Alzheimer pode ser diagnosticado por exame de sangue antes mesmo da perda de memória

Pesquisa espanhola mostra que exame de sangue eleva precisão dos diagnósticos e identifica Alzheimer antes dos sintomas

A análise reuniu múltiplos estudos e apontou que a versão plasmática da proteína reflete processos neurodegenerativos ligados à doença

A análise reuniu múltiplos estudos e apontou que a versão plasmática da proteína reflete processos neurodegenerativos ligados à doença | Freepik

Diagnosticar a doença de Alzheimer por meio de exame de sangue passa a integrar a prática clínica e pode modificar a condução de uma das enfermidades neurodegenerativas mais prevalentes no mundo.

Atualmente, 57 milhões de pessoas vivem com demência e a estimativa é que esse número aumente para 139 milhões até 2050, segundo a Organização Mundial da Saúde. O Alzheimer responde por 60% a 70% dos diagnósticos.

A proteína p-tau217 concentra as pesquisas voltadas à detecção precoce da doença. Estudos indicam que o biomarcador sanguíneo eleva a precisão médica e amplia a segurança na definição do diagnóstico.

Estudo clínico na Espanha

Na Espanha, 200 pacientes sintomáticos com mais de 50 anos participaram de uma investigação sobre a eficácia da p-tau217 como marcador do Alzheimer.

Os resultados foram publicados no Journal of Neurology e a precisão diagnóstica foi de 75,5% quando baseada apenas na avaliação clínica. Já com a inclusão do exame de sangue, o índice alcançou 94,5%.

A pesquisa foi liderada por Jordi A. Matías-Guiu, da Universidade Complutense de Madrid. O uso do biomarcador levou à mudança de diagnóstico em cerca de um a cada quatro pacientes.

Parte dos casos inicialmente classificados como Alzheimer revelou outras condições: situações atribuídas ao envelhecimento normal passaram a ser identificadas como doença.

Os sintomas do Alzheimer, como se esquecer do que comeu no dia anterior ou o nome de objetos corriqueiros, devem gerar um alerta, mas por si só não garantem diagnóstico.

A confiança dos médicos também aumentou. A média passou de 6,90 para 8,49 em escala de 10 pontos. A proteína demonstrou capacidade de identificar desde perda de memória leve até demência em estágio avançado.

Achados científicos

Uma revisão publicada na revista Nature reforçou a relevância da p-tau217 como biomarcador associado ao Alzheimer. O conteúdo foi compartilhado pelo cardiologista Eric Topol.

O trabalho foi liderado por Henrik Zetterberg, da Universidade de Gotemburgo, em parceria com Barbara Bendlin, da Universidade de Wisconsin-Madison.

A análise reuniu múltiplos estudos e apontou que a versão plasmática da proteína reflete processos neurodegenerativos ligados à doença. Além disso, a perda de memória derivada do Alzheimer vem do “modo de repetição” do cérebro, que, quando falha, é sinal perigoso.

Tecnologias biomoleculares permitem detectar no sangue moléculas associadas a danos neuronais em concentrações mínimas. Esse recurso amplia o acesso a tratamentos direcionados e a ensaios clínicos.

Importância dos biomarcadores

Biomarcadores baseados em biofluidos transformaram a pesquisa e o tratamento de doenças neurodegenerativas ao fornecer informações sobre a base molecular do Alzheimer e de outras demências, segundo os autores da revisão.

A Fundação Pasqual Maragall define biomarcadores como indicadores biológicos utilizados para medir processos corporais, alterações patológicas ou respostas a tratamentos.

Esses marcadores permitem identificar a doença antes do surgimento de sintomas clínicos, acompanhar a progressão e avaliar a eficácia de terapias.

A adoção do exame de sangue como ferramenta diagnóstica ocorre em um cenário de crescimento projetado dos casos de demência nas próximas décadas e aponta para diagnósticos mais rápidos e menos invasivos.