento também integra esse grupo. Carioca e farmacêutica bioquímica por formação, construiu carreira no romance e consolidou presença nas plataformas digitais, com destaque para histórias marcadas por relações intensas e tramas ambientadas no universo da máfia.

Segundo a Unicorn Books, a autora acumulou milhões de leituras e chegou à editora com público próprio e identidade literária já estabelecida, reforçando o perfil de escritoras que ajudou a moldar o catálogo da casa.

Assim, a presença de Tatiana e Ary ajuda a revelar uma particularidade da origem da casa: em muitos casos, a editora não apresentou uma escritora desconhecida aos leitores. Parte dessas autoras já chegava acompanhada por comunidades formadas anteriormente.

Continua após a publicidade

Kel Costa e a distância entre escrever e encontrar quem lê

Essa relação ganha outra dimensão na fala de Kel Costa, entrevistada no estande da Unicorn durante a Bienal de 2026.

Acostumada a publicar para uma audiência construída também nas plataformas digitais, Kel chama atenção para um contraste pouco visível para quem acompanha apenas números de venda e leitura. Segundo a apresentação da própria editora, ela publica desde 2014 e está na Amazon desde 2016.

A profissão do escritor é uma profissão muito solitária

Grande parte do trabalho acontece longe do público. Meses de escrita, revisão e preparação podem passar antes que o autor tenha contato direto com quem acompanha aquela história.

Continua após a publicidade

Por isso, Kel vê os eventos literários como uma ruptura importante dessa rotina.

A Bienal, acho que para todos os autores, é um momento único que a gente vive.” afirma a autora.

Na prática, a feira transforma uma audiência normalmente percebida por comentários, mensagens e indicadores das plataformas em pessoas diante dos escritores.

Continua após a publicidade

Quando a gente consegue conhecer os nossos leitores, ver o rostinho de cada um...”, relata.

Com isso, a fala de Kel também ajuda a explicar por que os encontros presenciais continuaram relevantes para a Unicorn mesmo depois que a empresa deixou de funcionar apenas como uma solução para organizar um grupo em uma feira.

Bienal de 2026 devolveu a Unicorn ao ponto de partida

A edição deste ano voltou a colocar escritores, editora e leitores frente a frente. Tatiana Amaral, Ary Nascimento, Kel Costa e outros nomes do catálogo fizeram parte de uma presença que hoje ultrapassa a simples divisão de espaço entre independentes.

Continua após a publicidade

Quatro anos antes, segundo Rodrigo, o desafio consistia em conciliar diferentes empresas para colocar livros em um mesmo ambiente. Em 2026, a Gazeta realizou as entrevistas dentro do espaço de uma editora já formalizada e dedicada à expansão do próprio catálogo.

Agora, Rodrigo pretende ampliar também a variedade de romances oferecidos.

Eu quero cada vez mais trazer novas autoras, com novos tipos de romance. Nós não temos ainda todos os tipos.”

Continua após a publicidade

Entre as vertentes que podem ganhar mais espaço, ele cita romance de época e comédia romântica.

São tantas vertentes que você não consegue nem acompanhar.”

A história da Unicorn percorreu, portanto, um caminho pouco convencional. Primeiro vieram as escritoras. Parte dos leitores também já estava ali. Depois, surgiu a necessidade de organizar essa relação sob uma estrutura comum.

Continua após a publicidade

Na Bienal de 2026, o ponto de partida continuava visível: a empresa cresceu e se transformou em editora, mas voltou ao mesmo lugar que ajudou a dar origem ao negócio, um espaço onde quem escreve finalmente encontra, frente a frente, quem lê.