Vale relembrar uma tradição que nunca sai de moda: o feat que vira evento. Feats sempre foram mais do que “participações especiais”. Quando funcionam, aproximam gêneros, misturam públicos e registram um recorte de época que não se repete do mesmo jeito.
Da bossa nova que atravessou fronteiras ao encontro improvável entre rap e rock, esta seleção reúne cinco parcerias que voltam ao repertório por nostalgia e porque ainda soam atuais.
Hips Don’t Lie (2005)
Enquanto Bad Bunny viraliza com músicas que criticam a postura dos EUA para com a América Latina em 2026, a parceria entre Shakira e Wyclef Jean já tinha feito isso com um feat imortalizado no começo dos anos 2000.
Com um ritmo envolvente, a música se tornou um hit instantâneo, mas carregava um forte teor crítico “oculto”. Em certos trechos, Wyclef rimava sobre as desigualdades e injustiças dos latinos. Porém, Shakira apenas continuava dançando feliz e sorridente, como quem ignora todos os problemas e foca apenas na diversão, como uma cortina de fumaça.
“Por que a CIA quer nos vigiar? São os colombianos e haitianos. Não sou culpado, é uma transação musical. […] Refugiados dominam os mares, porque temos nossos próprios barcos, barcos (sem brigas)”
Wycleff Jean
O hit foi um dos responsáveis por tornar a Shakira um sex symbol com suas exímias e elásticas capacidades de dança (Foto: Shakira / YouTube)Girl from Ipanema (1967)
1967 foi marcado por um encontro de gigantes com a criação do álbum Francis Albert Sinatra & Antonio Carlos Jobim. Fruto da união de um dos maiores nomes do jazz americano e da bossa nova brasileira.
Frequentemente, e erroneamente, categorizada como jazz, a bossa nova foi a protagonista do álbum, concentrando vários sucessos dos cantores em versões adaptadas e cantadas simultaneamente em inglês e português.
Apesar de ter semelhanças e muitas vezes ser intitulada de “jazz brasileiro”, a bossa nova é um gênero musical próprio e que ainda vive (Foto: Frank Sinatra / YouTube)We Are the World (1985)
Idealizado pelo ativista Harry Belafonte e composto por Lionel Ritchie, Michael Jackson e Quincy Jones, o USA for Africa marcou o mundo como um dos maiores encontros de estrelas da música em um só lugar.
A canção conseguiu reunir nada mais do que 45 dos maiores cantores americanos dos anos 80, um feito quase impossível. Mas que foi conseguido pelos compositores que se aproveitaram que estava acontecendo o American Music Awards para colocar todos eles em um estúdio para gravar, tudo em único dia.
“Deixe seu ego na porta”
anotou Quincy Jones na porta do estúdio para relembrar que, por maiores que fossem aquelas estrelas, todos eles tinham uma missão maior em mãos.
O USA for Africa recebeu um remake em 2010, o USA for Haiti, que contou com grandes nomes da indústria americana moderna como Justin Bieber, Jennifer Hudson e Snoop Dogg.
Alguns dos grandes nomes que colaboraram nessa música incluem: Ray Charles, Bobby Dylan, Bruce Springsteen, Diana Ross, Willie Nelson e Stevie Wonder (Foto: Oxygene 80 / YouTube)How Can I Go On (1989)
Se a regra do feat é juntar universos diferentes, Freddie Mercury levou isso ao limite ao dividir os vocais com a soprano Montserrat Caballé. O encontro uniu o peso dramático da ópera com a força pop do rock, sem que um lado tentasse “domar” o outro.
Em How Can I Go On, e nas demais faixas do álbum Barcelona, a dualidade vira a própria mensagem: o desespero da pergunta do título se mistura a momentos de esperança, como se a música alternasse entre queda e fôlego.
A icônica apresentação da música aconteceu no festival La Nit, em Barcelona, Espanha (Foto: Queen Official / YouTube)Numb / Encore (2004)
O Linkin Park já era conhecido por misturar rap e rock ao popularizar o subgênero musical conhecido como nu metal. Mas esses dois gêneros entraram em colisão com a colaboração da banda com o rapper Jay-Z na criação do lendário EP Collision Course.
O “micro-álbum” conta com seis faixas exclusivas e dentre elas a mais famosa é o Numb / Encore, que adiciona o hip hop com força em uma das músicas mais famosas do Linkin Park.
O nu-metal é um subgênero do metal que carrega o hip hop para dentro do metal (Foto: Linkin Park / YouTube)Ebony and Ivory (1982)
Quando Paul McCartney chamou Stevie Wonder para dividir uma canção sobre convivência, o resultado virou um daqueles feats que parecem óbvios depois que existem. Ebony and Ivory é simples na forma, mas ambiciosa no recado, usando o próprio piano como metáfora para falar de diferenças que precisam coexistir.
Por isso ela foi além do hit e entrou no imaginário popular como “música de mensagem”. Em um período de tensões raciais ainda muito expostas no debate público, a parceria de dois gigantes funcionou como um lembrete direto.
Entre as teclas pretas e brancas do piano, os cantores propõe um debate sobre igualdade racial (Foto: Santi Toselli / YouTube)Get Lucky (2013)
Em 2013, o Daft Punk voltou apostando numa fórmula que parecia simples, mas era cirúrgica: groove de disco, guitarra de Nile Rodgers e a voz de Pharrell Williams no centro.
O resultado foi uma música que tocou em todo lugar e virou símbolo de uma era em que o pop redescobriu o funk e o retrô sem parecer paródia.
O clipe é marcado pelas roupas reflexivas e retrofuturistas do Daft Punky (Foto: convar HUN / YouTube)METAL FORTH (2025)
Talvez o feat mais novo e menos expressivo dessa lista, o Metal Forth foi um álbum recente composto pela excêntrica banda de metal Babymetal em colaboração com diversos outros nomes do metal moderno como o Electric Callboy, Bring Me the Horizon e Slaughter to Prevail.
A união desses nomes não é apenas uma colaboração comum, mas uma iniciativa conjunta dessas bandas ascendentes de explodir suas bolhas e reinventar o metal. Um grande feito em um cenário em que o gênero se torna cada vez menos popular.
A banda BABYMETAL ficou famosa pela figura das suas cantoras, que mesclam a potência do rock em instrumentais pesados e a voz doce e delicada do J-Pop (Foto: BABYMETAL / YouTube)Telephone (2010)
Telephone virou um marco porque juntou duas forças do pop no auge e transformou a colaboração em evento. Lady Gaga e Beyoncé não fizeram apenas um feat, criaram uma cena: uma música feita para tocar alto, com refrão fácil de reconhecer e energia de pista que não tenta ser discreta.
A graça está no jogo de personagens. Gaga entrega o drama teatral, Beyoncé entra como presença dominante e segura, e a música vira um diálogo cheio de atitude, como se cada verso empurrasse o outro para ser maior. É pop maximalista, com cara de hit feito para atravessar gerações de playlists.
O pop transborda pela música, mas também no clipe marcado com cores fortes e vivas (Foto: Lady Gaga / YouTube)








